— Mas o Barça já ganhou o título, cara. O que o Real ainda tá fazendo aí?
— Fazendo conta. Setenta e sete pontos não se jogam fora.
— E o Villarreal? Ninguém fala do Villarreal…
— Exatamente o problema.

Essa conversa de boteco resume com precisão cirúrgica o estado da La Liga a três rodadas do fim. Quarta-feira, 13 de maio, o Villarreal recebe o Sevilla no Estádio de la Cerámica às 14h (de Brasília), e na quinta-feira, dia 14, o Real Madrid abre os portões do Santiago Bernabéu para o Real Oviedo às 16h30. São dois jogos, dois objetivos distintos e uma mesma urgência: não desperdiçar o que foi construído em nove meses de competição.

O Submarino Amarelo e a conta que não pode errar

Terceiro colocado com 69 pontos — 21 vitórias, seis empates e oito derrotas —, o Villarreal vive a melhor temporada doméstica desde o ciclo de Unai Emery, que culminou na conquista da Europa League em 2021. Para quem acompanhou o clube desde os anos 90, quando o Submarino Amarelo oscilava entre a Segunda División e os limites da sobrevivência na elite espanhola, chegar a esta altura da temporada brigando por Champions é quase uma declaração de identidade. A sequência invicta de cinco jogos — três vitórias e dois empates — chega num momento estratégico: matematicamente, uma vitória sobre o Sevilla pode selar a vaga na próxima edição da Liga dos Campeões antes mesmo da rodada final.

O adversário da vez, o Sevilla, ocupa a 13ª posição com 40 pontos, fruto de 11 vitórias, sete empates e 17 derrotas. Há uma ironia histórica aqui que o SportNavo registra com atenção: o clube andaluz que entre 2014 e 2016 venceu três Europa Leagues consecutivas — feito sem precedentes na história do torneio — hoje joga as últimas rodadas sem pressão de cima nem de baixo. Não há tragédia: há contabilidade. E contabilidade ruim, diga-se, para um clube do porte sevilhano.

O Real Madrid e a aritmética do orgulho

Vice-líder com 77 pontos e campanha de 24 vitórias, cinco empates e seis derrotas, o Real Madrid enfrenta o Oviedo numa condição que seria impensável em outubro: jogando para não perder de vista um título que já não está nas próprias mãos. A derrota no clássico que entregou a taça ao Barcelona na rodada anterior deixou a equipe merengue numa posição que lembra, de maneira desconfortável, a temporada 2005/06 — quando o Barça de Ronaldinho e Eto'o também fez o Real assistir à festa alheia com rodadas de sobra. Naquele ano, o time de Madrid terminou com 70 pontos. Hoje, com 77 e ainda três jogos pela frente, a campanha numérica é superior — mas o troféu, por ora, está em outras mãos.

O Oviedo, último colocado com apenas 29 pontos — seis vitórias, 11 empates e 18 derrotas —, chega ao Bernabéu sem ilusões. No primeiro turno, o Real aplicou 3 a 0 sem maiores dificuldades. A tendência natural é que a equipe asturiana se feche e tente explorar transições rápidas, postura clássica de quem precisa de pontos para evitar o rebaixamento mas sabe que o adversário tem qualidade técnica muito superior. Nos últimos cinco jogos, o Oviedo conquistou apenas uma vitória — número que explica a posição na tabela com clareza brutal.

O histórico de reações merengues em anos de vice

  • 1993/94 — Real Madrid termina vice com 56 pontos, enquanto o Deportivo conquista seu único título espanhol com 56 também, decidido no saldo de gols.
  • 2005/06 — Barça campeão com 82 pontos; Real fecha com 70, a maior diferença entre os dois clubes naquele ciclo.
  • 2022/23 — Real campeão com 78 pontos; Barça vice com 88 — uma das raras temporadas em que o segundo colocado terminou com mais pontos que o campeão, reflexo do sistema de pontuação e do calendário.

O que os números dizem sobre a reta final

Quem acompanha La Liga com regularidade sabe que a 36ª rodada tem um peso psicológico específico: é o momento em que as equipes de meio de tabela já calculam férias, enquanto as que ainda têm objetivos precisam manter o foco com elencos desgastados. O Sevilla, sem nada a perder, pode ser justamente o tipo de adversário incômodo para o Villarreal — equipes sem pressão frequentemente jogam com uma liberdade que as torna imprevisíveis. Nas últimas quatro temporadas, times na faixa dos 38 a 42 pontos nesta fase do campeonato espanhol venceram 44% das partidas contra adversários do top-4, segundo o histórico compilado pela Opta para La Liga.

Já no Bernabéu, a equação é diferente. O Real Madrid em casa nesta temporada tem campanha de 13 vitórias, dois empates e duas derrotas — números que colocam o estádio como um dos mais hostis da Europa para visitantes. O Oviedo, com a pior campanha fora de casa da temporada, dificilmente vai alterar essa estatística. A questão para Ancelotti — ou quem estiver no comando técnico nesta reta final — é menos sobre vencer e mais sobre como vencer: com que postura, com que escalação e com que mensagem para uma torcida que ainda carrega a frustração do clássico perdido.

Os dois jogos de quarta e quinta-feira definem, na prática, o que a temporada 2025/26 vai significar para cada um desses clubes. Para o Villarreal, uma vitória sobre o Sevilla é o carimbo de uma campanha que merece ser lembrada. Para o Real Madrid, três pontos contra o Oviedo não devolvem o título — mas preservam a dignidade de um segundo lugar construído com 77 pontos, número que em 15 das últimas 20 temporadas de La Liga teria sido suficiente para ser campeão. O Real volta a campo na quinta-feira, dia 14, às 16h30, transmitido pela ESPN e pelo Disney+; o Villarreal joga na quarta, às 14h, pelas mesmas plataformas.