O cheiro de grama molhada no CT Carlos Castilho voltou a ter um dono. Fluminense em campo, Luís Zubeldía de volta à beira do gramado depois de uma cirurgia cardiovascular que o tirou dos treinos no início de janeiro — e que, por semanas, deixou o time nas mãos do auxiliar Maxi Cuberas. O retorno do treinador argentino não é detalhe de bastidor: ele reorganiza a hierarquia técnica do clube num momento em que o Tricolor das Laranjeiras precisa, mais do que nunca, de decisões claras sobre quem joga e como joga.

O retorno de Zubeldía e o que mudou no Fluminense sem ele

Zubeldía chegou ao Fluminense no segundo semestre de 2025 e estreou com vitória sobre o Botafogo por 2 a 0, ainda com apenas dois treinos no CT. Na ocasião, Germán Cano abriu o placar e o clube subiu para a oitava colocação, com 34 pontos. Desde então, o treinador construiu uma identidade reconhecível: volantes disciplinados, pressão alta e transições rápidas. A cirurgia cardíaca interrompeu esse processo no auge da pré-temporada, mas os titulares que ficaram no banco no Fla-Flu — Samuel Xavier, Renê, Martinelli e Lucho Acosta — voltaram ao time imediatamente após sua liberação médica para a estreia no Brasileirão contra o Grêmio, em 28 de janeiro.

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O próprio Zubeldía já havia deixado claro, ainda em sua estreia, que tomar decisões difíceis é parte estrutural do trabalho.

"São decisões. E repito, é uma frase muito mais profunda, muito mais sábia do que a frase diz. Então, vamos seguir conhecendo todos, todo o time, e quando o jogo abrir, aproveitar essa oportunidade. Não há outra", disse o treinador em coletiva após o clássico contra o Botafogo.
Essa filosofia, porém, encontra agora um teste mais complexo: o elenco está cheio de variáveis que ele não controla completamente.

A dúvida que não sai do ataque do Fluminense

Quem vai centrar o ataque tricolor — John Kennedy ou Cano?

A pergunta não é retórica: ela define o estilo de jogo. Cano, camisa 14 e artilheiro histórico do clube, passou por artroscopia no joelho direito em janeiro e ainda oscila entre treinos e recuperação. John Kennedy assumiu a titularidade e foi o escolhido no triunfo sobre o Internacional, mas Cano entrou no decorrer daquele jogo e voltou a movimentar a disputa. Na partida contra o Ceará, pela 12ª rodada do Brasileirão, Zubeldía manteve a dúvida até a véspera — e a provável escalação divulgada listava os dois, com Kennedy no time e Cano como opção no banco. Quem não tem cão caça com gato, diz o ditado; no futebol, quem não tem seu centroavante definido caça com dois atacantes disputando a mesma posição e nenhum deles com sequência garantida para engrenar.

Nos testes realizados no CT, Zubeldía também avaliou Keno como titular no lugar de Kevin Serna, cujo rendimento caiu nas últimas rodadas. A queda de produção ofensiva do Fluminense é o pano de fundo dessas experiências: o treinador não está apenas testando nomes, está tentando encontrar uma combinação que gere volume e finalizações com consistência.

Desfalques que pesam mais do que parecem

Facundo Bernal, volante argentino que vinha sendo titular antes de uma lesão no joelho, é o desfalque mais sensível do meio-campo. Sua ausência foi sentida na final do Campeonato Carioca contra o Flamengo, quando Hércules assumiu a posição. Bernal retornou em algumas rodadas, mas a sequência de suspensões e lesões impediu que ele consolidasse uma sequência. Contra o Vitória, pela 15ª rodada do Brasileirão, o volante voltou ao time titular, com Nonato e Acosta completando o meio-campo — mas a dúvida sobre a preservação de Lucho Acosta, que se recuperou de lesão no joelho, manteve Zubeldía cauteloso até a véspera.

Jemmes, zagueiro que foi titular na final do Carioca, está suspenso pelo terceiro cartão amarelo e deve ser substituído por Ignácio ou Millán ao lado de Freytes. A perda do zagueiro titular numa sequência de quatro jogos no Maracanã — contra Vitória, Operário (Copa do Brasil), São Paulo e Bolívar (Libertadores) — é um ajuste que Zubeldía precisa calibrar sem desmontar o bloco defensivo que sustentou o 100% de aproveitamento como mandante desde sua chegada.

O Maracanã como laboratório e o que está em jogo na sequência

Na avaliação do SportNavo, o momento atual é o mais exigente da gestão Zubeldía no Fluminense. O clube ocupa a sétima colocação com 47 pontos, sonha com vaga na Libertadores de 2027 e enfrenta quatro partidas seguidas em casa — sequência que o próprio departamento de análise do clube enxerga como janela para recolocar o time na disputa pelo título do Brasileirão e avançar em competições continentais. Em 2026, são 14 jogos no Maracanã com balanço de 10 vitórias, dois empates e duas derrotas, ambas em períodos de instabilidade.

O próximo compromisso é a Copa do Brasil nesta terça-feira (12), às 21h30, contra o Operário, no Maracanã. Com Bernal, Jemmes e Cano em situação indefinida, Zubeldía vai precisar mostrar que o seu sistema funciona também quando o elenco não está completo — e que a volta dele ao banco não é só simbólica, mas tática.