Não, o maior problema da Suíça não é a falta de talento. Essa é a leitura preguiçosa que circula cada vez que a Nati é eliminada nas oitavas de final. O que Murat Yakin apresentou nesta quarta-feira (20) — uma lista de 26 convocados com 17 remanescentes da Copa de 2022 — sugere uma aposta deliberada em continuidade e maturidade coletiva, não uma resignação ao status quo. A pergunta real é outra: essa continuidade é suficiente para romper uma barreira que dura 72 anos?

A lista que Yakin montou e o que ela diz sobre a estratégia suíça

Granit Xhaka lidera o grupo com autoridade numérica incontestável. São 144 jogos pela seleção suíça — recorde histórico — e esta será sua quarta participação em Copa do Mundo. Aos 33 anos, o volante do Sunderland é o eixo tático e emocional da equipe. Yakin não escondeu a centralidade do jogador ao construir sua lista ao redor de um bloco experiente.

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No gol, Gregor Kobel, do Borussia Dortmund, é a principal referência entre os três convocados — Marvin Keller (Young Boys) e Yvon Mvogo (FC Lorient) completam o setor. Na defesa, Manuel Akanji, da Inter de Milão, representa o maior nível competitivo do grupo: campeão italiano e com experiência consolidada na Champions League. Ricardo Rodriguez (Real Betis) e Nico Elvedi (Borussia Mönchengladbach) formam a espinha dorsal defensiva.

No meio-campo, a novidade é Ardon Jashari, contratado pelo Milan para a próxima temporada, que aos 22 anos surge como a principal aposta de renovação. Remo Freuler (Bologna), Denis Zakaria (Monaco) e Djibril Sow (Sevilla) garantem volume e intensidade. O jovem Johan Manzambi, do Freiburg, entra em cena em circunstância simbólica: no mesmo dia do anúncio da convocação, ele disputa a final da Liga Europa pela equipe alemã.

No ataque, Breel Embolo (Stade Rennais) e Dan Ndoye (Nottingham Forest) oferecem velocidade e verticalidade. Noah Okafor, recuperado no Leeds United após passagem conturbada, e Ruben Vargas (Sevilla) completam as opções ofensivas. Zeki Amdouni, do Burnley, é o nome com maior sequência de gols nas últimas eliminatórias europeias.

"A Suíça tentará superar a fase das oitavas de final, etapa em que parou nas últimas três Copas", registrou o comunicado oficial da federação ao confirmar a lista de Yakin.

O Grupo B favorece a Suíça — mas os números históricos pedem cautela

A chave sorteada para a Nati é, objetivamente, a mais acessível entre os grupos da Copa do Mundo 2026. Bósnia e Herzegovina estreia no torneio máximo sem histórico recente de grandes campanhas. O Catar, campeão da CONCACAF em 2023 como convidado, foi eliminado na fase de grupos em 2022 sem vencer uma partida. O Canadá, co-anfitrião, tem geração promissora mas ainda constrói identidade competitiva em Copas.

A Suíça estreia no dia 13 de junho contra o Catar, em São Francisco. Enfrenta a Bósnia em 18 de junho, em Los Angeles. Fecha a fase de grupos contra o Canadá em 24 de junho, em Vancouver. Três jogos em 11 dias, com deslocamentos entre cidades americanas — um desafio logístico que pode impactar o rendimento físico.

A campanha mais recente, no Catar-2022, terminou com eliminação nas oitavas para Portugal por 6 a 1 — um resultado que expôs a fragilidade da equipe quando pressionada por adversários de elite. Em 2018, foi a França que eliminou os suíços na mesma fase, por 5 a 2. Em 2014, a Argentina fez 1 a 0 na prorrogação. Três Copas. Três oitavas de final. A barreira não é coincidência — é padrão.

"A Suíça não supera as oitavas desde 1954", lembrou a federação ao contextualizar o desafio histórico da geração atual.

72 anos de espera e o que realmente impede a Suíça de chegar às quartas

A melhor campanha suíça em Copas do Mundo aconteceu em 1954 — quando o país sediou o torneio e chegou às quartas de final. Antes disso, havia chegado ao mesmo estágio em 1934 e 1938. Desde então, seis décadas e meia sem ultrapassar a segunda fase eliminatória.

A narrativa popular atribui esse histórico à falta de um centroavante de elite. Os números desmentem parcialmente essa tese. A Suíça marcou sete gols nas últimas três participações em Copas — média modesta, mas o problema estrutural está na capacidade de manter a intensidade defensiva por 90 minutos contra seleções de nível A. Contra Portugal em 2022, o sistema de Yakin desmoronou após o 2 a 2: nos últimos 30 minutos, a equipe concedeu quatro gols.

A lista que Yakin montou e o que ela diz sobre a estratégia suíça Xhaka na 4ª Co
A lista que Yakin montou e o que ela diz sobre a estratégia suíça Xhaka na 4ª Co

A aposta em 17 jogadores que já viveram essa experiência — e que falharam juntos nela — tem dois lados. Há coesão tátil e identidade de jogo consolidada. Mas há também o risco de que o grupo carregue os mesmos vícios que o impediram de avançar. Jashari e Manzambi representam a única ruptura geracional real na lista.

Se a Suíça passar em primeiro do Grupo B, enfrenta provavelmente o segundo colocado do Grupo A — que inclui Argentina, Peru e Chile. Uma oitava de final contra a seleção de Lionel Scaloni seria, outra vez, o teto histórico se repetindo. Para chegar às quartas, Xhaka e Kobel precisam que esta geração faça o que nenhuma outra fez desde que a Copa tinha 16 participantes: vencer quando o jogo fica difícil. A estreia está marcada para 13 de junho, em 24 dias.