Três elementos, uma conclusão inevitável: garotos de 16 anos ensanguentados na Bahia, nove cartões vermelhos numa final sub-17, um técnico acertando o rosto de um jogador adversário no Rio Grande do Sul. O futebol brasileiro de 2026 não tem um problema pontual de violência — tem uma crise sistêmica que começa nas bases e contamina o profissional.
Ubatã e a torcida que transformou o campo num campo de guerra
O estádio Miuzão, em Ubatã (BA) — município de pouco mais de 25 mil habitantes no sul da Bahia —, foi palco de um dos episódios mais perturbadores do ano. Num torneio regional sub-20 entre a seleção local e a de Gandu, torcedores invadiram o gramado após uma dividida e iniciaram uma briga generalizada. Cerca de dez jovens de 16 e 17 anos saíram feridos. A entrada dos vestiários ficou entulhada de pedaços de pau, estilhaços de garrafas e uniformes rasgados e sujos de sangue. "Parecia uma praça de guerra", descreveu um integrante da comissão técnica de Gandu. "Até mulheres e crianças participaram das agressões." Não havia estrutura de segurança. Não havia protocolo. Havia apenas adolescentes pagando o preço da omissão dos adultos ao redor.
Nove expulsões na final sub-17 entre Athletico e Fluminense
Se Ubatã chocou pelo ambiente amador, o que aconteceu na final do Campeonato Brasileiro Sub-17 entre Athletico e Fluminense escandalizou pelo palco. Aos 47 minutos do segundo tempo, Ataíde, do Athletico, partiu para cima de um adversário após uma falta. O que veio depois foi documentado em fotos e vídeos: João Gabriel — que estava no banco de reservas — entrou correndo no gramado e aplicou uma voadora com as travas da chuteira no rosto de João Neto, do Fluminense. O atacante caiu. Vinicius Amaral, também do Athletico, desferiu um chute no jogador já caído. O árbitro Leonardo Sígari Zanon confirmou nove expulsões: quatro do Athletico, cinco do Fluminense. A procuradoria do STJD já tem os vídeos e aguarda a súmula para formalizar as denúncias. O Athletico não se pronunciou sobre o caso até o fechamento desta matéria.
Quinteros bate em Ênio e o Gauchão vira caso de polícia
O episódio mais emblemático — e mais grave em termos de responsabilidade institucional — ocorreu na semifinal do Gauchão entre Grêmio e Juventude, no Alfredo Jaconi. Gustavo Martins marcou um gol de bicicleta polêmico nos acréscimos, reduzindo para 2 a 1 e levando a decisão para os pênaltis. No tumulto que se seguiu — com jogadores dos dois times em volta do árbitro Anderson Daronco —, o técnico Gustavo Quinteros entrou no gramado. Ênio, do Juventude, tentou afastá-lo da confusão e foi atingido no rosto pelo treinador argentino. Policiais entraram em campo para conter os atletas. O jogo ficou paralisado por mais de dez minutos. Daronco validou o gol via VAR, expulsou Quinteros e também o lateral Reginaldo Lopes, do Juventude, que empurrou o técnico após a agressão. Quinteros chegou a se desculpar com Ênio — mas o dano já estava feito, dentro e fora do campo.
O ranking que ninguém queria construir e o que ele revela
Esses três episódios de 2026 se somam a uma lista histórica que já incluía clássicos da violência: a briga generalizada entre Avaí e Botafogo na Copa do Brasil de 2011, quando Loco Abreu e o goleiro Renan trocaram socos após o apito final; o retorno de Diego Souza ao campo para agredir Domingos, do Santos, depois de já ter sido expulso; e a batalha campal entre Brasil e Uruguai no Maracanã em 1976. O padrão que conecta esses casos — dos anos 70 ao sub-20 de Ubatã — é sempre o mesmo: ausência de punição rápida, falta de estrutura preventiva e adultos que, em vez de conter, amplificam o conflito. O preparador físico do Internacional que esmurrou a boca de um zagueiro gremista na final da Liga Gaúcha sub-14 — episódio que também integra esse histórico — é a prova de que o problema não tem categoria favorita.
O STJD precisa agir com velocidade e severeza nos casos de 2026: suspensões longas, multas que doam e, no caso de Quinteros, uma pena que deixe claro que técnico não tem imunidade dentro do campo. A violência nas bases não é folclore — é falha de governança, e ela tem endereço.
O futebol brasileiro sangra onde deveria crescer.









