A luz artificial do estádio BC Place, em Vancouver, ainda não havia acendido quando a notícia chegou ao feed de cada torcedor italiano acordado na madrugada europeia. Um jovem de 22 anos, criado nas categorias de base da Roma e do Sassuolo, havia trocado o azul da Azzurra pelo amarelo e verde dos Socceroos. Seu nome: Cesare Volpato. Sua estreia pela Copa do Mundo: marcada para a madrugada deste sábado, contra a Turquia, a partir da 1h (horário de Brasília).

Duas recusas, uma virada e o timing que ninguém esperava

A história começa em 2022, quando Volpato mal havia completado 18 anos e já chamava atenção na Roma. A Austrália bateu à porta — e ele fechou. A justificativa era direta: queria focar no desenvolvimento da carreira no clube, sem dividir atenções com uma Copa do Mundo que, naquele momento, parecia distante demais do seu planejamento. Na véspera da abertura do Mundial do Catar, Volpato estava em campo pela seleção sub-21 italiana, cumprindo o roteiro que ele mesmo havia escolhido.

Durante as eliminatórias para este Mundial, os dirigentes australianos voltaram. Segunda recusa. Volpato continuou apostando na fila da Azzurra principal, aguardando uma convocação que nunca veio — afinal, a Itália ficou de fora da Copa pelo terceiro torneio consecutivo, uma sequência de ausências que não tem precedente na história recente do futebol europeu: 2018, 2022 e agora 2026.

Aí chegou o final de maio. Às vésperas do maior torneio do mundo, algo mudou. Volpato solicitou à Fifa a troca de cidadania esportiva e foi convocado pela Austrália — sem nunca ter vestido a camisa dos Socceroos antes. Sua estreia com a nova seleção aconteceu no amistoso contra a Suíça, no dia 5 de junho, já como titular. Do zero ao onze inicial em menos de duas semanas.

O peso de uma decisão que não deixa ninguém satisfeito

O meia não fugiu do assunto. Em declaração que circulou amplamente na imprensa italiana e australiana, ele admitiu o tamanho do que estava fazendo:

"Todo mundo sabe que sou italiano e australiano. Essa foi uma grande decisão que esteve na minha cabeça 24 horas por dia, sete dias por semana, durante um bom tempo. É muito difícil porque as pessoas querem que você escolha um ou outro, mas você não quer isso."

A frase captura um dilema que vai além do futebol. Volpato nasceu em Sydney, mas se mudou para a Itália ainda adolescente, em 2020, para perseguir um sonho construído na cultura de seu pai. Cresceu falando italiano, treinando no sistema italiano, absorvendo a identidade da Azzurra. Recusar a Austrália duas vezes não foi capricho — foi coerência com um projeto de vida. Mudar de ideia às vésperas da Copa foi, para muitos italianos, uma traição.

Na Itália, o episódio reacendeu um debate que nunca esfriou: o que significa pertencer a uma seleção? O país que inventou o calcio como arte, que ganhou quatro Copas do Mundo — mais do que qualquer seleção europeia na história do torneio —, assiste ao Mundial de 2026 pela televisão. Pela terceira vez seguida. E agora vê um dos seus próprios talentos entrar em campo pelo adversário.

Vancouver, o Grupo D e o que Volpato representa para a Austrália

O ar úmido de Vancouver — bem diferente do calor seco que vai dominar as partidas em Dallas ou Phoenix mais à frente — recebe o Grupo D neste fim de semana. A Austrália enfrenta a Turquia neste sábado, enquanto os Estados Unidos já estrearam com uma goleada de 4 a 1 sobre o Paraguai, estabelecendo o tom do grupo.

Volpato não chegou sozinho com passado italiano no elenco australiano. O zagueiro Alessandro Circati — que também passou pelas categorias de base da Azzurra — defende os Socceroos há três anos e participou de praticamente todo o ciclo classificatório para este Mundial. Os dois formam, curiosamente, uma dupla de italianos-australianos numa seleção que vai encarar justamente uma Europa que não os quis.

Para a Austrália, Volpato representa o que os Socceroos raramente tiveram: um meia com formação de elite europeia, capaz de organizar jogo no nível de um torneio com 48 seleções — um recorde histórico, já que as últimas sete edições contaram apenas com 32 participantes. Nenhuma seleção do Grupo D, incluindo Austrália e Turquia, poderá enfrentar o Brasil antes das oitavas de final, conforme o chaveamento da Fifa.

Volpato tem 22 anos — a mesma idade com que Roberto Baggio disputou sua primeira Copa, em 1990, torneio em que a Itália chegou ao terceiro lugar. A comparação é cruel, mas inevitável para quem acompanha o esvaziamento da Azzurra nos últimos anos. O meia do Sassuolo poderia ser parte da solução italiana. Escolheu ser o problema.

A partida entre Austrália e Turquia acontece na madrugada de sábado para domingo, a partir da 1h (de Brasília), no BC Place, em Vancouver. Para Volpato, será o primeiro jogo oficial com a camisa que demorou anos para aceitar — e que agora ele vai defender em campo num Mundial que a terra dos seus antepassados não pôde alcançar.