Quanto tempo um lutador invicto aguenta ver sua carreira ser desmontada luta por luta, cancelamento por cancelamento, antes de simplesmente parar? Zabit Magomedsharipov chegou ao UFC como uma das maiores promessas da história dos penas — seis lutas, seis vitórias, nenhuma derrota — e sumiu do octógono em 2022 sem título, sem revanche, sem explicação pública. Agora ele falou.

A resposta não veio de uma entrevista coletiva nem de um comunicado oficial. Veio de um vídeo publicado pela ACB Jiu-Jitsu, organização que vai recebê-lo em um evento de grappling em 2026 — sua primeira competição desde novembro de 2019, quando bateu Calvin Kattar por decisão e chegou ao recorde de 6-0 no octógono. Foram mais de seis anos de silêncio. O que ele disse vale cada segundo de espera.

Cinco preparações para lutas que nunca aconteceram

O nome central da história é Yair Rodriguez. A luta entre os dois foi marcada, adiada, remarcada e cancelada repetidas vezes — Zabit afirma que o ciclo se repetiu ao menos cinco vezes. Em agosto de 2020, quando o confronto finalmente parecia concreto, Rodriguez se retirou com uma fratura no tornozelo. Zabit tinha feito o camp completo, viajado para os Estados Unidos, passado pela restrição alimentar da perda de peso.

"Imagina isso umas cinco vezes. Eu me cansei. Até quando dá para aguentar?"

Reparemos no detalhe: Zabit não estava recusando lutas. Ele queria lutar. O problema era sistêmico — a gestão do card e a incapacidade (ou desinteresse) do UFC em proteger um contendor que cumpria sua parte, enquanto o adversário faltava repetidamente com os compromissos.

A promessa que o UFC não cumpriu

Segundo Zabit, havia um acordo verbal com a organização: se Rodriguez cancelasse pela terceira vez, ele receberia automaticamente uma disputa pelo cinturão dos 145 kg. O russo afirma que o terceiro cancelamento aconteceu — e a promessa foi ignorada. No lugar do title shot, vieram ofertas alternativas: primeiro o Korean Zombie, depois outros nomes. Nenhum deles era o que Zabit queria, nem o que, segundo ele, tinha sido combinado.

"Eles simplesmente não queriam me fazer campeão. Eu sei o motivo também. Naquela época já tínhamos muitos campeões russos. Khabib era o campeão..."

A fala é direta demais para ser ignorada. Em 2019, Alexander Volkanovski desbancou Max Holloway no último card do ano e assumiu o cinturão dos penas. O contexto geopolítico dentro do UFC — com Khabib Nurmagomedov dominando os leves e outros russos em posições de destaque — pode ter pesado na equação editorial da organização. Zabit acredita que sim.

O que os números dizem sobre o que foi desperdiçado

A última luta de Zabit no UFC foi em novembro de 2019. Ele tinha 28 anos, estava invicto na promoção e vinha de uma vitória sobre Kattar — um dos melhores strikers da divisão. Seu estilo combinava caratê, kickboxing e grappling de alto nível, com finishing ability em pé e no chão. Nenhum dos seus seis adversários no UFC conseguiu derrotá-lo. Para efeito de comparação, Rodriguez — o homem que nunca conseguiu aparecer para a luta — seguiu competindo e chegou a disputar o cinturão interino em 2022.

O desperdício é mensurável. Zabit tinha reach, athletismo e um game plan que incomodava qualquer perfil de lutador na divisão. A janela de pico de um atleta de MMA é curta — entre 27 e 32 anos, na maioria dos casos. Zabit passou esse período inteiro esperando por lutas que nunca vieram.

Jiu-jitsu em 2026 e o que vem depois

Aos 35 anos — ele completou em março —, Zabit não está fechando a porta para o MMA, mas o próximo passo concreto é o evento de grappling da ACB JJ ainda em 2026. A competição serve como termômetro físico e, provavelmente, como forma de manter o nome ativo no circuito de artes marciais enquanto avalia opções. Se o desempenho for convincente, a pressão por um retorno ao MMA — seja no UFC ou em outra organização — vai aumentar naturalmente, vinda dos fãs que nunca esqueceram o que ele foi capaz de fazer dentro do octógono.