Confesso: em março, quando Fluminense e Zubeldía ainda ensaiavam uma convivência promissora, eu escrevi que o grupo C da Libertadores era administrável. Que o Tricolor tinha repertório para navegar entre Bolívar e La Guaira sem maiores sustos. Errei. E entendo hoje o porquê: subestimei o quanto um elenco em reconstrução sangra quando a consistência falta em momentos decisivos.

A lanterna que pesa mais do que a tabela sugere

O Fluminense chegou à última semana de competições em maio de 2026 na pior posição possível do Grupo C: lanterna, com apenas dois pontos em quatro rodadas. A diferença entre o time carioca e uma vaga nas oitavas de final não cabe numa simples vitória — exige uma goleada. Zubeldía foi direto ao ponto após o empate em 2 a 2 com o Vitória, no sábado (9), pelo Brasileirão:

A lanterna que pesa mais do que a tabela sugere Zubeldía viu o abismo na Liberta
A lanterna que pesa mais do que a tabela sugere Zubeldía viu o abismo na Liberta
"São duas finais. Contra o Bolívar temos que ganhar por dois gols ou mais para ir com tudo contra o La Guaira."

A frase do técnico argentino condensa uma aritmética cruel: vencer o Bolívar por margem mínima de dois gols no dia 19, no Maracanã, e depois bater o Deportivo La Guaira no dia 27 — além de torcer por tropeços dos rivais diretos. Há quem enxergue nessa combinação de fatores um cenário improvável. Há, também, quem lembre que o futebol brasileiro já produziu noites mais inverossímeis do que essa.

O Fluminense que marca gols mas não fecha jogos Zubeldía viu o abismo na Liberta
O Fluminense que marca gols mas não fecha jogos Zubeldía viu o abismo na Liberta

O Fluminense que marca gols mas não fecha jogos

A leitura dominante sobre o Tricolor em 2026 é a de um time inconsistente, incapaz de transformar domínio em placar. Os números, porém, oferecem uma contra-leitura interessante. Em 30 partidas na temporada, o Fluminense venceu 15, empatou 8 e perdeu 7 — aproveitamento de 57,7%, longe do desastre que a lanterna na Libertadores sugere. O time marcou 41 gols, média superior a 1,3 por jogo, com John Kennedy isolado na artilharia interna com 11 tentos. Kevin Serna aparece em segundo, com 6 gols, seguido por Canobbio e Savarino, ambos com 4.

Quando o Fluminense tem John Kennedy em ritmo, ele transforma pressão em perigo real. Quando o meio-campo de Lucho Acosta e Hércules funciona em sincronia, o time cria volume suficiente para vencer qualquer adversário sul-americano em casa. O problema é que essas duas condições raramente coexistem durante 90 minutos — e contra o Bolívar, a margem para erros é zero.

Copa do Brasil como âncora e a semana que define o mês

Antes das duas finais continentais, o Fluminense tem uma decisão doméstica: nesta terça-feira (12), às 21h30, recebe o Operário-PR no Maracanã, pelo jogo da volta da quinta fase da Copa do Brasil. A ida terminou sem gols, em Ponta Grossa, o que significa que qualquer vitória tricolor garante a classificação às oitavas. Para este duelo, segundo apuração do SportNavo, Zubeldía deve promover entre seis e sete alterações no time titular — com Fábio no gol, Guga, Jemmes, Freytes e Arana na defesa, e Savarino, Canobbio e John Kennedy no ataque.

No futebol, como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — e o Tricolor, sem a segurança de uma classificação garantida na Libertadores, precisa que a Copa do Brasil funcione como porto seguro emocional antes de encarar a tempestade do dia 19. Classificar-se contra o Operário daria ao grupo a confiança que um empate com o Vitória no Brasileirão não pôde oferecer.

A síntese honesta é esta: o Fluminense tem gols, tem estádio, tem torcida e tem um técnico que não foge do diagnóstico. O que falta é a versão mais concentrada de si mesmo — aquela que aparece em flashes e some nos momentos mais necessários. O confronto com o Bolívar, no Maracanã, no dia 19 de maio, é a data-limite para descobrir se esse time tem ou não o que precisa para transformar crise em classificação.