A última vez que um goleiro brasileiro de 190 cm e 86 kg acumulou notas médias acima de 7,0 na Série B sem gerar nenhuma transferência relevante na janela seguinte, o futebol ainda debatia se o VAR era uma ameaça ao jogo ou uma solução inevitável. Victor Souza não está nessa discussão por acaso — está nela porque, em 2026, ele soma 34 jogos disputados pelo Botafogo SP na Brasileirão Série B e o mercado, curiosamente, ainda não bateu à sua porta com a força que os números sugerem.
O que ele ainda não resolveu
Victor Bernardes Andrade e Souza, nascido em São Paulo no dia 31 de agosto de 1992, tem 33 anos e carrega um currículo que mistura consistência com invisibilidade. Passagens por Água Santa, Londrina e Botafogo SP compõem uma trajetória que transitou entre o Campeonato Paulista — Série A1, a Copa Paulista e a Série B do Brasileiro. São competições de segunda e terceira prateleira no organograma do futebol nacional, e essa é, precisamente, a lacuna que ele ainda não fechou.
O problema não é de desempenho — as notas médias de 7,27 na Série B de 2024 e de 6,83 na mesma competição em 2023 indicam um goleiro funcional, que entrega o que se espera dele. O problema é de altitude: Victor nunca disputou a Série A do Brasileirão, nunca integrou um elenco que competisse por título nacional e nunca esteve no radar de uma transferência que exigisse negociação de valores expressivos. Aos 33 anos, essa lacuna tem peso diferente do que teria aos 26.
Reparemos no detalhe: em 2022, quando atuou pelo Londrina na Série B, foram apenas três jogos e nota média de 6,45 — o pior desempenho registrado em sua carreira. Na mesma temporada, defendeu o Água Santa em 11 partidas do Paulistão com média de 6,70. Dois clubes, duas competições, uma leitura clara: Victor ainda não encontrou o ambiente que o eleve acima da média.
Onde está hoje em relação a esse buraco
Em 2026, Victor Souza está mais perto de resolver essa equação do que em qualquer outro momento de sua carreira — e, paradoxalmente, mais longe também. Ele chegou à marca de 34 jogos na temporada atual pelo Botafogo SP, o que representa sua participação mais volumosa em um único campeonato. É um número que o SportNavo identificou como patamar de referência para goleiros que sustentam campanhas longas na Série B: quem chega a 30 partidas numa temporada tende a ser o titular absoluto, não uma opção de rotação.
O Botafogo SP disputa a Série B de 2026 com um elenco que não tem pretensões de acesso imediato ao topo da tabela, mas que precisa de estabilidade defensiva para evitar o rebaixamento. Victor, como camisa 1, cumpre esse papel. O risco é que cumprir papéis de contenção em clubes de médio porte na segunda divisão seja exatamente o tipo de trajetória que não gera visibilidade suficiente para uma transferência transformadora.
Aos 33 anos, a janela de oportunidade para um salto de categoria — seja para a Série A ou para um clube do exterior — está se estreitando em ritmo acelerado. Não há dados públicos de salário ou cláusula contratual disponíveis para Victor Souza, o que, por si só, diz algo sobre o nível de exposição comercial que ele alcançou até aqui.
O caminho técnico para tapá-lo
O que Victor Souza precisaria, tecnicamente, para superar essa barreira? A resposta está menos no desempenho individual — que os números indicam como satisfatório — e mais na construção de contexto. Um goleiro que atua em clubes sem projeção nacional raramente entra no radar de equipes maiores, independentemente da nota média que acumula.
O caminho mais realista passa por duas frentes. A primeira é o desempenho coletivo do Botafogo SP: se o clube fizer uma campanha de destaque na Série B de 2026, a visibilidade do elenco aumenta proporcionalmente, e o goleiro titular costuma ser um dos primeiros a ser avaliado por olheiros. A segunda frente é a consistência estatística ao longo de toda a temporada — 34 jogos já é um volume expressivo, mas o que importa é o que esses jogos comunicam sobre o padrão de atuação.
Em termos de perfil físico, Victor não tem desvantagem: 190 cm de altura e 86 kg são medidas dentro do padrão para goleiros da Série A brasileira. A questão não é o que ele tem — é o que ele ainda não mostrou para quem decide contratações em nível superior.
O que isso destrava na carreira
Se Victor Souza conseguir encerrar a temporada de 2026 com números acima dos que apresentou em 2024 — e os 34 jogos já disputados sugerem que o caminho está sendo trilhado — ele terá construído o argumento mais sólido de sua carreira para uma mudança de patamar. Não necessariamente para a elite do futebol brasileiro, mas para um clube da Série A que busca um goleiro experiente, de baixo custo de aquisição e com histórico de regularidade.
Esse perfil tem mercado. Clubes que sobem da Série B ou que precisam de reposição de emergência na posição frequentemente recorrem a goleiros com exatamente esse currículo: experientes, sem pretensão de protagonismo, com capacidade comprovada de sustentar uma sequência de jogos sem oscilação grave.
A questão é se Victor ainda tem tempo para que essa janela se abra. Com 33 anos completos em agosto de 2026, ele estará na faixa etária em que goleiros costumam se consolidar como titulares de longo prazo — ou se tornar opções de reserva qualificada. A diferença entre esses dois destinos, neste momento da carreira, é pequena. E é exatamente por isso que o que acontece nos próximos meses importa mais do que qualquer temporada anterior.









