Todo mundo sabe que a primeira luta terminou empatada. O que quase ninguém discutiu direito foi o que aquele empate custou a Whindersson Nunes — e o que ele foi buscar nos quatro anos seguintes para chegar diferente ao Fight Music Show 8, neste sábado (30), na Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo.
O que o empate de 2022 revelou sobre Whindersson
Janeiro de 2022, Balneário Camboriú. Whindersson entrou no ringue para a primeira edição do FMS carregando o peso de quem sabe que o público está dividido entre torcer por ele e esperar que o tetracampeão mundial de boxe Acelino Popó Freitas o despache em dois rounds. Esse peso, qualquer atleta de combate conhece. Eu conheci no quinto round de uma semifinal em Bangcoc, 2017 — quando você ainda está de pé mas o corpo já começou a mentir para a cabeça. O que Whindersson fez naquela noite foi sobreviver com intensidade. Mas sobreviver com intensidade não é o mesmo que competir com consistência. O empate foi justo no placar, mas revelou uma lacuna técnica real: golpes sem base de sustentação, respiração descontrolada nos intervalos, postura alta demais para um cara que não tem o alcance nem a velocidade de mãos de um profissional como Popó.
Nos anos seguintes, enquanto Popó seguia como protagonista do FMS — nocauteando Kleber Bambam em 36 segundos em fevereiro de 2024, enfrentando Pelé Landy e Duda Nagle em edições subsequentes —, Whindersson atuou em eventos fora do Brasil contra outros influenciadores. Foram lutas que, tecnicamente, tinham menos exigência. Mas o que importa não é o nível do adversário que você enfrenta em evento menor. Importa o que você treina entre esses eventos.
A virada que apareceu no treino aberto desta sexta
No treino aberto desta sexta-feira (29), antes da pesagem marcada para as 16h de Brasília, Whindersson subiu no palco e mostrou algo que chama atenção de quem já passou tempo suficiente em academia para distinguir o atleta que treina para parecer preparado do atleta que treina para estar preparado. O aquecimento foi rápido, funcional, sem exibicionismo. Os golpes na manopla tinham uma cadência mais controlada — menos força bruta tentando impressionar a plateia, mais atenção ao encaixe do quadril por trás do jab.
"Eu acho que nas outras vezes eu tentei entrar na vida de um atleta, e descobri que é muito difícil. Dessa vez eu venho mais tranquilo, fazendo as coisas que precisam ser feitas e também treinando para poder ficar bem preparado", disse Whindersson no evento.
Essa frase, dita com a naturalidade de quem já processou a derrota antes de ela acontecer, é a frase mais madura que ouvi de um atleta não-profissional em muito tempo. Quando você para de tentar ser um atleta e começa a fazer o que um atleta faz, o treino muda de textura. Não é mais sobre ego no espelho. É sobre repetição funcional, consistência de postura, gestão de energia round a round.
Do outro lado, Popó mostrou no mesmo treino aberto por que ainda é a referência técnica do evento: treinou sequência de golpes na manopla sem nem olhar para as mãos — o tipo de automatismo que só existe depois de décadas de repetição deliberada. E foi generoso na avaliação do adversário.
"Eu sou fã. Antes de ser adversário dele, eu já era fã dele. Já era não, eu sou fã dele. Então isso ajuda muito no treinamento e em tudo aquilo. Eu nunca pensei que um dia ia bater no meu fã. Mas é o esporte. No esporte, quem bate mais ganha, quem nocauteia ganha", declarou Popó.
Popó está certo na mecânica. Mas a admiração genuína que ele tem por Whindersson pode ser exatamente o fator que subestima a mudança de abordagem do youtuber.
O que a consistência muda dentro de um ringue
Qual é a diferença real entre um atleta que treina intenso por três semanas antes do evento e um que treina consistente por quatro meses?
A resposta está no terceiro round. Sempre está. Quem treinou intenso chega ao terceiro com o gás caindo e começa a depender de golpes de força — uppercut largo, cruzado sem rotação de quadril, respiração pela boca. Quem treinou consistente ainda tem jab no terceiro. Ainda tem mobilidade de pernas. Ainda processa o que o adversário está fazendo em vez de só reagir ao estímulo mais óbvio. Whindersson, em entrevista ao SportNavo durante a cobertura do evento, sinalizou exatamente essa mudança de filosofia de preparação — menos pico de intensidade, mais base sólida ao longo do tempo.
Tecnicamente, o que se espera de um Whindersson mais consistente na revanche é: guarda mais fechada nos primeiros rounds, jab de distância para controlar o avanço de Popó, e menos tentativas de nocaute que expõem o queixo. Popó, por sua vez, vai buscar o que sempre buscou — pressão constante, combinações curtas no corpo, e a paciência de quem sabe que o adversário eventualmente vai cometer um erro se a pressão não ceder.
O card do FMS 8 começa às 18h desta sexta, com a luta principal entre Popó e Whindersson prevista para as 23h. A transmissão é pelo Canal Combate na íntegra, com a TV Globo exibindo um compacto após o Altas Horas. Em menos de 24 horas saberemos se a consistência que Whindersson descreve se traduz em rounds ou se Popó encerra a discussão antes do apito final — como fez com Bambam em 36 segundos no FMS de fevereiro de 2024.












