Doze jogos sem derrota, liderança isolada com 32 pontos e campanha perfeita no Allianz Parque: o Palmeiras chega ao clássico deste sábado contra o Santos carregando credenciais que poucos times no futebol brasileiro podem apresentar em maio. O problema, porém, não está nos números — está nos corpos. O empate em 1 a 1 com o Cerro Porteño em Assunção, na quarta-feira, expôs o desgaste de um elenco submetido ao que Abel Ferreira descreveu como uma anomalia de calendário: quatro jogos consecutivos com intervalo de 48 horas, sequência que, segundo o técnico português, não tem equivalente entre os demais clubes da competição.

O peso de um jogador no sistema

A dependência do Palmeiras em relação a Vitor Roque não é apenas percepção de torcedor — é dado operacional. No Paraguai, sem o atacante com plena capacidade física, o time dominatou o primeiro tempo, abriu o placar com Jhon Arias aos 33 minutos, mas não conseguiu sustentar o ritmo e sofreu o empate num gol contra de Carlos Miguel aos 72 minutos. A reação nas redes sociais foi imediata: "Time depende muito do Vitor Roque. Muito. É um cara que decide", escreveu um torcedor no X, sintetizando o que parte da torcida alviverde já identificava como estrutural.

A questão tática é real. Quando Vitor Roque está em campo com presença dominante, o Palmeiras tem um referencial ofensivo capaz de atrair a marcação e liberar espaço para os meias. Arias, que Abel insiste em usar como ponta, seria potencialmente mais efetivo em posição mais central — argumento que divide a torcida, mas que encontra eco nas estatísticas de participação em gols do colombiano quando joga mais próximo da área.

Abel e o calendário como variável incontrolável

O técnico Abel Ferreira foi direto ao expor sua frustração após o empate com o Cerro Porteño, mas manteve o foco no que considera sua esfera de atuação.

"Vou continuar a focar naquilo que controlo, porque quando foco naquilo que eu controlo, sou muito bom. Quando eu não foco naquilo que eu controlo, faço aquilo que não devo", declarou o português, antes de completar: "Acho que somos a única equipe que tem um ciclo de quatro jogos seguidos de dois em dois dias, não entendo porquê, mas também não quero entender."

A crítica encontrou resistência entre parte da torcida e de analistas. O torcedor Leonardo Barbieri contestou publicamente o argumento:

"Os últimos cinco jogos antes do Cerro Porteño foram dentro do estado de São Paulo, sem grandes viagens. A viagem para o Paraguai é a mais acessível da competição. Os argumentos não se sustentam."
O debate revela uma tensão legítima: a questão do calendário do futebol brasileiro é estruturalmente mal resolvida — a CBF empilha datas sem critério claro de recuperação fisiológica —, mas isso não isenta comissões técnicas de encontrarem soluções de gestão de elenco para o problema. Uma análise do SportNavo sobre os ciclos de jogos dos líderes do Brasileirão nesta temporada mostra que o Palmeiras é, de fato, o clube com maior acúmulo de partidas interestaduais no período de 15 dias encerrado em 2 de maio.

O peso de um jogador no sistema Vitor Roque decide o Palmeiras e pode de
O peso de um jogador no sistema Vitor Roque decide o Palmeiras e pode de

O Santos como adversário e como sintoma

Se o Palmeiras enfrenta o clássico com cansaço acumulado, o Santos chega em condição estruturalmente mais frágil. Na 17ª colocação com apenas 14 pontos em 13 rodadas, o Peixe soma três vitórias, cinco empates e cinco derrotas — e carrega um dado que resume o momento: zero vitórias em seis jogos como visitante no Brasileirão, com três empates e três derrotas. O time também empatou em 1 a 1 com o San Lorenzo em Buenos Aires na quarta-feira pela Copa Sul-Americana, chegando ao clássico com desgaste de viagem similar ao do rival, mas sem a profundidade de elenco para absorver o impacto.

A sequência recente do Santos atravessa três competições sem vitória: derrota por 3 a 2 para o Fluminense, empate sem gols com o Coritiba pela Copa do Brasil, empate em 2 a 2 com o Bahia pelo Brasileirão e o empate portenho na semana. Cinco jogos, nenhum triunfo. O padrão fora de casa, especificamente, é o dado mais relevante para projetar o clássico: enfrentar um Palmeiras que venceu os seis jogos que disputou no Allianz Parque neste Brasileirão, sem sequer um empate na arena, representa uma barreira estatística que o Santos não tem conseguido superar nem em contextos muito mais favoráveis.

O mercado como plano de fundo

Enquanto o clássico se aproxima, a diretoria palmeirense articula reforços para sustentar a temporada de múltiplas frentes. O zagueiro Nino, revelado pelo Criciúma e com 244 partidas pelo Fluminense — clube pelo qual conquistou a Libertadores de 2023 —, está na mira do Verdão. O Palmeiras sinalizou proposta de 15 milhões de euros (cerca de R$ 87,5 milhões) pelo defensor, atualmente no Zenit, mas o clube russo cobra 20 milhões de euros (R$ 117 milhões) pelo jogador. A expectativa palmeirense é que o valor caia com o encerramento da temporada europeia. A movimentação revela que o clube trata a janela não como luxo, mas como necessidade funcional diante de uma agenda que inclui Libertadores, Brasileirão e Copa do Brasil simultaneamente.

Abel e o calendário como variável incontrolável Vitor Roque decide o Palmeiras e
Abel e o calendário como variável incontrolável Vitor Roque decide o Palmeiras e

O Palmeiras volta a campo neste sábado, no Allianz Parque, pela 14ª rodada do Brasileirão, com a chance de ampliar a invencibilidade para 13 jogos e aumentar a vantagem na liderança. Na semana seguinte, viaja para Lima enfrentar o Sporting Cristal no dia 5 de maio pela Libertadores, grupo em que o clube peruano lidera com vantagem sobre o Verdão. A condição física de Vitor Roque nas próximas 72 horas será, portanto, o dado mais relevante que Abel Ferreira precisará administrar antes do apito inicial.