O saco de pancadas balançava com uma força que Tallison Teixeira não estava esperando. Dois metros de altura, veterano de treinos com a seleção olímpica de boxe, o peso-pesado brasileiro já havia sentido muita coisa dentro de um ginásio. Não sentiu nada como aquilo. O homem do outro lado era Alex Pereira, e os jabs chegavam com uma pressão que, nas palavras do próprio Xicão, eram de "misericórdia".

De médio a pesado — a trajetória que ninguém mais tentou

Poucos atletas na história do UFC percorreram o caminho que Pereira já trilhou. Ex-campeão dos pesos-médios (84 kg) e meio-pesados (93 kg), o striker paulista de 36 anos vai estrear nos pesos-pesados — até 120 kg — no UFC Casa Branca, em 14 de junho, diante do francês Ciryl Gane. Uma vitória o tornaria o primeiro atleta da história a conquistar cinturões em três categorias diferentes no Ultimate. O SportNavo mapeou o cartel do brasileiro: 12 vitórias no UFC, com finish rate acima de 90%, e apenas uma derrota na organização.

A salto de categoria não é novidade no MMA, mas raramente acontece em dois degraus simultâneos. Subir 27 kg de limite de peso exige adaptação cardiorrespiratória, absorção de impacto e, sobretudo, geração de força compatível com atletas que pesam naturalmente próximo dos 120 kg. É aí que o depoimento de Xicão ganha peso técnico.

O que Xicão sentiu nos treinos muda o diagnóstico

Tallison Teixeira, 26 anos, é um dos maiores atletas que já pisaram no octógono — literalmente. Com mais de dois metros de altura, ele treinou com a seleção olímpica de boxe e já serviu de sparring para nomes de alto nível. Depois de semanas ao lado de Pereira na preparação para o UFC Casa Branca, o veredito foi categórico em entrevista ao canal Sexto Round:

"Ele jogava uns jabs na minha guarda e eu já estava: 'Ei, velho! Calma aí'. Ele é muito forte. Para mim, é um peso-pesado natural. Era maluco de bater 84 kg. O cara é gigante, denso. Nessa divisão, ele não vai ter dificuldades. Já treinei com outros pesos-pesados, com a seleção olímpica de boxe e nunca senti alguém com a pressão nas mãos igual a dele", relatou Xicão.

Do ponto de vista técnico-marcial, o que Teixeira descreve é striking differential positivo mesmo dentro de uma categoria acima. Pereira historicamente opera com alta acurácia de striking — superior a 55% no connect rate em luta de pé — e um ground and pound devastador quando leva a luta ao chão. Contra Gane, que tem base de muay thai e usa o clinch como ferramenta de controle de distância, o duelo promete se decidir na trocação ou nas transições de clinch para takedown.

Gane, Strickland e o panorama que Poatan encontra na nova divisão

Ciryl Gane possui sprawl eficiente e striking técnico, com reach que favorece a manutenção de distância — exatamente o perfil que testa o pressing game de Pereira. Mas a avaliação de Xicão aponta que o brasileiro chegará ao octógono com densidade muscular e potência compatíveis com a divisão, atributos que anulam parte da vantagem física do francês. Xicão foi além e cravou prognóstico: "Acredito que ele nocauteia no segundo round."

No radar dos pesos-médios, Sean Strickland reconquistou o cinturão da divisão dos 84 kg ao vencer Khamzat Chimaev no UFC 328, segundo o MMA Fighting. O resultado reorganiza o cenário abaixo de Pereira e confirma que a janela de tempo para o brasileiro consolidar o legado em múltiplas categorias está aberta — mas estreita. Ketlen Vieira, número cinco do peso-galo feminino, entra no octógono neste sábado (16) no UFC Vegas 117 contra Jacqueline Cavalcanti, buscando reverter sequência alternada de resultados desde novembro passado.

O UFC Casa Branca acontece em 14 de junho, com Pereira x Gane valendo o cinturão interino dos pesos-pesados. Está pronto — falta o palco confirmar o que o ginásio já mostrou.