A última vez que o Arsenal disputou uma final de Champions League, Bukayo Saka tinha 9 anos e assistia futebol em casa em Ealing, oeste de Londres. Era maio de 2006, no Stade de France, em Paris, quando o clube sucumbiu ao Barcelona de Ronaldinho por 2 a 1 após ter jogado mais de uma hora com dez homens. Vinte anos depois, o mesmo garoto — agora capitão, agora herói — apareceu livre no segundo pau do Emirates Stadium para empurrar o rebote de Oblak e decretar o 1 a 0 sobre o Atlético de Madrid que devolve os Gunners à decisão continental. O placar agregado foi de 2 a 1, e a vaga, histórica.
O número 20 e o peso de uma geração inteira sem finais europeias
Duas décadas é tempo suficiente para um ciclo completo de jogadores nascer, crescer e se aposentar. O Arsenal que enfrentou o Barcelona em 2006 tinha Thierry Henry, Robert Pires e Jens Lehmann — ídolos formados na era dourada de Arsène Wenger, que governou o clube de 1996 a 2018. O que veio depois foi uma longa travessia: oito temporadas sem sequer chegar às quartas de final da Champions, anos de mediocridade na Premier League e a saída melancólica de Wenger em 2018. Mikel Arteta, ex-volante do próprio Arsenal, assumiu o cargo em dezembro de 2019 com o clube em 10º lugar no Campeonato Inglês e sem clareza sobre o futuro.
A reconstrução foi metódica e orientada por dados. Arteta priorizou jovens da base e contratações cirúrgicas: Saka, formado na academia do clube, foi sendo escalado progressivamente até assumir a faixa de capitão; Gabriel Martinelli chegou do Ituano em 2019 por cerca de 7 milhões de euros; Martin Odegaard foi adquirido em definitivo do Real Madrid em 2021 por 35 milhões de euros e tornou-se o cérebro do meio-campo. A identidade tática — pressão alta, saída de bola pelos zagueiros, largura máxima pelos pontas — levou o Arsenal ao título da Premier League 2025/2026, campanha que segue em paralelo à campanha europeia vitoriosa.
Na avaliação do SportNavo, o que diferencia este Arsenal do time de 2006 não é apenas a qualidade individual, mas a coesão estrutural: Arteta construiu um grupo sem estrelas importadas a peso de ouro, apostando em desenvolvimento interno e em uma filosofia reconhecível em qualquer posição do campo.
Como Saka decidiu e Gabriel Magalhães garantiu a classificação
A partida desta terça-feira (5), no Emirates Stadium, seguiu o roteiro esperado de um duelo Arsenal-Atlético de Madrid: domínio inglês na posse — 65% no primeiro tempo — contra a retranca organizada de Diego Simeone. Aos 12 minutos, Antoine Griezmann assustou em jogada pela direita, parando em boa defesa de David Raya. O zero parecia certo até o intervalo quando, aos 44 minutos, Viktor Gyokeres ganhou pela direita, cruzou na segunda trave, Leandro Trossard finalizou forte e Oblak espalmou. No rebote, Saka, terceiro gol na competição, abriu o placar e explodiu as arquibancadas londrinas.
O segundo tempo pertenceu à tensão. Logo aos 6 minutos, Giuliano Simeone aproveitou um recuo errado de cabeça de William Saliba, driblou Raya e tinha o gol vazio — até Gabriel Magalhães surgir na linha para travar a finalização em um dos lances defensivos mais decisivos da competição. Aos 11 minutos, Griezmann soltou uma bomba que obrigou Raya a mais uma intervenção. O Atlético ainda teve Sorloth e Thiago Almada no banco, mas a dupla de zagueiros formada por Saliba e Gabriel manteve a solidez até o apito final.
Do lado dos anfitriões, as chances de matar o confronto existiram: Odegaard bateu da entrada da área para fora, e Gyokeres, livre de marcação aos 21 minutos após cruzamento de Hincapié, chutou por cima da meta — um desperdício que poderia ter custado caro. Não custou.
O xG revela um Arsenal mais perigoso do que o placar sugere
Os dados de expected goals (xG) — métrica que estima a probabilidade de um chute resultar em gol com base em posição, ângulo e tipo de finalização — indicaram Arsenal 1,8 a 0,9 para o Atlético no agregado das duas partidas. Em termos práticos, isso significa que, considerando a qualidade das chances criadas, os ingleses deveriam ter marcado quase dois gols e sofrido menos de um: o placar de 2 a 1 no agregado reflete com fidelidade a superioridade dos Gunners ao longo do confronto, mesmo que a classificação tenha dependido de um rebote e de um milagre defensivo.
"Este Arsenal tem algo que poucos times europeus têm hoje: uma identidade tática tão clara que qualquer jogador que entra sabe exatamente o que fazer. Isso é raro e leva anos para construir", disse um comentarista da cobertura europeia ao analisar a semifinal.
Saka encerrou a campanha das semifinais como o jogador mais decisivo do clube na competição, com três gols em dois jogos contra o Atlético. Desde a sua chegada à seleção inglesa principal em 2020, o atacante de 23 anos acumula números que o colocam entre os cinco pontas mais eficientes da Europa em criação de chances por 90 minutos. O Arsenal que chega a Budapeste não é um time de uma estrela: é um coletivo afinado, mas Saka é o fio condutor.
A final da Champions League 2025/2026 está marcada para o dia 30 de maio, às 13h (horário de Brasília), na Puskás Aréna, em Budapeste, na Hungria. O adversário dos Gunners será definido nesta quarta-feira (6), em Munique, quando Bayern de Munique e PSG se enfrentam na volta da outra semifinal — os franceses venceram o jogo de ida por 5 a 4 e chegam com vantagem ao Allianz Arena. Antes da decisão europeia, o Arsenal ainda tem três compromissos pela Premier League: West Ham (10/5), Burnley (18/5) e Crystal Palace (24/5).








