Uma imagem que nunca aconteceu causou uma crise que é completamente real. Telões instalados em Ciudad del Este, cidade paraguaia na fronteira com o Brasil, exibiram um vídeo gerado por inteligência artificial mostrando o ex-presidente Jair Bolsonaro agredindo o zagueiro Gustavo Gómez, do Palmeiras e da seleção do Paraguai. O resultado foi tumulto nas ruas, painéis derrubados a chutes e empurrões perto da Ponte da Amizade, e o presidente Santiago Peña obrigado a se pronunciar publicamente. A empresa responsável pelos painéis alegou ter sofrido um ataque hacker.
O que apareceu nos telões de Ciudad del Este
O vídeo circulou nas redes sociais antes mesmo de ser retirado dos painéis. Nas imagens, a montagem gerada por IA mostrava Bolsonaro "reduzindo" uma figura identificada como Gómez, acompanhada de mensagens de provocação sobre política e futebol dirigidas aos paraguaios, escritas em português. A combinação — um ex-chefe de Estado brasileiro e um dos jogadores mais conhecidos do Paraguai — foi calculada para inflamar dois nervos ao mesmo tempo: o político e o esportivo.
Paraguaios que passavam pela região da Ponte da Amizade reagiram derrubando os painéis físicos. A prefeitura de Ciudad del Este abriu investigação e encaminhou o caso ao Ministério Público local. O presidente Peña foi às redes sociais com um comunicado direto:
"Lamentamos os cartazes ofensivos instalados em Ciudad del Este. Este tipo de ação não contribui para o entendimento nem para o respeito que devem prevalecer entre os povos."
Peña ainda acrescentou, em tom de resposta à provocação política embutida no conteúdo:
"O Paraguai está vivendo um de seus melhores momentos. Cresce, atrai investimentos e avança com força rumo ao futuro. Talvez isso incomode alguns. A nós, nos motiva a continuar trabalhando para que o gigante que é o Paraguai siga crescendo e ocupando o lugar que merece."
O presidente ordenou que o Ministério de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai retirasse as imagens de todas as estruturas envolvidas.
Como o deepfake funciona e por que é tão convincente
Deepfake é o nome dado a vídeos ou imagens sintéticas criados por redes neurais — um tipo de inteligência artificial que aprende padrões visuais a partir de milhares de fotografias reais de uma pessoa e depois reconstrói seu rosto em movimento sobre outro corpo. Pense no processo como um molde de cera: o sistema "derrete" os traços faciais de Bolsonaro e os "vaza" sobre a figura de um ator ou manequim digital, ajustando iluminação, sombra e microexpressões para enganar o olho humano.
A degradação da qualidade de compressão — o equivalente ao "ruído de fundo" que um engenheiro de materiais chama de imperfeição de superfície — ainda é o principal ponto fraco do deepfake. Olhos que piscam de forma irregular, bordas de cabelo com artefatos pixelados e sombras que não batem com a fonte de luz são sinais detectáveis. Mas quando o vídeo é exibido em um telão externo, a distância e o brilho solar mascaram exatamente essas falhas.
Registrado pelo SportNavo, o caso de Ciudad del Este ilustra um padrão crescente: o deepfake esportivo não precisa ser perfeito para funcionar. Ele precisa apenas ser rápido o suficiente para viralizar antes da checagem.
Por que Gustavo Gómez foi o alvo escolhido
A escolha de Gómez não foi aleatória. O zagueiro é o jogador paraguaio mais reconhecível no futebol brasileiro, capitão do Palmeiras e convocado pelo técnico Gustavo Alfaro para a Copa do Mundo de 2026. Na lista prévia de 55 nomes divulgada por Alfaro, outros seis atletas que atuam no futebol brasileiro foram relacionados: Carlos Coronel (São Paulo), Junior Alonso (Atlético Mineiro), Fabián Balbuena (Grêmio), Damián Bobadilla (São Paulo), Matías Villasanti (Grêmio) e Isidro Pitta (Red Bull Bragantino). Do Palmeiras, ainda há Mauricio e Ramón Sosa na prévia.
Usar um rosto conhecido do futebol amplifica o alcance emocional da desinformação. O espectador que reconhece Gómez reage antes de processar se o vídeo é real — o mesmo mecanismo que faz torcedores compartilharem um suposto gol polêmico sem checar a fonte. A rivalidade Brasil-Paraguai, historicamente acirrada em Copas do Mundo e eliminatórias, fornece o combustível; o deepfake é apenas o detonador.
O que diferencia este caso de uma montagem tosca de redes sociais é o suporte físico: telões instalados em espaço público, perto de um dos pontos de maior circulação da fronteira, conferem uma falsa autoridade institucional ao conteúdo falso.
O que a lei brasileira e o direito internacional dizem sobre deepfakes
Qual é o custo jurídico real de fabricar uma mentira com o rosto de alguém?
No Brasil, a criação e divulgação de deepfakes com fins difamatórios pode ser enquadrada em múltiplos dispositivos legais. O Código Penal prevê penas de 3 meses a 2 anos para calúnia (art. 138) e de 1 a 6 meses para injúria (art. 140). A Lei 14.132/2021, que criou o crime de perseguição virtual (stalking), e o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), que responsabiliza plataformas por conteúdo ilícito após notificação judicial, também se aplicam. Para conteúdo político, o Tribunal Superior Eleitoral já emitiu resoluções específicas contra deepfakes em campanhas — mas a legislação para o contexto esportivo ainda é lacunar.
O fato de os painéis estarem em solo paraguaio complica a jurisdição. A empresa responsável alegou ataque hacker, o que, se comprovado, transfere a responsabilidade penal para o invasor — mas não elimina a responsabilidade civil por danos à imagem de Gómez e ao relacionamento diplomático entre os dois países. A investigação aberta pela prefeitura de Ciudad del Este e encaminhada ao Ministério Público paraguaio será o primeiro teste sobre como a legislação local trata esse tipo de desinformação gerada por IA em contexto esportivo-político.
A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, com o Paraguai estreando nas fases eliminatórias — e Gómez como titular esperado na zaga. O ambiente de tensão criado por um vídeo de poucos segundos já chegou ao nível presidencial. A tecnologia avança mais rápido que o arcabouço legal — e a fronteira entre os dois países acaba de sentir isso na pele.










