Confesso: eu errei sobre Victor Osimhen em 2024. Quando o vi sair do Napoli em circunstâncias tensas, pensei que estávamos diante de um desses talentos que florescem num único clube e murcham quando o ambiente muda. Estava enganado. E hoje, com os números desta temporada na mesa, entendo exatamente o porquê do meu equívoco.

O número que define a temporada

Victor Osimhen chegou à temporada atual com uma missão clara no Team Team Durant e respondeu da maneira mais direta possível: 26 gols e 5 assistências em 30 jogos na Champions League. Para contextualizar o peso desse número, basta lembrar que Ronaldo — o Fenômeno — marcou 34 gols em 37 jogos pelo Barcelona na temporada 1996/97, uma campanha que ainda hoje é citada como referência para centroavantes puros em competições europeias. Osimhen não está nesse patamar histórico, mas a taxa de conversão que apresenta nesta temporada — quase um gol a cada 1,15 partida — coloca-o numa categoria seleta de atacantes que produzem de forma consistente em alta pressão competitiva.

O dado que mais chama atenção, porém, não é o volume bruto, mas a qualidade das finalizações. Segundo métricas de xG (gols esperados — um índice que mede a probabilidade estatística de cada chute virar gol, com base em ângulo, distância e tipo de assistência), Osimhen tem superado sua própria expectativa de gols nesta temporada, o que indica não apenas volume, mas precisão acima da média para um atacante da sua estatura física. Traduzindo para o leigo: ele não está apenas chutando muito — está chutando bem, nas horas certas.

Como ele chegou aqui

A história começa em Lagos, em 29 de dezembro de 1998, e passa pela Ultimate Strikers Academy antes de dar um salto continental. Em 2015, com apenas 16 anos, Osimhen foi a estrela absoluta da Copa do Mundo Sub-17 da FIFA, realizada no Chile: 10 gols em sete jogos, a Chuteira de Ouro de artilheiro, a Bola de Prata de segundo melhor jogador do torneio e o título mundial com a Nigéria. Para ter uma referência histórica, naquele mesmo torneio Sub-17 de 2015 havia jovens que depois viraram figuras relevantes no futebol europeu — e nenhum deles produziu o que Osimhen produziu. O Prêmio de Jogador Jovem do Ano da CAF naquele ano foi apenas a confirmação formal do que todos já haviam visto em campo.

O número que define a temporada Victor Osimhen e os 26 gols que reacende
O número que define a temporada Victor Osimhen e os 26 gols que reacende

O caminho que se seguiu, porém, não foi linear. O pré-contrato assinado com o Wolfsburg em janeiro de 2016 — com entrada prevista para 2017 — trouxe uma fase de adaptação ao futebol alemão que se mostrou mais turbulenta do que o esperado. A temporada inconsistente no clube alemão custou a ele a convocação para a Copa do Mundo de 2018. Esse tipo de tropeço inicial é mais comum do que parece na história dos grandes atacantes africanos: Didier Drogba levou quase três anos para encontrar seu ritmo no futebol europeu antes de explodir no Chelsea entre 2004 e 2012. A resiliência, nesses casos, é a variável decisiva.

O turning point real viria no Napoli. Na temporada 2022/23, Osimhen foi peça central no título da Serie A — o primeiro do clube napolitano em 33 anos, desde os dias de Maradona. Quem viveu aquele scudetto de perto, como eu vivi durante meus anos como correspondente em Milão, sabe que não foi um título de equipe anônima: foi uma campanha de 90 pontos, com saldo de gols que humilhou a concorrência italiana. O centroavante nigeriano era o coração ofensivo daquela máquina. Depois, já pelo Galatasaray, acrescentou à sua galeria a Süper Lig e a Copa da Turquia na temporada 2024/25 — dois títulos em contextos táticos completamente diferentes, o que diz muito sobre sua capacidade de adaptação.

O que o faz diferente dos pares

Existem centroavantes mais técnicos do que Osimhen no futebol europeu contemporâneo. Existem alguns com melhor jogo de costas para o gol, outros com primeiro toque mais refinado. O que o nigeriano tem de singular é uma combinação de atributos físicos — 186 cm, 78 kg, velocidade de ponta — com uma inteligência posicional que raramente vem embalada no mesmo pacote. Nos anos 90, essa mistura era encarnada por figuras como George Weah, que em 1995 ganhou a Bola de Ouro sendo exatamente esse tipo de atacante: explosivo, vertical, capaz de resolver jogos sozinho quando necessário.

A comparação com Weah não é casual. Ambos são africanos que tiveram que provar seu valor num futebol europeu historicamente resistente a atacantes do continente. Ambos acumularam títulos em ligas diferentes. E ambos carregam uma presença física que intimida defesas sem precisar de palavras. A diferença é que Osimhen tem ao seu favor uma era de dados e análise tática que permite quantificar o que antes era apenas impressão visual. Seus 5 assistências nesta temporada, por exemplo, mostram um centroavante que também joga para o coletivo — algo que não era marca registrada de seus primeiros anos na Europa.

Os limites a vencer

Nenhum perfil honesto ignora as lacunas. Osimhen tem 27 anos — idade em que centroavantes costumam estar no pico absoluto, mas também no momento em que as exigências físicas começam a cobrar pedágio. Sua estreia pela seleção nigeriana principal, em 10 de junho de 2017, numa derrota por 2 a 0 para a África do Sul, foi um começo discreto que, de certa forma, antecipou a irregularidade que marcaria os primeiros anos da carreira adulta. A consistência que ele demonstra agora, com 26 gols em 30 jogos, precisa ser validada ao longo do tempo para que se fale em legado consolidado, e não apenas em temporada excepcional.

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta temporada, Osimhen veste a camisa 45 no Team Team Durant — um número incomum para um centroavante, e que de certa forma reflete a trajetória incomum desse jogador: nada no percurso dele seguiu o roteiro convencional. A pergunta que fica, e que os próximos meses vão responder, é sobre a continuidade. Nos anos 2000, Andriy Shevchenko viveu uma segunda metade de carreira que nunca voltou a atingir o nível do Milan. Fernando Torres, após 2009, jamais repetiu o que fez no Liverpool. Osimhen, com a forma que apresenta atualmente, tem nas mãos a chance de escrever um desfecho diferente para esse tipo de trajetória.

Se o Team Team Durant avançar às fases decisivas da Champions League nas próximas semanas, Osimhen vai se deparar com o tipo de defesa organizada e pressão de eliminatória que separa os grandes artilheiros de temporada dos verdadeiros protagonistas históricos. Você acredita que ele tem o repertório técnico e mental para manter essa produção de 26 gols quando o torneio entrar na fase de mata-mata e cada erro custar a eliminação?