Confesso: eu errei sobre Tiquinho Soares em 2024. Quando ele deixou o Botafogo após conquistar a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro naquele ano histórico, minha leitura foi de que um centroavante de 33 anos caminhava para uma despedida discreta — talvez uma passagem rápida por algum clube de menor expressão antes de pendurar as chuteiras. Hoje, com ele artilhando o Mirassol na elite do futebol nacional, entendo o quanto essa análise foi apressada.

O número que define a temporada

Dezessete gols em 33 jogos. Esse é o dado que organiza tudo o que precisa ser dito sobre a temporada 2026 de Tiquinho Soares no Brasileirão Série A. A uma média próxima de 0,52 gols por partida, o atacante paraibano nascido em Sousa, no dia 17 de janeiro de 1991, não está apenas cumprindo protocolo — ele está sendo decisivo para um clube que disputava a Série B há menos de uma década e agora figura entre os protagonistas do campeonato nacional.

Reparemos no detalhe: além dos 17 gols, Tiquinho ainda distribuiu 4 assistências nesta temporada, o que eleva sua participação direta em gols para 21 — um número que poucos centroavantes brasileiros alcançam em uma campanha completa. Usando a camisa 29, o atacante de 187 cm e 89 kg tornou-se o principal referencial ofensivo do Mirassol em 2026, e a equipe do interior paulista colhe os frutos dessa escolha.

Como ele chegou aqui

A trajetória de Francisco das Chagas Soares dos Santos — nome completo que poucos associam imediatamente ao apelido — é um mapa de persistência e reinvenção. Nascido no sertão paraibano, Tiquinho iniciou sua carreira profissional por clubes menores do Nordeste, incluindo passagem pelo Lucena, onde conquistou o Campeonato Paraibano da Segunda Divisão em 2014. Era o ponto de partida de uma carreira que ainda percorreria Portugal, a Grécia e os palcos mais importantes do futebol sul-americano.

A virada estrutural veio com o Porto. Entre 2017 e 2020, o atacante integrou um dos elencos mais competitivos da Europa, conquistando duas edições da Primeira Liga portuguesa (2017-18 e 2019-20), a Taça de Portugal (2019-20) e a Supertaça Cândido de Oliveira (2018). Não eram títulos simbólicos: o Porto disputava regularmente a UEFA Champions League, e Tiquinho precisou se afirmar num ambiente de alta exigência técnica e física.

Depois de Portugal, veio a Grécia, onde o Olympiacos lhe rendeu mais um título: a Superliga Grega de 2021-22. E então o retorno ao Brasil, pelo Botafogo — onde a carreira atingiu seu ponto mais alto em termos de visibilidade. Em 2023, ele registrou 17 gols e 4 assistências em 33 partidas pela Série A, exatamente o mesmo volume estatístico que apresenta agora pelo Mirassol em 2026. Em 2024, mesmo com participação mais reduzida no campeonato doméstico, foi peça do elenco que conquistou a Libertadores e o Brasileirão. A Copa Intercontinental daquele ano também trouxe 2 gols em 2 jogos — números que confirmam um jogador capaz de aparecer em momentos de alta pressão.

O que o faz diferente dos pares

A imprensa esportiva brasileira tem debatido com frequência a comparação entre Tiquinho e outros centroavantes veteranos da Série A em 2026. Matérias recentes colocaram seu nome ao lado de Jonathan Calleri, com quem somaria 35 gols entre os dois, e também o confrontaram com Vitor Roque, o jovem prodígio que representa uma geração completamente distinta. Essas comparações revelam algo importante: Tiquinho não é tratado como um jogador em declínio tolerado — ele é tratado como concorrente legítimo de nomes em evidência.

O que explica essa persistência? Em parte, o físico. Com 187 cm, Tiquinho é um centroavante de área que usa bem o corpo para proteger a bola e criar espaços — perfil que o futebol brasileiro valoriza em qualquer faixa etária. Em parte, a inteligência posicional construída ao longo de mais de uma década em ligas exigentes. Um jogador que passou pela Champions League, pela Libertadores e pela Europa League não chega aos 35 anos sem ter acumulado um repertório tático difícil de replicar apenas com velocidade ou explosão física.

Veja-se isto: os 17 gols que Tiquinho marca em 2026 pelo Mirassol são o mesmo volume que ele havia registrado em 2023 pelo Botafogo, clube com estrutura e orçamento muito superiores. Isso sugere que a produção não é dependente do contexto institucional — ela vem do jogador.

Os limites a vencer

A situação contratual de Tiquinho adiciona uma camada de incerteza ao cenário. Ele defende o Mirassol por empréstimo do Santos, o que significa que sua permanência na equipe do interior paulista além de 2026 depende de negociações que ainda não foram concluídas publicamente. Para um clube que chegou às oitavas da Copa Libertadores nesta temporada — conforme noticiado em maio de 2026 —, a questão de manter seu principal artilheiro é estratégica, não apenas esportiva.

Há também a questão etária, que seria ingenuidade ignorar. Tiquinho completa 36 anos em janeiro de 2027. Centroavantes de área com esse perfil físico tendem a manter rendimento por mais tempo do que jogadores de velocidade, mas o desgaste acumulado de uma carreira em múltiplos países e competições cobra seu preço de maneira imprevisível. A próxima temporada será, provavelmente, o momento em que essa equação se tornará mais visível.

Para os próximos 12 meses, os cenários mais realistas incluem uma renovação do vínculo com o Mirassol — caso o clube confirme a permanência na Série A e avance na Libertadores —, ou uma saída para outro clube brasileiro que enxergue nele a referência ofensiva que os números de 2026 claramente justificam. O que parece pouco provável, dado o que esta temporada mostrou, é a hipótese de uma despedida silenciosa.

Uma carreira como a de Tiquinho Soares lembra um churrasco de longa cocção: quem passa pela churrasqueira rápido demais acha que já acabou, mas quem conhece o processo sabe que o melhor ainda está chegando à temperatura certa. Aos 35 anos, ele ainda está no ponto.