Confesso: quando o Athletico contratou Kevin Viveros, em agosto do ano passado, eu descartei o nome com a velocidade de quem descarta um lateral reserva. Um centroavante vindo do Carabobo, da Venezuela, para um clube que disputa Copa do Brasil e briga por Libertadores? Pareceu apostas de menor risco. Hoje, com 8 gols no Brasileirão e o jornal AS Colômbia estampando seu rosto na capa, eu revejo o julgamento sem cerimônia — e com prazer.

Os números que colocaram Viveros no radar de Lorenzo

Kevin Viveros lidera a artilharia da Série A 2026 com 8 gols em 13 partidas, dividindo o topo com Pedro, do Flamengo. Na temporada completa, o colombiano de 26 anos soma 9 gols e uma assistência em 16 jogos pelo Furacão — números que, contextualizados dentro do futebol europeu, equivaleriam ao que o mercado chama de striker eficiente: não o centroavante de exibição, mas o que converte com regularidade e sem desperdiçar contexto coletivo. Dois desses gols vieram no triunfo por 3 a 1 sobre o Vitória, na Arena da Baixada, rodada que o projetou de forma isolada no topo da tabela de artilheiros. No total pelo Athletico, são 19 gols em 41 jogos — o suficiente para torná-lo o quarto estrangeiro com mais gols na história do clube, ultrapassando Canobbio, atualmente no Fluminense.

A diretoria rubro-negra, consciente do valor que o atacante adquiriu, recusou proposta de 18 milhões de dólares — cerca de R$ 89,5 milhões — pelo centroavante, conforme revelado pelo presidente Mario Celso Petraglia em reunião do Conselho Deliberativo. O clube já abriu conversas para antecipar uma renovação, mesmo com contrato vigente até junho de 2028. Internamente, o Athletico mudou a lógica dos últimos anos: segurar peças decisivas passou a ser prioridade, como já ocorreu com Esquivel.

A fila pela terceira vaga no ataque colombiano

O técnico Néstor Lorenzo tem dois centroavantes praticamente intocáveis: Luis Suárez, do Sporting, e Jhon Córdoba, do FK Krasnodar. A terceira vaga, contudo, virou disputa aberta — e é aqui que a situação de Viveros se torna genuinamente interessante. Seus concorrentes diretos são Cucho Hernández, do Real Betis na La Liga, e Rafael Borré, do Internacional. O problema de ambos é contextual: Cucho, apesar do talento inegável para o pressing alto e para o jogo de transição rápida, atravessa uma temporada 2025/2026 irregular no Betis, clube que vive oscilações táticas desde a saída de Manuel Pellegrini. Borré, por sua vez, nunca encontrou a consistência de finalizador que o nível de seleção exige — boa mobilidade, participação coletiva razoável, mas números que não convencem quando se faz a contabilidade fria.

O jornal AS Colômbia foi direto ao ponto na análise publicada na última segunda-feira:

"Todos sabemos que Luis Suárez e Jhon Córdoba já garantiram suas vagas na Copa do Mundo. O terceiro '9' surgiu como um possível candidato, e seu nome é Viveros. Ele é o artilheiro do Brasileirão e o Flamengo quer contratá-lo. Néstor Lorenzo gosta de Viveros, e ele ganha a disputa com Cucho e Borré. Fiquem de olho em Viveros, pode ser a surpresa na lista de 26 convocados."

A menção ao interesse do Flamengo não é detalhe menor: ela sinaliza que o mercado brasileiro de ponta já reconhece o atacante como ativo de alto valor, o que, no imaginário da imprensa colombiana, funciona como validação externa.

O que Viveros tem que os outros não têm agora

  • Momento: artilheiro isolado do maior campeonato da América do Sul em 2026.
  • Consistência: 9 gols em 16 jogos na temporada, com participação direta em vitórias decisivas.
  • Confiança institucional: clube recusou proposta de 18 milhões de dólares, sinalizando que o jogador está em alta de mercado real, não inflada.
  • Preferência do técnico: segundo a imprensa colombiana, Lorenzo acompanha o desempenho de Viveros e demonstra preferência em relação aos concorrentes diretos.

O sonho declarado e a data que define tudo

Viveros nunca foi convocado para a seleção colombiana principal — figurou algumas vezes em pré-listas, mas sem chegar ao chamado definitivo. O próprio atacante, na zona mista após a classificação do Athletico nos pênaltis sobre o Atlético-GO pela Copa do Brasil, tratou o tema com a seriedade de quem sabe que o momento é único:

"Sair na pré-lista é algo importante, se vê que estamos trabalhando bem. É um sonho para mim. Estou muito tranquilo, deixando tudo nas mãos de Deus porque continuo fazendo meu trabalho e isso fala por si só. Acredito que, se eu seguir marcando gols, me destacando e ajudando a equipe, creio que Néstor possa dar essa oportunidade. Seria muito lindo para mim."

A análise do SportNavo aponta exatamente o dilema de Lorenzo: Cucho Hernández tem nome e histórico europeu, mas o futebol de seleção raramente premia o passado quando o presente pertence a outro. E o presente, neste maio de 2026, pertence ao centroavante do Furacão.

O técnico Néstor Lorenzo anuncia os 26 convocados da Colômbia no dia 29 deste mês. Antes disso, Viveros tem mais uma oportunidade de convencer — o Athletico enfrenta o Flamengo neste domingo, às 19h30, na Arena da Baixada, pelo Brasileirão, com a presença especial de Carlo Ancelotti nas arquibancadas, um dia antes da convocação da seleção brasileira. Para o colombiano, cada gol contra o clube que deseja contratá-lo tem peso duplo: estatístico e simbólico.