Diz-se que rankings desse tipo são puramente subjetivos. Na verdade, não são — e os critérios que o The Athletic usou revelam muito sobre onde a análise acerta e onde ela tropeça quando o assunto é Vinicius Junior.
O jornal norte-americano, suplemento esportivo do New York Times, divulgou nesta quarta-feira sua lista dos 100 melhores jogadores para a Copa do Mundo de 2026. Raphinha aparece em 14º, Gabriel Magalhães em 23º, Alisson em 42º — e o Brasil, com nove representantes, empata com a Espanha como segundo país mais presente, atrás apenas da França, com 12 nomes.
Os cinco critérios que definiram o topo da lista
O The Athletic foi transparente sobre a metodologia. Cinco pilares sustentam o ranking: forma atual, desempenho histórico em grandes competições, importância para a seleção, valor de mercado e — aqui vem a parte que dividiu opiniões — avaliação no game EA FC 26.
Sim, um videogame entrou nos critérios de um jornal de análise esportiva séria. Não é absurdo: os ratings do EA FC são construídos com dados reais de performance, e a franquia tem parceria com empresas de estatística como a Opta. Mas misturar esse dado com métricas de campo cria um ruído difícil de controlar.
O problema fica evidente quando você olha para o que as métricas modernas dizem sobre Vinicius. Em termos de xG (expected goals) — a métrica que calcula a qualidade das chances criadas, não apenas os gols marcados — Vini Jr. consistentemente supera 0,50 xG por 90 minutos no Real Madrid nesta temporada 2025/2026, número que poucos atacantes no mundo atingem. Mbappé, no mesmo clube, tem números similares, o que torna a diferença de seis posições entre eles difícil de justificar só pela forma atual.
O precedente de 2018 e o que ele ensina sobre esses rankings
Esse tipo de polêmica não é novo. Antes da Copa da Rússia, em 2018, publicações europeias colocaram Neymar no máximo em quinto lugar em rankings similares, atrás de Modric e Salah. O critério implícito era a liga onde jogavam — PSG ainda não tinha o prestígio de hoje. O Brasil foi eliminado nas quartas, mas Neymar terminou como um dos jogadores com mais progressive passes recebidos do torneio, mostrando que o impacto real às vezes escapa das listas pré-Copa.
A diferença agora é que Vini joga no Real Madrid, o clube mais vitorioso da última década europeia. Não há argumento de liga periférica. O que sobra, então, como explicação para o 7º lugar?
Segundo o próprio The Athletic, o ranking é subjetivo, mas respaldado por critérios técnicos e estatísticos — e a publicação admite que nomes fora da lista também poderiam ter sido incluídos. Essa ressalva, registrada por SportNavo ao acompanhar a divulgação, é honesta, mas também enfraquece a autoridade do ranking.
O que os números dos brasileiros revelam além das posições
Olhando a lista completa, os nove brasileiros formam um grupo tecnicamente diverso e interessante:
- Vini Jr. (7º) — atacante com maior impacto em xG e dribles bem-sucedidos entre os brasileiros convocáveis
- Raphinha (14º) — lidera em xA (expected assists) na temporada pelo Barcelona, com criação de chances acima de 0,30 xA por 90 minutos
- Gabriel Magalhães (23º) — entre os zagueiros da lista, um dos mais eficientes em defensive actions por 90 minutos na Premier League
- Alisson (42º) — PSxG (post-shot expected goals) acima da média, o que significa que ele salva mais do que se espera pelas posições dos chutes
- Bruno Guimarães (45º) — um dos volantes com maior volume de progressive passes no Newcastle nesta temporada
- Marquinhos (59º), Estêvão (92º), Rodrygo (93º) e Matheus Cunha (99º) completam o grupo
A presença de Estêvão em 92º, aos 18 anos, é talvez o dado mais animador da lista inteira para o torcedor brasileiro. Ele ainda não disputou uma Copa do Mundo sequer.
Mbappé no topo, Messi em 8º e o fator liga que distorce tudo
Kylian Mbappé lidera o ranking com a credencial mais objetiva possível: artilheiro da Copa do Qatar com 8 gols, e 33 gols em 24 jogos nesta temporada pelo Real Madrid — 13 deles pela seleção francesa em apenas seis partidas. Haaland (2º) e Lamine Yamal (3º) completam o pódio.
Lionel Messi, aos 38 anos jogando no Inter Miami — liga considerada periférica pelos critérios europeus — aparece em 8º, com 46 gols em 53 jogos na temporada. Cristiano Ronaldo, com 16 gols em 17 partidas pelo Al-Nassr, ficou em 25º. Esses dois casos mostram exatamente onde o critério de valor de mercado penaliza jogadores fora das grandes ligas europeias, independentemente da produção bruta.
O The Athletic ainda incluiu jogadores cujos países não garantiram vaga na Copa — como o goleiro Donnarumma (10º), que defenderia a Itália caso ela se classifique. Isso torna o ranking mais especulativo do que parece à primeira vista.
A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, com o Brasil estreando em um dos 16 grupos da fase inicial. Vini Jr. tem 25 anos — e, se a forma atual se mantiver, o debate sobre se ele deveria estar entre os três primeiros de qualquer lista vai continuar bem além desta quarta-feira.












