Se a Copa do Mundo começasse com o peso da história, a Espanha entraria no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, com uma estatística que incomoda: em 16 estreias disputadas em Mundiais, a Roja venceu apenas cinco vezes, empatou quatro e perdeu sete — um aproveitamento de 37,5% que destoa completamente do time que atropelou todas as seleções do seu grupo nas Eliminatórias Europeias sem perder uma única partida. O número existe. Mas este é outro time, outro ciclo, outra Espanha.

A partida desta segunda-feira, 15 de junho, às 13h (horário de Brasília), marca a 17ª estreia espanhola em Copas e a primeira da história de Cabo Verde no torneio. O Grupo H tem nesta abertura um contraste que vai além do favoritismo: de um lado, uma seleção que carrega o peso de 2010 e a ressaca de 2022; do outro, um arquipélago de meio milhão de habitantes que foi a maior surpresa das Eliminatórias Africanas, liderando o Grupo D com 23 pontos e deixando para trás Camarões e Angola.

O histórico que a Roja preferia não lembrar

A primeira vez que a Espanha jogou uma Copa foi em 1934, na Itália, e o adversário era justamente o Brasil — vitória por 3 a 1 e avanço às quartas de final. Décadas depois, em 1986 no México, os papéis se inverteram e o Brasil levou a melhor por 1 a 0. Mas nenhuma estreia ficou tão marcada no imaginário coletivo quanto as de 2010 e 2014. Em Johanesburgo, a futura campeã mundial perdeu para a Suíça por 1 a 0 e depois encontrou seu ritmo para conquistar o único título da história. Quatro anos mais tarde, no Brasil, na abertura da defesa do troféu, a Holanda aplicou 5 a 1 e encerrou qualquer ilusão antes que o torneio começasse de verdade.

A última estreia, no Catar em 2022, foi a melhor da história espanhola em primeiras rodadas: 7 a 0 sobre a Costa Rica, com Pedri e Ferran Torres entre os destaques. O problema é que aquela goleada não se converteu em título — a Espanha caiu nas oitavas de final, fase em que parou também em 2018. O técnico Luis de la Fuente sabe que a régua do sucesso não se mede mais pela estreia, mas pela capacidade de manter o nível quando os adversários ficam mais difíceis.

Lamine Yamal no banco e a dúvida que De la Fuente carrega

O nome mais aguardado desta Copa começa a partida fora do campo. Lamine Yamal, 17 anos, se machucou em abril enquanto atuava pelo Barcelona — lesão muscular na coxa esquerda — e ficou fora dos gramados por semanas. Recuperado, estará à disposição do técnico como opção no banco de reservas. Segundo o staff da Federação Espanhola, o jovem prodígio passou nos testes físicos desta semana, mas De la Fuente optou por não arriscar uma recaída logo na abertura do torneio.

A principal dúvida do treinador era a escolha entre Dani Olmo e Álex Baena para o meio-campo, com a escalação confirmada apostando em Olmo. A linha ofensiva espanhola terá Ferran Torres e Mikel Oyarzabal na frente, com Pedri e Fabián Ruiz construindo o jogo por dentro. Rodri ancora o meio-campo e Pau Cubarsí, 18 anos, forma a zaga ao lado de Aymeric Laporte. Nas palavras do próprio De la Fuente, ao longo da semana de preparação, a ideia é "controlar o jogo desde o início e não dar espaço para o adversário sonhar" — uma referência clara ao susto de 2010 contra a Suíça.

O histórico que a Roja preferia não lembrar Yamal no banco e 7 derrotas em 16 es
O histórico que a Roja preferia não lembrar Yamal no banco e 7 derrotas em 16 es

Os Tubarões Azuis e a história que começa do zero

Cabo Verde chega a este jogo sem passado em Copas do Mundo — e essa ausência de trauma pode ser, paradoxalmente, uma vantagem psicológica. O técnico Pedro Leitão, conhecido como Bubista, ex-zagueiro que construiu uma carreira modesta em clubes portugueses, montou um elenco formado majoritariamente por atletas da diáspora espalhados pela Europa. O zagueiro Logan Costa, que atua no Villarreal, na Espanha, é um dos nomes mais conhecidos do grupo. O capitão Ryan Mendes, com passagens por clubes franceses e hoje no Kocaelispor, da Turquia, lidera o ataque.

Jamiro Monteiro e Jovane Cabral completam o setor ofensivo de uma seleção que surpreendeu ao liderar o Grupo D das Eliminatórias Africanas com 23 pontos — mais do que Camarões, que tem quatro participações em Copas.

"Nós não viemos aqui para fazer número. Viemos representar um povo inteiro que nunca viu sua seleção numa Copa do Mundo", disse Bubista em entrevista à Federação Cabo-Verdiana de Futebol na véspera da partida.
A frase diz muito sobre o que está em jogo para o arquipélago atlântico nesta tarde de junho em Atlanta.

A Espanha tem 100% de aproveitamento nas Eliminatórias e o elenco mais jovem entre os favoritos ao título. Cabo Verde tem a estreia mais improvável desta Copa do Mundo — e um grupo que não tem nada a perder. O jogo começa às 13h no Mercedes-Benz Stadium, com transmissão pela CazéTV, e define quem sai na frente num grupo que ainda tem outros dois adversários a serem enfrentados. Yamal assiste do banco e espera seu momento — está recuperado. Falta o palco confirmar.