Diz-se que a África aprendeu a realizar grandes eventos esportivos mesmo sob instabilidade política e sanitária. O histórico da CAN e das eliminatórias africanas para a Copa do Mundo parece confirmar isso. Na prática, no entanto, o número que resume o atual momento é outro: 10 — os países classificados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África (CDC Africa) como de alto risco de contaminação pelo ebola, numa cadeia que parte da República Democrática do Congo e já chegou a Uganda. Esse número não é geográfico apenas. Ele é, também, um mapa de rotas de viagem, fronteiras porosas e delegações esportivas em trânsito.
82 casos confirmados e o mapa que redesenha o risco continental
A Organização Mundial da Saúde elevou, na sexta-feira 23 de maio de 2026, o nível de risco do surto na República Democrática do Congo de "alto" para "muito alto" nos níveis nacional e regional. O diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus foi preciso ao detalhar a dimensão real da epidemia:
"O surto de ebola da República Democrática do Congo está se espalhando rápido. Há quase 750 casos suspeitos e 177 mortes suspeitas."Os 82 casos confirmados e sete mortes oficiais representam apenas a ponta visível de um problema que o próprio sistema de vigilância local não consegue dimensionar com precisão.
Em Uganda, o Ministério da Saúde reportou no sábado 23 de maio três novos casos confirmados — um profissional de saúde, um motorista e uma mulher congolesa que havia visitado a província de Ituri, epicentro do surto na RDC. O total ugandês chegou a cinco casos confirmados, número que levou a OMS a emitir novo alerta.
"Neste momento crítico da resposta ao surto, é vital que as autoridades mantenham alta vigilância para controlar a expansão do vírus", avaliou Tedros. A província de Ituri, especificamente, já era conhecida nos relatórios humanitários como uma das regiões mais negligenciadas do continente em termos de infraestrutura de saúde pública.
O presidente do CDC Africa, Jean Kaseya, foi direto ao listar os dez países em alto risco: Sudão do Sul, Ruanda, Quênia, Zâmbia, República Centro-Africana, Tanzânia, Etiópia, Angola, Congo e Burundi. O critério combina três variáveis — proximidade com áreas afetadas, existência de rotas comerciais ou de viagem ativas e baixo monitoramento de casos suspeitos nas fronteiras. Todos os demais países africanos foram classificados como em risco de registrar casos importados.
Quando o vírus cruza fronteira, o calendário esportivo sente primeiro
Quando uma seleção nacional embarca para uma eliminatória, ela atravessa exatamente as rotas que o CDC Africa identificou como vetores de risco. Ruanda e Quênia, ambas na lista de alto risco, são sedes frequentes de jogos da Confederação Africana de Futebol (CAF) e hospedam rodadas das eliminatórias africanas para a Copa do Mundo 2026. A Tanzânia sediou partidas da CAN nas últimas edições. Angola tem histórico recente como sede de competições continentais de basquete e futebol.
O precedente mais direto vem da própria CAN 2021, quando o torneio foi realizado nos Camarões em meio à pandemia de Covid-19, com bolhas sanitárias improvisadas e testes diários. O ebola, contudo, apresenta uma variável diferente: ao contrário do coronavírus, seu protocolo de contenção exige isolamento físico imediato de casos suspeitos e rastreamento de contato com nível de rigor que poucos aeroportos e estádios africanos têm estrutura para executar. A SportNavo apurou que nenhuma das principais federações continentais — CAF, FIBA Africa ou a Confederação Africana de Atletismo — publicou até agora um protocolo específico para realização de eventos em cenários de surto de ebola.
Quando um jogo é cancelado por razões sanitárias, o impacto vai além do calendário. Seleções perdem pontos de ranking FIFA, atletas perdem janelas de classificação olímpica e federações nacionais perdem receita de transmissão. Para países como Uganda e RDC, que disputam vagas nas eliminatórias africanas para Los Angeles 2028 no atletismo e no futebol, cada rodada cancelada representa uma janela de pontuação irrecuperável dentro do ciclo olímpico.
O que as federações internacionais fizeram em surtos anteriores e o que falta agora
Quando o ebola devastou Guiné, Serra Leoa e Libéria entre 2014 e 2016, a CAF suspendeu a participação dessas três seleções nas eliminatórias da Copa do Mundo 2018 e relocou partidas que seriam disputadas em seus territórios. A FIFA, por sua vez, não aplicou punições por W.O. aos clubes e seleções afetados — uma exceção regulamentar que precisou ser negociada caso a caso. O atual surto, geograficamente mais disperso e com dez países em alto risco simultâneo, tornaria esse processo de negociação exponencialmente mais complexo.
Quando se compara a resposta institucional africana com a de outros continentes em crises sanitárias, a diferença de infraestrutura é evidente. A Europa suspendeu ligas inteiras em março de 2020 com 72 horas de decisão coordenada entre UEFA, FIFA e governos nacionais. A África, com 54 federações filiadas à CAF e sistemas de saúde pública fragmentados, não tem equivalente operacional para uma resposta dessa velocidade. O CDC Africa existe desde 2017, mas seu orçamento anual é inferior ao de agências regionais europeias criadas para funções similares.
A OMS já classificou o risco global do surto atual como "baixo", mas ressalvou que essa avaliação pode mudar dependendo da velocidade de expansão nas próximas semanas. A próxima rodada de avaliação epidemiológica do CDC Africa está agendada para junho de 2026. Até lá, a CAF precisa definir se as partidas das eliminatórias africanas previstas para julho em Ruanda, Quênia e Tanzânia seguirão o calendário original — ou se o continente verá, pela segunda vez em uma década, o esporte parar diante de um vírus que os protocolos ainda não aprenderam a acompanhar.








