Confesso: eu errei sobre o Vitória em 2024. Quando o clube baiano lutava contra o rebaixamento com uma diretoria endividada e um elenco remendado, escrevi que a reconstrução levaria no mínimo dois anos para produzir futebol de qualidade. Hoje, na noite deste sábado no Estádio Manoel Barradas, vejo o porquê do meu equívoco — e o porquê de o Leão da Barra ser um dos times mais interessantes do Brasileirão Série A 2026.

O começo eufórico (ou tenso)

O Vitória abriu o placar aos 15 minutos com um gol de Renê, assistido por Luan Cândido. A jogada nasceu pelo lado esquerdo, onde Luan Cândido conduziu com velocidade e serviu Renê na entrada da área. O lateral-direito chegou em diagonal e bateu cruzado com o pé direito, sem chances para o goleiro do Coritiba. Um gol que revelou o mecanismo tático do treinador baiano: a inversão de funções dos laterais, com Luan Cândido atuando como meia ofensivo no corredor esquerdo.

O começo eufórico (ou tenso) Vitória goleia Coritiba por 3 a 1 no Bar
O começo eufórico (ou tenso) Vitória goleia Coritiba por 3 a 1 no Bar

A resposta do Coritiba veio com violência — não no campo, mas nas fichas disciplinares. Aos 23 minutos, Thiago Santos recebeu cartão amarelo por falta dura no meio-campo. Três minutos depois, aos 26, o zagueiro Tiago Cóser foi expulso com cartão vermelho direto, deixando o Coxa com dez homens ainda no primeiro tempo. A expulsão de Cóser — provavelmente por entrada com a sola — mudou o roteiro da partida de forma irreversível.

Com a vantagem numérica, o Vitória não perdeu tempo. Aos 28 minutos, Zé Vitor aproveitou assistência de Erick para ampliar o marcador. A jogada foi construída em velocidade: Erick recebeu na intermediária, girou sobre o marcador e lançou Zé Vitor em profundidade. O atacante dominou, ajeitou e bateu forte com o pé direito, marcando o segundo gol consecutivo do Leão em menos de quinze minutos de jogo.

O meio que decidiu o tom

Quando faz pressão alta com superioridade numérica, o Vitória transforma o jogo em uma máquina de desgaste. Quando faz isso no Barradão, com a torcida empurrando desde o apito inicial, o adversário simplesmente desmorona. Foi exatamente o que aconteceu aos 32 minutos, quando Matheuzinho recebeu cartão amarelo — sinal de que o Coritiba tentava desacelerar o jogo na base da falta. A estratégia não funcionou.

O terceiro gol saiu aos 45 minutos, já nos acréscimos do primeiro tempo, e foi o mais bonito da noite. Tinga cruzou pela direita com precisão cirúrgica e Pedro Rocha subiu mais alto que a defesa adversária para cabecear no canto. Um gol de atacante completo, que demonstra o trabalho de bola aérea que o Vitória vem desenvolvendo nos treinamentos. Segundo análise do SportNavo, o clube baiano é o segundo time com mais gols de cabeça no Brasileirão 2026, reflexo direto de uma metodologia de treino que prioriza cruzamentos e movimentações de área.

O intervalo chegou com o Vitória vencendo por 3 a 0, o Coritiba com dez homens desde os 26 minutos e a partida essencialmente encerrada do ponto de vista competitivo. A única questão que restava era saber se o Coxa conseguiria ao menos descontar para sair do Barradão com alguma dignidade estatística.

O final que mudou tudo

O segundo tempo trouxe uma substituição reveladora: Diego Tarzia saiu aos 46 minutos para a entrada de Matheuzinho — uma troca que indicava desgaste físico do meia argentino, que havia cumprido um papel intenso na construção ofensiva do Coritiba. A ironia veio imediatamente: aos 55 minutos, já fora de campo, Tarzia foi o nome do gol de honra do Coxa. A assistência partiu de Renê — o mesmo que havia aberto o placar para o Vitória — em uma jogada que levantou dúvidas sobre o posicionamento defensivo baiano no segundo tempo. Tarzia bateu com o pé esquerdo e marcou, mas o gol foi apenas cosmético.

O cartão amarelo de Zé Vitor aos 46 minutos, logo após a substituição de Tarzia, revelou a tensão que ainda existia no jogo mesmo com o resultado definido. O atacante do Vitória reclamou de uma falta não marcada e foi punido pelo árbitro, acumulando amarelo e ficando pendurado para a próxima rodada — um dado administrativo relevante para o técnico baiano planejar a sequência.

Quando faz gestão de resultado com três gols de vantagem, o Vitória ainda assim mantém intensidade suficiente para não sofrer viradas. Quando faz isso contra um adversário reduzido, a vitória por 3 a 1 parece até modesta diante do que o Leão poderia ter construído.

O que cada torcida levou para casa

A torcida do Vitória saiu do Barradão com três pontos que têm peso financeiro concreto. O clube baiano, que renegociou contratos de patrocínio no início de 2026 com cláusulas de bônus atreladas à classificação — valores que giram em torno de R$ 2,3 milhões em incentivos para manutenção entre os dez primeiros da tabela —, precisa de resultados como este para acionar essas bonificações. A vitória na 14ª rodada coloca o Vitória em posição confortável na parte de cima da tabela, com momentum para a sequência do campeonato.

A torcida do Coritiba, por sua vez, carregou para casa a preocupação com a expulsão de Tiago Cóser, que deve resultar em suspensão automática de pelo menos uma rodada. O zagueiro é peça central no esquema defensivo do Coxa, e sua ausência em um momento de turbulência na tabela pode custar caro. A diretoria paranaense, conforme apurado pelo SportNavo, ainda negocia a renovação do contrato de dois titulares cujos vínculos vencem em junho de 2026 — uma situação que adiciona instabilidade ao ambiente do clube em um momento crítico da temporada.

O meio que decidiu o tom Vitória goleia Coritiba por 3 a 1 no Bar
O meio que decidiu o tom Vitória goleia Coritiba por 3 a 1 no Bar

Na 15ª rodada, o Vitória terá a oportunidade de confirmar o bom momento longe do Barradão, enquanto o Coritiba precisará se reorganizar taticamente e administrativamente para não escorregar ainda mais na tabela. O Leão da Barra está construindo algo sólido — está pronto. Falta o palco.