Dois anos após trocar o cockpit da Aston Martin pelo cotidiano fora dos circuitos, Sebastian Vettel voltou a cruzar uma linha de chegada com o cronômetro a seu favor. No domingo (26), o tetracampeão alemão da Fórmula 1 completou a Maratona de Londres em 2h59min08s — dentro da meta que havia estabelecido para si mesmo e, o mais relevante, na primeira vez que disputava uma prova de 42 km em toda a vida.

De Maranello às ruas de Londres

A transição de Vettel para o atletismo de longa distância não foi impulsiva. O alemão, que acumulou 53 vitórias e 299 largadas na F1 entre Red Bull e Ferrari, manteve a disciplina física como parte da rotina mesmo após a aposentadoria em 2022. Corrida e ciclismo já faziam parte da sua rotina de manutenção aeróbica — e foi essa base que sustentou a preparação específica para os 42,195 km das ruas londrinas.

Vettel correu ao lado do jornalista e apresentador do podcast Beyond The Grid, Tom Clarkson, e ambos usaram a participação como plataforma para arrecadar recursos para duas instituições ligadas à Fórmula 1 há mais de três décadas. A Brain & Spine Foundation foi cofundada pelo médico Professor Sid Watkins — o mesmo que chefiou a área médica da categoria durante décadas e era amigo próximo de Ayrton Senna, falecido em 2012. O Grand Prix Trust, por sua vez, foi criado pelo tricampeão Jackie Stewart para apoiar funcionários da F1 em momentos de dificuldade pessoal e financeira.

De Maranello às ruas de Londres Vettel termina Maratona de Londres abaix
De Maranello às ruas de Londres Vettel termina Maratona de Londres abaix
"Eu sempre quis correr uma maratona. Para me manter em forma, fiz muita corrida, muito ciclismo. Então pensei que estava na hora e coloquei um objetivo ambicioso, que consegui cumprir. Queria estar um pouco abaixo das três horas, o que eu consegui, então estou muito feliz com isso", declarou Vettel à BBC Sports logo após cruzar a linha de chegada.

O que a F1 ensina sobre resistir ao limite

A confissão de que "pareceu muito longo" revela um atleta honesto sobre suas próprias limitações — mas também um competidor que soube gerenciar o esforço dentro da prova. A gestão de ritmo, aliás, é uma habilidade que qualquer piloto de elite desenvolve ao longo de décadas: economizar energia nos primeiros terços de uma corrida para sustentar a performance quando o carro ou o corpo começam a protestar. No caso de Vettel, manter uma média de aproximadamente 4min15s por quilômetro ao longo de toda a prova exige exatamente esse tipo de controle.

Segundo levantamento do SportNavo, nenhum outro tetracampeão de F1 havia disputado uma maratona de rua oficial antes desta edição londrina. Vettel se torna, assim, o corredor com mais títulos máximos na categoria a concluir os 42 km — e fez isso na única tentativa até agora.

"Pareceu muito longo, mas era a minha primeira vez, então não sabia o que esperar. Mas foi incrível ver a quantidade de pessoas que estavam próximas ao circuito, e o quão feliz todo mundo estava. Tendo vivido a experiência, só posso recomendar às pessoas que se inscrevam", completou o alemão.

Uma edição histórica para além do ex-piloto

A Maratona de Londres de 2026 já seria memorável sem Vettel. O queniano Sebastian Sawe, de 31 anos, cruzou a linha de chegada masculina em 1h59min30s — tornando-se o primeiro ser humano a completar os 42 km abaixo da barreira de duas horas em prova oficial de rua. O etíope Yomif Kejelcha ficou em segundo com 1h59min41s, e o ugandense Jacob Kiplimo fechou o pódio em 2h00min35s — exatamente o recorde mundial anterior, registrado por Kelvin Kiptum na Maratona de Chicago em 2023. No feminino, a etíope Tigst Assefa venceu em 2h15min41s, superando seu próprio recorde mundial anterior em 10 segundos. Os tempos ainda aguardam homologação oficial da World Athletics.

A análise do SportNavo aponta que Vettel foi apenas o segundo ex-piloto de F1 a disputar a Maratona de Londres — o primeiro havia sido Max Chilton, ex-Marussia, que correu na edição anterior para apoiar a RNLI. A diferença de notoriedade entre os dois participantes, no entanto, é proporcional à diferença nos títulos: Chilton nunca pontuou na F1; Vettel acumulou quatro campeonatos consecutivos entre 2010 e 2013. A próxima edição da Maratona de Londres está prevista para abril de 2027, e o próprio Vettel deixou no ar a possibilidade de repetir a experiência.