Ele constrói um time que parece fácil de ler e é impossível de parar. Esse é o paradoxo central de Vítor de Oliveira Lopes Pereira — e entendê-lo é entender por que o Nottingham Forest ocupa o espaço que ocupa na Premier League 2025/2026.

O esquema que ele sempre busca rodar

Vítor Pereira, nascido em julho de 1968 em Portugal, pertence a uma geração de treinadores lusitanos que aprendeu a jogar futebol antes de aprender a descrevê-lo. Não é da linhagem dos teóricos do tiki-taka nem dos evangelistas do gegenpressing — mas absorveu o melhor dos dois mundos e os traduziu em algo mais pragmático, mais ibérico no temperamento, mais inglês na execução. O esquema de base é o 4-4-2 em bloco médio-alto, com variações para um 4-2-3-1 quando o adversário exige mais controle posicional. A lógica é simples na aparência: duas linhas de quatro compactas, transições verticais rápidas, e um pressing alto que não é o pressing frenético de Klopp, mas sim uma pressão organizada, quase cirúrgica, ativada em zonas específicas do campo.

O que diferencia Vítor Pereira de outros treinadores que usam estruturas similares é a ênfase no shape defensivo como ponto de partida — e não como plano B. O Forest não começa o jogo pensando em atacar; começa pensando em não perder o equilíbrio. A partir daí, o ataque emerge como consequência natural de uma estrutura sólida. Seria injusto chamar isso de futebol reativo — mas é um futebol que só se expõe quando tem certeza de que pode se expor.

Como ele monta o time dentro desse esquema

A montagem do time reflete uma hierarquia clara de valores: solidez antes de criatividade, coletivo antes de individual. Vítor Pereira não é o tipo de treinador que constrói o sistema em torno de um jogador — é o tipo que exige que o jogador entenda o sistema antes de receber liberdade dentro dele. Essa filosofia tem raízes em sua trajetória como treinador, que o levou por diferentes contextos táticos e culturais antes de chegar à Inglaterra.

No miolo de campo, ele privilegia duplas de volantes com perfis complementares: um mais destruidor, com capacidade de interceptação e pressão sobre o portador da bola, e outro com saída de jogo e visão para alimentar os extremos. Os laterais têm papel fundamental no modelo — são convocados a subir com critério, nunca por impulso, e a responsabilidade defensiva pesa mais do que a contribuição ofensiva. Nos extremos, a preferência recai sobre jogadores que aceitam trabalhar sem bola, que fecham linhas de passe e voltam para defender sem reclamar.

O esquema que ele sempre busca rodar Vítor Pereira e o futebol que parece sim
O esquema que ele sempre busca rodar Vítor Pereira e o futebol que parece sim

Na avaliação do SportNavo, essa arquitetura coletiva é o que torna o Forest difícil de escalar taticamente: não há um ponto único de desequilíbrio que o adversário possa isolar e neutralizar.

Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)

O modelo de Vítor Pereira funciona com eficiência máxima contra equipes que dependem de posse prolongada para criar — times que precisam de espaço entre as linhas para seus meias chegarem ao último terço. O bloco médio-alto do Forest nega exatamente esse espaço, e o pressing ativado nas zonas laterais força erros em regiões menos perigosas do campo.

Mas onde o esquema encontra resistência?

Como ele monta o time dentro desse esquema Vítor Pereira e o futebol que parece
Como ele monta o time dentro desse esquema Vítor Pereira e o futebol que parece

Contra equipes que jogam com transições rápidas e atacantes velozes nas costas dos laterais, a estrutura pode mostrar fragilidades. O 4-4-2 compacto exige que os laterais mantenham disciplina posicional mesmo sob pressão de tempo — e quando um deles é ultrapassado em velocidade, a linha defensiva fica exposta. Times com wingers de alto nível individual, capazes de isolar o marcador em duelos um contra um, representam o maior desafio tático para o modelo. A resposta de Vítor Pereira nesses cenários costuma ser ajustar a altura do bloco e reduzir o espaço nas costas — o que, por consequência, reduz também a intensidade do pressing alto e pode comprometer a saída de bola.

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar

Há um perfil de jogador que Vítor Pereira claramente prefere, e ele não tem a ver com talento bruto. Tem a ver com inteligência posicional e comprometimento tático. O treinador português valoriza aqueles que entendem quando não devem avançar — uma qualidade rara no futebol moderno, onde o espetáculo frequentemente recompensa o excesso de iniciativa individual.

Os jogadores que mais se adaptam ao seu modelo são aqueles com alta capacidade de leitura de jogo coletiva: o volante que sabe quando cobrir o lateral que subiu, o extremo que fecha o corredor antes de pensar em atacar, o centroavante que pressiona a saída de bola do goleiro adversário com disciplina de posicionamento. Esses perfis, que em outros sistemas passariam despercebidos, tornam-se peças centrais no Forest de Vítor Pereira.

Aos 57 anos, o treinador português carrega a autoridade de quem já atravessou culturas futebolísticas distintas e chegou à Premier League com uma identidade formada — não em construção. O paradoxo do início se resolve aqui: o futebol de Vítor Pereira parece simples porque é coerente. E é impossível de copiar porque a coerência, no futebol como na vida, é a coisa mais difícil de sustentar.