Se a Copa do Mundo começasse hoje, o Brasil entraria em campo sem um único lateral-direito de origem na convocação. Não é exagero estatístico: dos 26 nomes anunciados por Carlo Ancelotti na segunda-feira (18), nenhum atuou prioritariamente como lateral-direito ao longo da temporada 2025/2026. A solução encontrada pelo treinador italiano — escalar Danilo, 34 anos, e Ibañez, zagueiro que atua no futebol saudita, na função — é ao mesmo tempo pragmática e reveladora de uma lacuna real no setor.
O problema se resolve no segundo parágrafo, mas não sem ruído. Danilo é homem de confiança de Ancelotti desde os tempos de Real Madrid, lidera o vestiário da Seleção e tem personalidade suficiente para ocupar qualquer função no campo. O detalhe é que ele não disputou nenhuma partida como lateral em 2026 — atua como zagueiro no Flamengo, onde é reserva. Ibañez, por sua vez, foi testado na lateral-direita apenas na última Data Fifa, em caráter experimental. São dois zagueiros sendo adaptados a uma posição que o Brasil historicamente dominou com folga.
O número que sintetiza a carência na lateral-direita brasileira
Zero. Esse é o número de jogos como lateral-direito disputados por Danilo e Ibañez em 2026 antes da convocação. A primeira opção de Ancelotti para o setor era Éder Militão, do Real Madrid — mas o zagueiro chegou lesionado ao período de convocação e ficou fora da lista. Wesley, ala da Roma em boa fase no futebol italiano, foi deslocado para posições mais avançadas justamente por ter mais valências ofensivas do que defensivas, o que torna sua utilização como defensor lateral um risco calculado numa Copa do Mundo.
O próprio Ancelotti reconheceu a situação antes dos amistosos mais recentes da Seleção.
"Nunca faltaram laterais no futebol brasileiro, tivemos jogadores fantásticos, mas agora temos um pouco de carência nesse setor. Mas temos jogadores espertos nessa posição, o jovem Wesley está muito bem na Roma."
A fala do treinador confirma o diagnóstico: a escolha não é ideológica, é circunstancial. O Brasil não tem, neste momento, um lateral-direito de nível Copa do Mundo em plena função na posição.
Ancelotti repete fórmula que já deu título mundial a outras seleções
A estratégia de escalar zagueiros na lateral não é invenção de Ancelotti — e tampouco é derrota tática. Seleções campeãs mundiais recentes recorreram à mesma solução quando faltavam especialistas na posição. A escola europeia, historicamente, trata o lateral como um defensor em sentido mais estrito do que o Brasil, onde a posição sempre foi associada a funções ofensivas relevantes. Mas o técnico Maurício Barbieri, do Juventude, ponderou que essa leitura cultural não explica a escolha de Ancelotti.
"Eu entendo que essa escolha tem mais relação com as opções de momento da Seleção do que com uma tendência atual. O próprio Ancelotti trabalhou com vários laterais brasileiros e de outras nacionalidades com características ofensivas. Portanto, eu entendo que essa escolha tem mais relação com as opções disponíveis", opinou Barbieri ao Lance!.
A análise de Barbieri é precisa. Ancelotti não está reinventando o futebol — está gerenciando uma limitação real com os recursos disponíveis. E o histórico do treinador italiano com laterais ofensivos, de Marcelo a Carvajal, mostra que ele não tem restrição ideológica à posição.
O impacto dessa escolha na estrutura defensiva do Brasil na Copa
A questão central não é se Danilo ou Ibañez conseguem cumprir a função — é quanto o Brasil perde ofensivamente no lado direito. Num esquema que depende de Vinicius Jr., avaliado em € 150 milhões pelo Transfermarkt e quinto jogador mais valioso do mundo, e de Raphinha (€ 80 milhões), o desequilíbrio entre os lados pode ser explorado por adversários organizados. A lateral-esquerda, com Douglas Santos ou Alex Sandro, tem mais tradição de sobreposição do que o lado direito, onde a opção mais provável — Danilo — tende a priorizar a segurança posicional.
Há, porém, uma leitura positiva nesse cenário. Seleções que chegam à Copa com uma primeira linha defensiva sólida tendem a ir longe. Gabriel Magalhães, avaliado em € 75 milhões, forma com Marquinhos uma das duplas de zagueiros mais confiáveis do torneio. Se Danilo atuar como terceiro zagueiro numa linha de três, ou como lateral de contenção num 4-3-3 de baixo bloco, o sistema pode funcionar sem expor o flanco direito. Ancelotti já montou estruturas assim no Real Madrid — e sabe exatamente o que está fazendo.
Como o trânsito da Avenida Paulista às 18h numa sexta-feira, a lateral-direita da Seleção vai exigir paciência e inteligência para fluir. O elenco tem qualidade para superar a limitação — falta o teste real, em campo, contra adversários que vão pressionar exatamente esse ponto.










