Confesso: eu errei sobre William Gomes em janeiro de 2025. Quando o São Paulo fechou a venda do atacante ao Porto por 9 milhões de euros — cerca de R$ 56 milhões na cotação da época —, escrevi aqui que o clube havia feito um negócio razoável para um garoto de 18 anos com apenas 16 jogos no profissional. Hoje, com o atacante campeão português, vice-artilheiro da equipe e monitorado por gigantes da Premier League, preciso admitir que subestimei a velocidade com que esse jogador cresceria.

O que William Gomes construiu no Porto em menos de 18 meses

Nascido em Sergipe, William Gomes deixou cedo a cidade natal para integrar as categorias de base do São Paulo em Cotia. A jornada até o profissional foi gradual: em 2024, o então técnico Zubeldía o utilizou em 16 partidas, com três gols e uma assistência — números modestos, mas suficientes para despertar o interesse do Porto, que enxergou no garoto um perfil de atacante versátil, capaz de atuar pelos lados ou centralizado.

Na temporada 2025/26, William Gomes se tornou peça decisiva no elenco português, frequentemente saindo do banco para resolver partidas. Ao longo de todas as competições, acumulou 13 gols e duas assistências. No Campeonato Português especificamente, foram oito gols — segundo melhor desempenho da equipe, atrás apenas do nigeriano Samu Aghehowa, que terminou a campanha com 13 tentos.

"Tenho muito orgulho de tudo que construímos durante essa temporada. Foram dias de suor, dor, resiliência, alegria, tristeza e cansaço, mas que nos deram 100% de certeza de que seríamos campeões. Sabíamos que o caminho não seria perfeito, mas tínhamos a convicção de que o destino final seria o título", publicou William Gomes nas redes sociais após a conquista.

A participação nas quartas de final da Liga Europa também chamou atenção além de Portugal. No empate em 1 a 1 contra o Nottingham Forest, William Gomes marcou o gol do Porto — e foi exatamente nessa partida, em 9 de abril, que representantes do Chelsea estiveram presentes nas arquibancadas do estádio, conforme revelou o site britânico Sport Witness.

A engenharia financeira da venda e o que o São Paulo blindou para si

A operação que levou William Gomes a Portugal em janeiro de 2025 foi mais sofisticada do que os números de superfície sugeriam. A proposta inicial dos portugueses ficou em torno de 9 milhões de euros, mas o negócio envolveu uma contrapartida estratégica: o São Paulo exigiu a liberação antecipada do lateral-esquerdo Wendell, cujo contrato com o Porto se encerrava em julho daquele ano. A chegada do lateral ao Morumbis, antecipada pela negociação, foi parte do pacote.

Mais relevante do que o valor inicial, porém, foi a cláusula de retenção de direitos econômicos. O Porto adquiriu 80% dos direitos do jogador, enquanto o São Paulo manteve os outros 20% — uma decisão que, à época, parecia protocolar para uma venda de atleta jovem. Hoje, com o mercado se movendo na casa dos 65 milhões de euros, essa fatia de 20% se transformou em um ativo financeiro de primeira grandeza.

Para contextualizar: quando o Porto comprou o jogador, a cláusula rescisória no contrato com o São Paulo estava fixada em R$ 700 milhões — um valor que servia mais como escudo contra investidas europeias do que como referência real de mercado. O Porto conseguiu negociar abaixo dessa barreira porque a operação incluía variáveis não monetárias, como a vinda de Wendell.

Quanto o São Paulo pode embolsar com os 20% retidos

Aqui está o número que interessa ao torcedor são-paulino. Segundo o site Sport Witness, o Chelsea estaria disposto a investir 65 milhões de euros na contratação de William Gomes — aproximadamente R$ 382 milhões na cotação atual. Com 20% dos direitos econômicos, o São Paulo receberia 13 milhões de euros, algo em torno de R$ 76 milhões. Somados aos 9 milhões de euros da venda original, o clube teria arrecadado cerca de 22 milhões de euros com o jogador revelado em Cotia.

A comparação com o valor de compra é reveladora. O Porto pagou cerca de 9 milhões de euros por 80% do jogador. Se o Chelsea fechar a compra por 65 milhões de euros, os portugueses embolsariam aproximadamente 52 milhões de euros com a revenda — um retorno de quase seis vezes o investimento em pouco mais de um ano. O São Paulo, por sua vez, multiplicaria por 1,4 vezes o valor recebido na venda original, apenas com a cláusula de participação futura.

O Chelsea não está sozinho na disputa. Segundo o Sport Witness, pelo menos outros dois clubes ingleses monitoram o jogador — um deles é o Arsenal, o outro tem identidade mantida em sigilo. O jornal espanhol Diário AS também noticiou o interesse do Newcastle, o que indica que a concorrência pode elevar ainda mais o valor final da negociação.

A análise que o SportNavo fez dos números disponíveis mostra que William Gomes se enquadra em um perfil de jogador que o mercado europeu tem precificado de forma crescente: atacante jovem, versátil, com passagens por seleções de base e já testado em competições continentais. Aos 20 anos, ele tem pelo menos oito anos de janela de valorização pela frente.

O Chelsea, que já havia demonstrado interesse em William Gomes quando o atacante ainda estava nas categorias de base do São Paulo, pretende definir a contratação até o fim da temporada 2025/26, de acordo com o Sport Witness. O Porto, por sua vez, ainda não se pronunciou publicamente sobre propostas, mas o clube português tem histórico consolidado de vender suas joias quando o preço atinge determinado patamar — e 65 milhões de euros por um jogador adquirido por 9 milhões certamente ultrapassa qualquer limiar interno.

Se a negociação se concretizar nos valores indicados, o São Paulo receberá os 13 milhões de euros diretamente, sem precisar negociar ou ceder qualquer ativo em troca. É o modelo de retenção de direitos funcionando exatamente como foi desenhado — e o Tricolor paulista colhe agora os frutos de uma cláusula que, em janeiro de 2025, muita gente tratou como detalhe contratual.

William Gomes deve retornar a campo pelo Porto na próxima semana, quando os portugueses encerram a temporada 2025/26. Qualquer movimentação concreta do Chelsea ou do Arsenal nas próximas semanas definirá se o São Paulo receberá R$ 76 milhões ou se a espera por uma oferta ainda maior vale o risco de ver o mercado esfriar.

Um jovem de 20 anos, sozinho no meio de campo, levantando a taça do Campeonato Português ao lado de Thiago Silva e Pepê — e em algum escritório no Morumbis, alguém já fez a conta de 20% sobre 65 milhões.