Não, o Flamengo não é o clube carioca com maior tradição de revelar jogadores para Copas do Mundo — ao menos não quando se coloca o histórico completo das bases sobre a mesa. O empate técnico de sete convocados cada na pré-lista de Carlo Ancelotti, divulgada à FIFA em 11 de maio de 2026, esconde uma assimetria que os dados de longo prazo deixam evidente. E é justamente aí que a disputa entre o Ninho do Urubu e Xerém se torna analiticamente interessante.
Os sete do Flamengo que chegaram à mesa de Ancelotti
O levantamento publicado pelo ge e sintetizado pela apuração do SportNavo identificou sete atletas formados nas categorias de base do Flamengo na relação preliminar de 55 nomes: Vini Jr., Lucas Paquetá, João Gomes, Samuel Lino, Wesley e outros dois integrantes do grupo. O conjunto representa uma geração moldada sobretudo entre 2012 e 2018 no Ninho do Urubu, período em que o clube investiu de forma sistemática na infraestrutura do centro de treinamento. Vini Jr., revelado profissionalmente pelo Flamengo em 2017 aos 16 anos, é hoje o ativo mais valioso dessa linha de produção — avaliado em mais de 200 milhões de euros pelo mercado europeu. É um número que nenhum outro produto de base brasileira atual se aproxima.
Xerém e a genealogia que atravessa gerações da Seleção
O Fluminense apresenta um perfil diferente: seus sete representantes na pré-lista cobrem um espectro etário de quase duas décadas. Thiago Silva, 41 anos, começou a carreira profissional pelo Flu em 2002; João Pedro, 23 anos, foi revelado em Xerém por volta de 2018. Entre eles estão Gerson, Luiz Henrique e Pedro, que somam, juntos, 47 partidas pela Seleção Brasileira em Copas do Mundo — número superior à soma de aparições em Mundiais de todos os jogadores revelados pelo Vasco da Gama desde 1990. Xerém produziu titulares do penta de 2002 (Thiago Silva chegou tarde demais, mas Deco e outros passaram pela estrutura tricolor) e ainda abastece a lista quase 25 anos depois.
"O Fluminense sempre teve uma filosofia de formação muito clara, de trabalhar o jogador tecnicamente desde cedo", disse Pedro em entrevista ao canal oficial do clube em março de 2026, ao ser questionado sobre a influência de Xerém em sua carreira.
Athletico, Cruzeiro e São Paulo mostram que a decisão de Ancelotti vai além do Rio
O recorte carioca é real, mas a lista de 55 nomes documenta um Brasil mais plural do que o debate Rio versus resto sugere. Athletico-PR, Cruzeiro, São Paulo e Palmeiras aparecem com quatro atletas revelados cada — e clubes como América-MG, Avaí, Coritiba, Ituano, Londrina e Náutico também constam no levantamento, o que indica que Ancelotti e sua comissão rastrearam jogadores em pelo menos 14 diferentes centros de formação do país. A lista definitiva será fechada em 18 de maio de 2026, quando os 55 nomes serão reduzidos ao grupo que efetivamente disputará o Mundial nos Estados Unidos, Canadá e México.
"A pré-lista reflete o mapeamento que fizemos ao longo de dois anos de trabalho", declarou Ancelotti em coletiva realizada após o envio do documento à FIFA, segundo o ge.
O empate numérico entre Flamengo e Fluminense na pré-lista esconde, portanto, cronologias distintas: o Ninho do Urubu concentra sua produção em uma janela mais recente e geograficamente direcionada à Europa, enquanto Xerém apresenta uma curva histórica mais longa, com jogadores em diferentes fases de carreira. A resposta definitiva sobre qual base carioca pesará mais na Copa virá em 18 de maio, quando Ancelotti bater o martelo sobre os cortes — e os sete de cada clube poderão se transformar em números bem diferentes.









