Confesso: eu errei sobre Willean Lepo em 2024. Quando ele chegou ao Vitória para disputar a Série A, minha leitura foi a de um zagueiro de passagem, daqueles que preenchem escalação sem deixar marca. Hoje, olhando para os números que ele está construindo no Criciúma em 2026, entendo o quanto eu subestimei o processo que esse jogador viveu ao longo de quase uma década de futebol profissional.

A assinatura técnica que o identifica

Willean Lepo, nascido em Campos dos Goytacazes em 16 de janeiro de 1997, é um zagueiro de 182 cm que não se comporta como a maioria dos zagueiros brasileiros. Na temporada atual do Brasileirão Série A, ele acumula 31 jogos, 1 gol e 4 assistências — um número de participações ofensivas que pouquíssimos defensores da elite nacional conseguem apresentar. Para um jogador que usa a camisa 97 e atua numa posição historicamente avessa a estatísticas de criação, esses dados contam uma história específica: a de um defensor que entende o jogo além da marcação.

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Quando faz a saída de bola, ele enxerga linhas de passe que a maioria dos zagueiros ignora. Quando avança em jogadas de bola parada, ele transforma a área adversária num campo de risco real. As 4 assistências em 31 partidas não são coincidência nem acidente — são o resultado de uma construção técnica que começou nas categorias de base de clubes do interior fluminense.

Como ele aprendeu a fazer aquilo

A trajetória de formação de Willean Lepo passou por Americano, Cabofriense e Macaé — clubes do interior e da região Norte Fluminense que raramente aparecem nas páginas de transferências, mas que historicamente produzem jogadores com senso de posicionamento apurado. Foi no Macaé que ele deu o primeiro passo no futebol profissional, estreando pelo time principal durante a Série C de 2016. Tinha 19 anos e já carregava o perfil de quem havia sido treinado para pensar defensivamente antes de pensar atleticamente.

A consolidação como titular veio no Campeonato Carioca de 2018, ainda pelo Macaé. Naquele mesmo ano, em 29 de maio, ele foi emprestado ao Bahia e integrado inicialmente ao sub-23. A passagem pelo clube baiano foi mais um capítulo de aprendizado do que de protagonismo: promovido ao elenco principal para 2019 e contratado em definitivo, Lepo teve poucas oportunidades de atuar, o que, em retrospecto, o forçou a manter o nível de preparação sem a recompensa imediata do tempo em campo.

Como ele aprimorou ao longo dos anos

O turning point real da carreira de Willean Lepo aconteceu a partir de julho de 2020, quando foi emprestado ao Novorizontino. O clube paulista, que disputava o Campeonato Paulista, se tornou o ambiente onde o zagueiro finalmente encontrou consistência e protagonismo. A passagem foi tão bem-sucedida que ele ajudou o Tigre a conquistar o acesso à Série C — e, posteriormente, à Série B. Em maio de 2021, assinou contrato permanente com o clube, e em 30 de novembro de 2022 renovou o vínculo, confirmando que o Novorizontino enxergava nele um pilar de longo prazo.

Quando atua em contexto de pressão coletiva, ele responde com maior volume de participações. Quando o time precisa de organização defensiva em blocos baixos, ele calibra a postura sem perder a capacidade de iniciar jogadas. Essa adaptabilidade foi o que abriu a porta para o Vitória em 2024, onde disputou 30 partidas na Série A — uma temporada que consolidou sua reputação na elite do futebol brasileiro.

Os números da carreira registrados no contexto biográfico apontam para 133 jogos oficiais acumulados até antes da temporada atual, com 4 assistências ao longo desse percurso. O dado mais revelador, porém, é o contraste: as 4 assistências da temporada atual de 2026 já igualaram tudo o que ele havia produzido ofensivamente em toda a carreira anterior. Isso não é detalhe — é uma mudança qualitativa no papel que ele desempenha dentro de campo, publicada em matéria do SportNavo.

Como aplica em jogos diferentes

No contexto atual do Criciúma na Série A de 2026, Lepo funciona como uma peça de equilíbrio entre linhas. Em partidas como a derrota para o Cuiabá por 1 a 0 no dia 2 de maio, onde o adversário aproveitou um gol de cabeça de Basso para decidir, o zagueiro esteve em campo numa situação que exige do defensor tanto a leitura de bola aérea quanto a capacidade de reorganizar o time após o gol sofrido. São esses cenários adversos que revelam o nível real de um zagueiro — e Lepo os enfrenta com 29 anos e maturidade de quem passou por Série C, Série B e agora acumula sequências sólidas na elite.

Comparado a pares na mesma posição e faixa etária no Brasileirão, o diferencial de Lepo não está no atletismo ou na liderança vocal — está na consistência de presença. Trinta e um jogos em 2026 representam uma participação quase integral na temporada, o que, para um zagueiro de 29 anos num clube que luta para se manter na Série A, tem peso específico considerável. Clubes que buscam zagueiros para esse perfil — defensores que jogam muito, falam pouco e contribuem ofensivamente — raramente encontram o pacote completo. Lepo oferece exatamente isso.

Nos próximos 12 meses, o cenário mais realista é o de um jogador que consolida sua posição como titular absoluto do Criciúma e, a depender do desempenho coletivo do clube, começa a aparecer no radar de equipes de médio porte com pretensões mais altas. Aos 29 anos, ele está no pico físico e técnico de sua carreira — longe do fim, mas também longe da promessa. É o zagueiro que já entregou. Falta o palco que finalmente reconheça o tamanho da entrega.