Três coisas: personalidade, confiança de Ancelotti e o fator surpresa. É a partir desses três eixos que Endrick pode mudar a história do Brasil na Copa do Mundo — e é exatamente o que Zico enxerga quando analisa a convocação divulgada nesta terça-feira, 19 de maio.
O número que Zico leu antes de todo mundo sobre Endrick
Pouca gente no Brasil tinha prestado atenção nisso. Zico, sim.
Quando o ex-meio-campista afirma que Carlo Ancelotti "tem confiança total no Endrick" e que "pouca gente está falando nisso", ele está descrevendo um fenômeno que passou despercebido no barulho das discussões sobre Neymar: o jovem atacante, hoje no Lyon, foi lapidado por Ancelotti no Real Madrid numa fase em que poucos ainda acreditavam no seu potencial em alto nível europeu. Essa relação técnico-atleta não é detalhe — é fundamento.
"Quando ele chegou no Real, ainda era o Ancelotti e ele viu potencial nele. Depois do Neymar, talvez seja o jogador que surgiu com a maior qualidade, decisivo, de personalidade, alguém que pode, realmente, ocupar um espaço de centroavante. Nos jogos que fez, ele sempre mostrou isso", disse Zico ao canal Fala a Fonte, do YouTube da ESPN.
Há um paralelo histórico que ajuda a entender o raciocínio. Em 1982, quando Zico chegou ao seu segundo Mundial com 29 anos e o status de melhor jogador do mundo, a imprensa internacional já sabia exatamente o que esperar dele. O Brasil de Telê Santana perdeu para a Itália de Paolo Rossi justamente porque o adversário tinha um plano para neutralizar os nomes conhecidos. A imprevisibilidade, naquele contexto, era um ativo que a Seleção não tinha. Endrick, em 2026, representa o oposto: um centroavante que a maioria das defesas adversárias ainda não estudou em profundidade.
Segundo a avaliação do SportNavo, esse fator de desconhecimento relativo — que Zico chamou de "pouca gente conhece o Endrick" — pode ser determinante nos jogos da fase de grupos, quando as equipes adversárias ainda estão calibrando seus esquemas de marcação.
Neymar entre a história e o risco físico que Zico não ignora
A Copa do Mundo 2026 pode ser a última chance de Neymar reescrever seu legado em Mundiais — e esse peso histórico é real.
Com 64 gols pela Seleção Brasileira, Neymar é o maior artilheiro da história do escrete. Em Copas do Mundo, porém, o retrospecto é marcado por interrupções: saiu lesionado nas quartas de final de 2014 contra a Colômbia e foi suspenso na semifinal daquele mesmo torneio; em 2022, no Catar, sofreu entorse no tornozelo logo na estreia contra a Sérvia e voltou apenas nas oitavas, eliminado pela Croácia nos pênaltis. Agora, retorna de um longo período de recuperação pelo Santos, sem a garantia de que estará em condição física plena para os 90 minutos de alta intensidade que uma Copa exige.
"Você faz contestações, Neymar tem um histórico na Seleção em Copa do Mundo. Talvez tenha tido muitos problemas nas outras Copas, mas tomara que agora ele vá sem problemas. Claro que a qualidade não se discute", ponderou Zico, equilibrando o reconhecimento ao craque com a realidade do momento.
É um dilema que lembra, em certa medida, o que a Argentina viveu com Diego Maradona em 1994: um ídolo insubstituível em termos simbólicos, mas com o corpo já em outra frequência. A torcida no Maracanã sempre acreditou no impossível — e às vezes o impossível acontece. Mas Ancelotti, técnico pragmático que já conduziu o Real Madrid a quatro títulos da Champions League, dificilmente vai apostar todas as fichas em uma incógnita física.
Gerson, Pedro e o buraco que a convocação deixou aberto na defesa
Há uma lacuna que Zico não hesitou em nomear — e ela dói mais do que qualquer ausência no ataque.
A defesa convocada por Ancelotti conta com Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bremer, Ibañez e Léo Pereira. O nome que faltou foi Éder Militão, que se lesionou antes mesmo de entrar na lista ampliada de 55 jogadores. Para Zico, esse é o principal problema estrutural da Seleção: "Na defesa, eu acho que é o principal problema. Ele contava com um zagueiro para jogar por ali (Militão), mas não foi possível."
No meio-campo e no ataque, as ausências que mais incomodaram o ídolo do Flamengo foram Gerson e Pedro. O primeiro, hoje no Cruzeiro após passagem apagada pela Rússia, chegou a ser considerado um dos melhores volantes do continente durante sua fase no Flamengo entre 2021 e 2022. O segundo é artilheiro do Campeonato Brasileiro em 2026 e, na visão de Zico, o melhor centroavante do país na atualidade.
"Aí, é um gosto pessoal, eu acho o Pedro o melhor do Brasil naquela posição. Ele foi pouco utilizado na Copa do Mundo, era o terceiro reserva, mas ele é espetacular. Esperava que ele pudesse estar presente", afirmou o ex-jogador, que disputou três Copas do Mundo como atleta — em 1978, 1982 e 1986.
A preferência de Ancelotti por Igor Thiago, do Brentford, que marcou na última convocação e demonstrou presença física nos duelos aéreos, tem lógica tática. Mas a ausência de Pedro — artilheiro do Brasileiro, com histórico de decisões em mata-mata pela Copa do Brasil e pela Libertadores — é o tipo de escolha que, no compasso da Lapa de quinta-feira, divide opiniões entre os torcedores mais apaixonados e os analistas mais frios.
A Seleção Brasileira enfrenta o Panamá em amistoso no dia 31 de maio, às 17h (horário de Brasília), e depois o Egito em 6 de junho, às 19h. A estreia no Mundial acontece em 13 de junho, contra Marrocos, às 19h. Os jogadores se apresentam na Granja Comary, em Teresópolis, dentro de uma semana — com exceção de Marquinhos, Gabriel Magalhães e Martinelli, que se juntam ao grupo em data posterior por conta das obrigações com seus clubes europeus.









