"Era o que o grupo queria."
A frase de Canobbio após a vitória sobre o Deportivo La Guaira é honesta — e, justamente por isso, é preocupante. Quando o objetivo de um grupo é simplesmente classificar, e não dominar a fase de grupos, algo estrutural precisa ser questionado. O Fluminense avançou para as oitavas da Libertadores 2026, mas a campanha que o levou até aqui é um dossiê de inconsistências que nenhum resultado positivo apaga.

O que os números da fase de grupos revelam sobre o Fluminense

A classificação veio com gols de Savarino (pênalti confirmado pelo VAR), Hércules e Canobbio no placar de 3 a 1 — mas dependeu do Independiente Rivadavia derrotar o Bolívar pelo mesmo placar em Santa Cruz de la Sierra. Torcer pelo resultado de terceiros na última rodada não é acidente: é sintoma de uma campanha que nunca tomou as rédeas do próprio destino.

O dado mais revelador da fase de grupos não é o número de gols marcados, mas o seguinte: o Fluminense chegou à sexta rodada com dez partidas consecutivas sofrendo gols. Dez. Para contextualizar com uma métrica avançada: times com xG concedido (gols esperados contra) acima de 1,5 por jogo raramente sustentam campanhas longas em mata-mata continental — e o Tri tricolor se enquadra nesse perfil com folga, dado o volume de chances que adversários como La Guaira, tecnicamente inferiores, criaram contra sua defesa.

Londoño empatou para os venezuelanos com um chapéu em Jemmes. Não foi um golaço de gênio — foi o produto de uma linha defensiva que se desorganiza sob pressão mínima. A sequência de dez jogos cedendo gols não é azar; é padrão.

O que os protagonistas dizem e o que os dados contradizem

Há quem argumente que classificar em primeiro ou segundo lugar não muda o percurso em um mata-mata. O argumento tem apelo superficial, mas ignora um dado central: times que chegam às oitavas com campanhas irregulares, dependendo de resultados externos, carregam um passivo psicológico mensurável. As vaias que ecoaram no Maracanã após o gol de empate de Londoño não foram apenas desconforto da torcida — foram o termômetro de um elenco que, nas palavras do próprio relato da partida, sofreu desmanche psicológico imediato após levar o gol.

Coube a Martinelli — que voltava de mais de um mês de lesão — espalhar tranquilidade com um passe preciso para Hércules recolocar o Fluminense à frente. O camisa 8 dominou o meio-campo, deu ritmo e ainda participou do lance do terceiro gol. Isso não é elogio simples: é um alerta. Quando um jogador que ficou fora por mais de 30 dias volta e imediatamente se torna o mais importante em campo, o elenco tem um ponto único de equilíbrio — e pontos únicos de equilíbrio são vulnerabilidades em competições de eliminatória.

O que os números da fase de grupos revelam sobre o Fluminense 10 jogos seguidos
O que os números da fase de grupos revelam sobre o Fluminense 10 jogos seguidos
"Era o que o grupo queria", repetiu Canobbio — e o atacante uruguaio foi um dos pontos positivos da noite, marcando o terceiro gol e dando consistência ao ataque quando o nervosismo ameaçava tomar conta.

Zubeldía escalou o time com senso de urgência desde o início, buscando resolver o confronto cedo para não dar margem ao azar. A estratégia funcionou no primeiro tempo, mas o gol sofrido mostrou que a execução defensiva ainda não acompanha a intenção tática.

O que o Fluminense precisa corrigir antes das oitavas

A leitura honesta é esta: o Fluminense tem atacantes capazes de decidir jogos — Savarino converteu o pênalti com frieza, Canobbio mostrou mobilidade, Hércules tem qualidade de finalização — mas a defesa funciona como um vazamento constante que obriga o ataque a marcar mais do que deveria para garantir vitórias.

Nas oitavas de final, o nível dos adversários sobe consideravelmente. Times como River Plate, Atlético-MG ou qualquer outro classificado entre os líderes de grupo não vão desperdiçar as mesmas chances que La Guaira desperdiçou. Uma defesa que cedeu gols em dez jogos consecutivos, contra adversários de nível variado, será testada com muito mais intensidade e organização tática.

Três ajustes são inegociáveis antes do mata-mata: solidificar a linha defensiva para reduzir o xG concedido por partida, garantir a recuperação física de Martinelli para que o meio-campo não dependa de um único jogador para ter equilíbrio, e construir uma mentalidade coletiva que não desmorone após o primeiro gol sofrido. O Fluminense conhecerá seu adversário nas oitavas no sorteio da Conmebol, previsto para as próximas semanas — e, independentemente de quem vier, chegar com essa fragilidade defensiva exposta é chegar em desvantagem.