O silêncio desceu sobre a cabine técnica do Maracanã no instante em que o nome de Neymar foi riscado da lista para o amistoso deste domingo. Não foi surpresa — a lesão era conhecida — mas o peso do momento ficou no ar de um jeito que só quem acompanha a Seleção há décadas consegue sentir. Pela primeira vez em um jogo de preparação direta para uma Copa do Mundo, o Brasil entra em campo sem o seu maior artilheiro histórico e com Carlo Ancelotti obrigado a mostrar, diante de 70 mil pessoas, qual é o ataque que ele de fato acredita.

O trio que Ancelotti quer ver na Copa do Mundo

A escalação prevista para o confronto com o Panamá, às 18h30 deste domingo, coloca Vinícius Júnior, Raphinha e Matheus Cunha como os três homens de frente. É a primeira vez que esse trio específico deve atuar junto como linha ofensiva titular em um jogo oficial da Seleção — e o contexto não poderia ser mais revelador. Não se trata de um ensaio qualquer: é o último amistoso antes da Copa do Mundo.

Raphinha chega ao jogo como o atacante em melhor momento da Seleção nos últimos 18 meses. O camisa 11 marcou 27 gols pelo Barcelona na temporada 2025/2026 e vive a melhor fase da carreira. Vinícius Júnior, pela esquerda, carrega o peso de ser o jogador mais temido do elenco, com 18 gols e 11 assistências no Real Madrid nesta temporada europeia. Matheus Cunha, que ocupa o espaço de centroavante de movimentação, tem sido o mais irregular dos três em nível de Seleção, mas apresentou números consistentes no Atlético de Madrid: 14 gols em 38 jogos na La Liga.

"Quando você tem Vinícius pela esquerda e Raphinha pela direita, o espaço central abre naturalmente. O que o técnico precisa é de alguém que saiba habitar esse espaço sem se perder nele — e Matheus Cunha tem essa leitura." — comentarista e ex-lateral da Seleção Brasileira, em análise pré-jogo.

O histórico favorável e o que ele esconde

O Brasil chega a este amistoso com um histórico amplamente favorável diante do Panamá. Nas cinco partidas disputadas entre as seleções, foram quatro vitórias brasileiras e um empate, com 17 gols marcados e apenas um sofrido. A primeira goleada aconteceu em 1952, pelo Campeonato Pan-Americano, com placar de 5 a 0. Em 2001, em Curitiba, nova goleada por 5 a 0. Em 2014, às vésperas da Copa do Mundo disputada no Brasil, o placar foi de 4 a 0 em Goiânia. Em 2016, nos Estados Unidos, 2 a 0. O único tropeço foi o empate por 1 a 1 em 2019, em Portugal, com gol de Lucas Paquetá.

Esses números, contudo, precisam ser lidos com cuidado. O Panamá de 2026 não é o mesmo de 2014. A seleção centro-americana se classificou para a Copa do Mundo e tem no contra-ataque e nas bolas paradas suas principais armas — exatamente os dois recursos que mais expõem defesas que avançam demais. Para o Brasil, a ameaça real não é o adversário desta noite, mas o que um eventual susto revelaria sobre a fragilidade defensiva que Ancelotti ainda tenta corrigir.

Em termos de métricas avançadas, o Brasil de Ancelotti registrou um xG médio — o chamado expected goals, que mede a qualidade das chances criadas independentemente do resultado — de 2,3 por jogo nas últimas seis partidas. Para o leigo: significa que, em média, as chances geradas pela Seleção justificariam mais de dois gols por partida. O problema está no outro lado: o xG concedido foi de 1,1, número elevado para uma equipe que aspira ao título mundial.

O que este jogo decide para as próximas semanas

A Copa do Mundo começa em menos de três semanas, e o Brasil está no Grupo L ao lado de Marrocos, Croácia e Arábia Saudita — adversários que demandam soluções táticas bem diferentes entre si. Ancelotti sabe que o amistoso contra o Panamá é, na prática, o único ensaio geral disponível antes da estreia. Cada minuto de Vinícius, Raphinha e Matheus Cunha juntos em campo é dado coletado para decisões que não têm mais margem de revisão.

A comparação histórica que vem à mente é inevitável. Em junho de 2014, Luiz Felipe Scolari usou o amistoso contra o Panamá — exatamente o mesmo adversário, placar de 4 a 0 em Goiânia — para consolidar o trio Neymar, Oscar e Hulk. Doze anos depois, Ancelotti repete o roteiro com outras peças, mas a lógica é a mesma: testar o entrosamento ofensivo em ambiente controlado antes do que realmente importa. A diferença é que, em 2014, Neymar estava em campo. Agora, quem precisa crescer é o conjunto.

Endrick deve aparecer no segundo tempo e tem a chance de marcar seu nome nesta preparação. O atacante de 19 anos, que já balançou as redes pelo Real Madrid nesta temporada europeia, representa a profundidade ofensiva que Ancelotti precisa ter no banco. Em matéria do SportNavo publicada nesta semana, os dados de utilização do jovem atacante mostraram que seus melhores números saem quando entra após os 60 minutos, com espaços abertos — exatamente o cenário esperado para a segunda etapa desta noite.

O Brasil volta a campo na próxima semana, em amistoso contra o Egito, antes da estreia na Copa do Mundo. O jogo desta noite no Maracanã, às 18h30, é o primeiro de dois testes finais — e o único em casa, diante da torcida que mais exige e mais perdoa ao mesmo tempo.