Quando o árbitro uruguaio Esteban Ostojich apitou o encerramento da partida no Mineirão, diante de 59.126 torcedores, o placar de 1 a 0 para o Cruzeiro sobre o Boca Juniors era apenas o menor dos dramas da noite. O gol de Néiser Villarreal, aos 37 minutos do segundo tempo, em jogada construída por Matheus Pereira e finalizada com cruzamento rasteiro de Kaio Jorge, garantiu a liderança do Grupo D da Libertadores — mas o que se seguiu ao apito final transformou Belo Horizonte em mais um capítulo constrangedor de uma rivalidade que, há décadas, parece incapaz de se separar da violência.
O script de sempre com camisa nova
Nas arquibancadas, ainda durante o primeiro tempo, um torcedor xeneize foi detido pela Polícia Militar após ser flagrado em vídeo, publicado pelo jornalista Julio Assis, da Rádio e TV Elo, imitando gestos racistas em direção à torcida cruzeirense. A Polícia Civil conduziu o argentino à delegacia, onde um Boletim de Ocorrência foi registrado — mais um episódio que evidencia como parte da torcida do Boca ainda opera em um registro que a Europa sepultou nas últimas duas décadas. Quem acompanhou de perto a campanha do Premier League contra o racismo nas arquibancadas inglesas sabe que essas cenas hoje seriam impensáveis em Stamford Bridge ou no Emirates. No Mineirão, em 2026, ainda precisamos discuti-las.

Dentro do gramado, o roteiro não foi menos sórdido. Adam Bareiro, que já carregava um cartão amarelo, acertou uma cotovelada em Christian nos acréscimos do primeiro tempo e recebeu o segundo amarelo — deixando os argentinos com dez jogadores para toda a etapa final. O Boca havia entrado em campo com status de melhor equipe da Argentina, 14 jogos sem derrota e ataque considerado avassalador. O que apresentou foi um festival de catimba, paralisações e simulações que fariam corar qualquer adepto do pressing alto que o futebol moderno elevou à condição de dogma. Leandro Paredes levou o primeiro amarelo já aos seis minutos, após empurrar Matheus Pereira com a bola parada.

Uma rivalidade com histórico de fogo
Cruzeiro e Boca Juniors reúnem oito títulos da Libertadores entre si — seis do clube portenho, dois do mineiro — e a tensão entre as equipes na competição continental raramente se resolve apenas dentro das quatro linhas. A análise do SportNavo sobre os encontros entre as duas equipes na Libertadores mostra um padrão recorrente de confrontos que extrapolam o esportivo, com episódios de violência, protestos contra a arbitragem e incidentes nas arquibancadas tornando-se quase uma tradição paralela. A comparação que se impõe é inevitável: quando PSG e Bayern Munique se encontram na Champions League, o debate gira em torno de sistemas táticos, pressing alto e qualidade técnica individual. Em Belo Horizonte, na quarta-feira, girou em torno de cotoveladas e gestos racistas.
Ao fim da partida, jogadores do Boca foram diretamente para cima dos atletas da Raposa em campo. As imagens mostram empurrões generalizados, e em determinado momento um jogador argentino derruba um funcionário do Cruzeiro que rapidamente se levanta. O clima, segundo relatos de correspondentes presentes no estádio, já estava irrespirável desde os minutos finais, quando os xeneizes — conscientes de que o gol havia enterrado a invencibilidade de dois meses — tentavam ao menos inflamar o ambiente para o jogo de volta na Bombonera, marcado para 19 de maio.
O gol que o Cruzeiro precisava
Antes de toda a bagunça, houve futebol — pouco, mas suficiente para decidir. O Cruzeiro também não ajudou o espetáculo no primeiro tempo, apresentando um jogo que os ingleses chamariam de dull, sem criatividade ou intensidade para romper o bloco defensivo xeneize. Na segunda etapa, com um jogador a mais, a Raposa passou a pressionar com mais frequência, mas desperdiçou chances claras — Fabrício Bruno, sozinho na entrada da pequena área após escanteio de Matheus Pereira, cabeceou para fora sem goleiro na trajetória. Aos 37 do segundo tempo, Matheus Pereira enfiou a bola para Kaio Jorge, que cruzou rasteiro pela direita, e Villarreal só empurrou para o gol vazio. Uma jogada de eficiência europeia num jogo de catimba sul-americana.
O jovem goleiro Otávio, de apenas 20 anos, foi outro destaque positivo da noite cruzeirense. Titular no lugar de Matheus Cunha — reserva de Cássio, que passou por cirurgia no joelho esquerdo —, o garoto formado na base da Raposa fez sua quinta partida como profissional e não comprometeu, inclusive defendendo um chute perigoso de Zeballos em contra-ataque. A avaliação do SportNavo é que a revelação do goleiro foi, quase paradoxalmente, uma das poucas notícias limpas da noite.
"O Boca Juniors segue no século 20 e usa dos mesmos expedientes de sempre. Quando encontra uma arbitragem pusilânime como a desta noite, então, vira um festival de antijogo", escreveu um colunista do UOL Esporte após o confronto.
O custo da imagem e o que vem a seguir
O gegenpressing e o tiki-taka transformaram o debate tático europeu nas últimas décadas. Na América do Sul, o debate que persiste — com razão crescente — é outro: até quando a Conmebol tolerará que confrontos continentais de alta visibilidade sejam dominados por violência, racismo e antijogo? O torcedor argentino detido no Mineirão responderá na Justiça brasileira, seguindo precedente de outros casos similares nos últimos anos. Bareiro, dependendo da análise do comitê disciplinar da Conmebol, pode cumprir suspensão no duelo de volta. Com seis pontos cada, Cruzeiro e Boca dividem a liderança do Grupo D — e voltam a se enfrentar na Bombonera no dia 19 de maio. Antes disso, o Cruzeiro enfrenta o Atlético-MG no sábado, dia 2, pelo Brasileirão, e depois visita o Universidad Católica, no Chile, no dia 6, pela quarta rodada da Libertadores.








