Três coisas: era, contexto e critério. Tudo no debate Pelé versus Messi se explica a partir daí.
Foi com esse pano de fundo que Zinho — tetracampeão do mundo com a Seleção Brasileira nos Estados Unidos em 1994, ídolo de Palmeiras, Flamengo e Grêmio — entrou ao vivo no Fala a Fonte, live diária da ESPN no YouTube, transmitida neste domingo (28) direto de Nova Jersey, para dar a sua resposta sobre quem é o maior jogador de futebol de todos os tempos. A resposta foi direta, mas a reflexão que a acompanhou foi o que realmente importou.
Zinho em Nova Jersey e uma escolha sem rodeios
Sem hesitar, o ex-meia declarou Messi como o fenômeno do momento — e reconheceu o peso histórico do que o argentino acaba de alcançar: o recorde de maior artilheiro da história das Copas do Mundo, superando a marca que pertencia ao alemão Miroslav Klose, que havia marcado 16 gols em quatro edições do torneio entre 2002 e 2014.
"O momento é do Messi, e o momento é a Copa do Mundo, o momento é o atual, e a gente tem que comentar disso. O Messi está continuando com a sua história linda, maravilhosa, e bateu o recorde agora de jogador com maior número de gols em Copas do Mundo, merecidamente, joga demais", afirmou Zinho.
Mas Zinho — um homem que viveu o futebol em três décadas diferentes, da base à cabine de comentarista — não parou no elogio. Ele foi além e fez a sua escolha com a clareza de quem já viu muita coisa acontecer dentro de um campo.
"Eu continuo falando que o Pelé é o maior de todos os tempos. Porque em números, em títulos, claro, o Messi está aí atuando, tem muito mais competições hoje em dia, é outro momento. É difícil você comentar obra de arte, né, comparar obra de arte — é uma obra de arte dos anos 1970 para trás, e esta é atual, é um mundo moderno. São duas obras de arte lindíssimas."
A analogia das obras de arte, embora poética, carrega uma precisão analítica que vai além da diplomacia. Zinho não estava fugindo da comparação — estava, na verdade, identificando o problema estrutural dela.
O que os números dizem e o que eles não conseguem dizer
Pelé conquistou três títulos de Copa do Mundo — 1958, 1962 e 1970 —, feito que nenhum outro jogador da história igualou. Marcou 77 gols oficiais pela Seleção Brasileira em 92 jogos, além de um total que o próprio Santos Futebol Clube registra em mais de 1.000 gols ao longo de toda a carreira, incluindo amistosos. Messi, por sua vez, acumula uma Copa do Mundo (Qatar 2022), sete Bolas de Ouro — número que nenhum outro atleta chegou perto de alcançar — e agora lidera a artilharia histórica do torneio com ao menos 19 gols em cinco edições.
A comparação direta entre os dois, contudo, esbarra num dado que Zinho tocou com precisão: o volume de competições oficiais disponíveis hoje é incomparavelmente maior do que na era do Rei. A Copa do Mundo de 1958 tinha apenas 16 seleções; a de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, conta com 48. A Champions League, no formato atual, oferece ao menos seis jogos na fase de grupos antes do mata-mata — algo que não existia quando Pelé dominava o futebol mundial. Isso não diminui Messi; apenas torna a comparação metodologicamente complexa.
Um dado ilustra bem essa assimetria: Messi acumulou mais gols em Copas do Mundo do que toda a produção ofensiva combinada das seleções que foram eliminadas na fase de grupos da edição de 2010 — torneio em que as 16 equipes descartadas na primeira fase marcaram coletivamente 18 tentos. Ele, sozinho, já ultrapassou esse número em cinco participações.
A surpresa de Messi aos 38 anos e o que isso muda no debate
O ponto mais revelador da fala de Zinho não foi a escolha pelo Pelé — previsível, dado o histórico de reverência que a geração de 1994 nutre pelo Rei. O dado mais impactante foi a surpresa do comentarista com o nível físico de Lionel Messi nesta Copa do Mundo de 2026, em comparação com o Qatar 2022.
"Com a idade mais avançada, o que o Messi faz, eu não esperava. De ele estar neste condicionamento físico para esta Copa, se preparou muito bem para isso, acho que ele está jogando melhor que a Copa passada, que ele foi campeão."
Messi — que completou 38 anos em junho de 2026 — defende a camisa da Argentina e do Inter Miami, clube da MLS onde atua desde 2023. A liga norte-americana, frequentemente subestimada em termos de intensidade física, parece ter permitido ao camisa 10 uma gestão de carga que o mantém em condições de alta performance justamente no momento mais importante do ciclo. O contraste com 2022 é notável: no Qatar, Messi chegou ao torneio sob pressão máxima para finalmente conquistar o título que lhe faltava; em 2026, chega como campeão em defesa do troféu, com menos peso psicológico e, segundo Zinho, com mais qualidade técnica em campo.
O debate entre Pelé e Messi, portanto, não tem — e provavelmente nunca terá — uma resposta definitiva aceita por unanimidade. O que Zinho fez neste domingo foi algo mais honesto do que uma sentença: ele separou o julgamento histórico do julgamento do presente. Pelé construiu uma obra em condições adversas, sem a infraestrutura técnica e científica do futebol moderno, em Copas com menos jogos e contra adversários que mal tinham acesso a vídeo dos rivais. Messi opera num ecossistema radicalmente diferente — e ainda assim encontrou formas de superar marcas que pareciam intocáveis.
A Argentina enfrenta sua próxima partida nas oitavas de final da Copa do Mundo 2026 com Messi como artilheiro do torneio e candidato direto ao prêmio de melhor jogador da competição — o que tornaria sua segunda conquista do troféu de melhor do Mundial ainda mais singular na história do futebol.










