A bola cruza a área, o centroavante falha no desvio e, no segundo pau, aparece um homem de 36 anos que já deveria ter sumido das escalações de Série A segundo qualquer planilha de renovação contratual. Não sumiu. Waguininho — Wagner da Silva Souza para o registro civil — segue em campo, camisa 13, com produção mensurável e presença inegável no Criciúma da temporada 2026.
O dia em que tudo mudou
O divisor de águas da carreira de Waguininho não veio de um grande contrato europeu nem de uma convocação para a seleção. Veio de uma viagem para a Coreia do Sul. Em 2019, atuando pelo Suwon Samsung Bluewings, o atacante conquistou a Korean FA Cup — único título internacional de sua trajetória até aqui. Seria injusto chamar de era asiática — mas é uma era em escala doméstica: a experiência fora do Brasil moldou um jogador mais versátil, capaz de atuar tanto como ponta-direita quanto como meia-atacante.
O segundo ponto de inflexão chegou em 2022, com a camisa do Cruzeiro. O clube mineiro conquistou o Campeonato Brasileiro da Série B de 2022, e Waguininho fez parte do elenco que encerrou o ciclo mais doloroso da história celeste. Foram apenas 6 jogos na competição, mas o título ficou no currículo — e no bolso.
Antes do divisor de águas
Natural de Cubatão, no litoral paulista, Waguininho construiu a base de sua carreira transitando por clubes de médio porte do futebol brasileiro. As passagens pelo Avaí e pelo Novorizontino desenharam o perfil de um jogador que não domina manchetes, mas entrega consistência estatística.
Em 2023, dividiu a temporada entre Avaí e Novorizontino, mantendo produção em ambos os contextos da Série B. No ano seguinte, em 2024, pelo Novorizontino, registrou 4 gols e 3 assistências em 27 jogos na segunda divisão nacional, além de 1 gol em 14 partidas do Campeonato Paulista — números que sustentaram seu aproveitamento no mercado e justificaram a chegada ao Criciúma.

Com 178 cm e perfil de extremo que recua para construção, Waguininho nunca foi o artilheiro da temporada em nenhum clube. Seu valor está na regularidade: presença em campo, participações diretas em gols e capacidade de atuar em diferentes sistemas táticos.
Como o futebol mudou ao redor dele
O Brasileirão Série A de 2026 está mais físico e mais rápido do que o futebol que Waguininho encontrou no início da carreira. Clubes menores como o Criciúma dependem de jogadores experientes para compensar a diferença orçamentária em relação aos grandes. Nesse contexto, um atacante de 36 anos com passagens por Coreia do Sul, Cruzeiro e Série B vira um ativo de vestiário — e não apenas de campo.
Na temporada atual, Waguininho acumula 31 jogos, 4 gols e 3 assistências — sete participações diretas em gols para um clube que luta para se manter na elite. Para comparação, a média de participações diretas por jogo (0,23) é compatível com a de atacantes de rotação em clubes de briga contra o rebaixamento na Série A.
O Criciúma vem de uma derrota por 1 a 0 para o Cuiabá em maio de 2026, resultado que evidencia a dificuldade do clube em pontuar fora de casa. Waguininho, com o número 13 nas costas, é parte da solução que o técnico tenta montar com recursos humanos experientes e custo de contratação menor do que o de jovens promessas do mercado.
Comparado a atacantes de rotação na mesma faixa etária na Série A 2026, o cubatense não destoa. Jogadores entre 34 e 37 anos que atuam como pontas ou meias-atacantes raramente ultrapassam 5 gols em competições nacionais nessa fase da carreira. Waguininho está dentro da curva — e ainda dentro do prazo.
O próximo capítulo já começou
Nos próximos 12 meses, o cenário mais realista para Waguininho é a renovação com o Criciúma — ou uma saída para outro clube da Série A ou B que precise de experiência imediata sem custo alto de aquisição. O mercado brasileiro valoriza esse perfil em janelas de meio de temporada, especialmente para clubes que entram na Copa do Brasil ou precisam de cobertura em posições de ataque.
Uma passagem para o exterior — especialmente mercados asiáticos ou sul-americanos — não está descartada, dado o histórico coreano. Mas a lógica financeira favorece a permanência no Brasil, onde o jogador tem reconhecimento de mercado construído ao longo de temporadas na Série B e agora consolidado na Série A.
O que os dados desta temporada mostram é simples: um atacante de 36 anos que disputou 31 jogos em 2026 não está no fim — está em uso. E uso, no futebol profissional, é o único dado que realmente importa para o contrato seguinte.
36 anos. 31 jogos. A conta ainda está aberta.










