Todo mundo sabia que Zinédine Zidane chegaria. O que ninguém calculou direito foi o custo da espera — e o tamanho da herança que ele agora carrega. Nesta terça-feira (28), a Copa do Mundo de 2026 ainda ecoava no ar quando a Federação Francesa de Futebol (FFF) oficializou o que o futebol europeu aguardava desde 2021: Zidane, 54 anos, assinou contrato de quatro anos para comandar os Bleus.

Os 14 anos de Deschamps e o vazio que Zidane herda

Didier Deschamps deixa a seleção francesa com um currículo que pouquíssimos técnicos da história podem rivalizar. Foram 14 anos no cargo — de 2012 até o fim da Copa do Mundo de 2026 —, um título mundial conquistado na Rússia em 2018, um vice-campeonato no Qatar em 2022 e agora um quarto lugar que, dependendo do ângulo, pode ser lido como declínio ou como ciclo cumprido. A FFF não renovou. Deschamps tampouco insistiu.

O problema de substituir alguém assim não é técnico. É simbólico. Deschamps construiu uma identidade coletiva para uma geração de jogadores que inclui Kylian Mbappé, Antoine Griezmann e Aurélien Tchouaméni. Sua França era pragmática, defensivamente sólida e letal no contra-ataque. Venceu um mundial sendo, em vários momentos, menos espetacular do que seus adversários. Funcionou.

"O cargo de técnico da seleção da França era o único que eu queria", declarou Zidane ao lado de Philippe Diallo, presidente da FFF, na sede da entidade em Paris. "Tive propostas ao longo destes quatro ou cinco anos para comandar clubes, mas recusei todas por causa da seleção da França."

Essa frase diz muito sobre o que está em jogo. Zidane não trabalha como treinador desde maio de 2021, quando encerrou sua segunda passagem pelo Real Madrid. Cinco anos fora dos gramados. Cinco anos recusando propostas. Uma aposta que, vista de fora, parece irracional — mas que agora tem nome, contrato e data de estreia.

O que Zidane traz que Deschamps nunca teve

Como treinador, Zidane dirigiu apenas o Real Madrid — e fez isso de forma absolutamente singular. Três Champions League consecutivas entre 2016 e 2018 é uma marca que nenhum outro técnico na história da competição alcançou. Sua gestão de vestiário, especialmente com jogadores de alto ego como Cristiano Ronaldo e Sergio Ramos, tornou-se referência em cursos de liderança esportiva. Ele sabe lidar com estrelas. E a França tem várias.

Mbappé, por exemplo, é um caso à parte. Sua relação com Deschamps foi funcional, mas não isenta de tensões — o episódio da Copa de 2022, quando o atacante do PSG foi criticado por companheiros após a derrota nos pênaltis para a Argentina, expôs rachaduras que o técnico nunca resolveu publicamente. Zidane, que foi ídolo de Mbappé desde criança, tem capital afetivo que Deschamps jamais teve com a nova geração.

"Em fevereiro de 2025, me reuni com Zinédine Zidane. Foi um primeiro contato para propor uma missão à frente da nossa seleção", revelou Philippe Diallo durante o anúncio oficial.

Ou seja: a negociação durou mais de um ano. A FFF não agiu por impulso. Havia um plano, havia conversas, havia uma visão de médio prazo. Isso importa porque o futebol de seleção vive de ciclos — e a França precisa construir o próximo com mais clareza do que construiu o que acabou no quarto lugar em 2026.

Quatro anos, uma Eurocopa e a pressão que não vai embora

O contrato de quatro anos aponta diretamente para a Eurocopa de 2028, que será disputada no Reino Unido e na Irlanda. É o grande objetivo do ciclo. A Copa do Mundo de 2030, com formato expandido e sedes em três continentes, entra no horizonte como possibilidade — mas a Euro é a meta primária.

Zidane anunciará sua primeira convocação em setembro de 2026. A estreia oficial está marcada para o dia 25 do mesmo mês, contra a Turquia, em partida válida pela Liga das Nações. Pouco tempo para montar um time, estabelecer identidade e lidar com a inevitável comparação com o antecessor.

Ethan Mbappé (Lille)
Ethan Mbappé (Lille)

A renovação do elenco é urgente. Griezmann tem 35 anos. Olivier Giroud já se aposentou. A geração que venceu 2018 está no fim ou já saiu. Zidane precisará equilibrar a manutenção de Mbappé como eixo central com a incorporação de nomes como Warren Zaïre-Emery, 20 anos, e Désiré Doué, 19, que representam a próxima leva de talentos formados nas academias francesas.

Como jogador, Zidane disputou 108 partidas pela França, conquistou a Copa do Mundo de 1998 e a Eurocopa de 2000. Ele conhece o peso da camisa melhor do que qualquer pessoa que poderia ter sido contratada. Sabe o que é carregar uma nação nas costas num estádio lotado. Mas saber o que é jogar sob pressão máxima e saber como conduzir outros a fazerem isso são competências diferentes — e os cinco anos longe dos gramados tornam a equação ainda mais incerta.

É o mesmo cenário que a Espanha viveu em 2018, quando Luis Enrique assumiu uma seleção em crise após a demissão de Julen Lopetegui às vésperas da Copa — só que agora a aposta é calculada, construída ao longo de meses, e o técnico escolhido tem um sobrenome que, na França, equivale a uma religião.