Não é a Croácia de 2018 que está na Copa do Mundo 2026. Aquela seleção — que eliminou Argentina, Rússia, Dinamarca e Inglaterra antes de perder a final para a França — tinha Luka Modric no auge físico, Ivan Rakitic como motor de segunda linha e uma coesão defensiva que lembrava os grandes times italianos dos anos 90. A equipe que venceu a Copa do Mundo 2026 pelo Grupo L com dois pontos de vantagem sobre Gana é outra coisa: mais jovem, mais irregular, mas com um detalhe que os dados de grupo não mostram — ela sabe sofrer e continuar.

A narrativa da invencibilidade croata não sobrevive à fase de grupos

A Croácia terminou o Grupo L na segunda colocação, com dois pontos a menos do que a Inglaterra. Perdeu para os ingleses na estreia, venceu o Panamá de forma protocolar e só confirmou a classificação na última rodada, diante de Gana, com um placar de 2 a 1 que precisou de um gol de Nikola Vlasic para fechar. Isso não é campanha de candidata ao título — é campanha de time que sobreviveu.

Para ter uma referência histórica: a Croácia de 1998, na sua primeira Copa do Mundo, terminou a fase de grupos com 100% de aproveitamento — três vitórias, incluindo um 3 a 0 sobre a Jamaica e um 1 a 0 sobre a Argentina. Davor Šuker marcou cinco dos seus seis gols no torneio já naquela fase. A comparação não é cruel por acaso: ela mostra que times que chegam longe em Copas geralmente chegam com a fase de grupos resolvida antes da última rodada.

Copa do Mundo
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Contra Gana, em uma tarde chuvosa na Filadélfia, a Croácia controlou o jogo em boa parte do tempo, mas sofreu um gol e passou por dez minutos de nervosismo que poderiam ter custado a classificação. Vlasic reconheceu o momento difícil, mas preferiu enquadrar o episódio como prova de resiliência. Nas palavras do meia-atacante, publicadas em matéria do SportNavo:

"Um gol te abala um pouco, mas depois de um ou dois minutos de choque, você segue em frente e ficamos muito felizes. Este time pode fazer muito, temos uma combinação de experiência e juventude, o melhor ainda está por vir."

Vlasic e a geração que precisa provar que não é só promessa

Nikola Vlasic tem 27 anos e joga no Torino, na Serie A. Não é um nome de primeira prateleira europeia, mas é exatamente o tipo de jogador que cresce em torneios de seleção — técnico, inteligente no espaço reduzido, capaz de aparecer em momentos decisivos. O gol contra Gana foi o segundo dele nesta Copa, e o fato de ter saído justamente quando a Croácia precisava diz algo sobre seu temperamento competitivo.

Mas Vlasic não é Modric. Ninguém neste grupo é. E a Croácia de Zlatko Dalic enfrenta agora o mesmo dilema que a Espanha enfrentou entre 2010 e 2014: como manter um ciclo vencedor quando a geração fundadora começa a declinar? A Espanha resolveu o problema com uma renovação cirúrgica — Iniesta saiu, Busquets ficou, Pedri entrou. A Croácia ainda está no meio desse processo, com Modric reduzido a coadjuvante e Vlasic tentando preencher um espaço que é maior do que um jogador só consegue ocupar.

O próprio Vlasic, ao falar sobre o gol marcado, deslocou o foco do individual para o coletivo — um sinal de maturidade, mas também de consciência de que o time depende de um funcionamento coletivo que não apareceu de forma consistente na fase de grupos:

"Meu gol? É uma sensação ótima, e quem marcou não importa, somos esse tipo de grupo, rezamos juntos, Deus é muito importante para nós, e essa união. Nos sentimos como uma família."

O mata-mata e o adversário que vai testar a tese croata

Como segunda colocada do Grupo L, a Croácia vai enfrentar o segundo colocado do Grupo K — que será definido entre Colômbia e Portugal neste sábado. Qualquer um dos dois cenários é difícil. Portugal, com Cristiano Ronaldo ainda capaz de decidir jogos individuais e Bruno Fernandes como organizador, tem qualidade técnica superior à da Croácia em praticamente todas as posições. A Colômbia, por outro lado, tem velocidade nas transições e James Rodríguez como articulador — exatamente o tipo de jogo que expõe defesas que sofrem em espaços abertos.

A Croácia de 2022, no Catar, chegou às quartas de final eliminando o Japão nas penalidades e o Brasil também nos pênaltis — e só parou na Argentina de Messi. Aquele time tinha Dominik Livaković como herói dos pênaltis e Modric como alma do grupo. Este time de 2026 tem Livaković ainda no gol, mas a alma coletiva ainda está sendo construída. A diferença entre as duas edições é precisamente o que tornará o mata-mata um teste real para a tese de Vlasic.

Times que chegam ao mata-mata de Copa do Mundo sem ter dominado a fase de grupos raramente chegam à semifinal — a exceção mais famosa é a própria Croácia de 2018, que terminou o grupo com uma derrota para a Argentina. Mas aquela equipe tinha Modric em forma avassaladora e uma profundidade de elenco que esta não tem. A Croácia joga as oitavas de final no início de julho, e o adversário — seja Portugal ou Colômbia — vai saber exatamente onde apertar.

A Croácia classificou. O aviso de Vlasic está dado. Agora vem a conta.