27 de junho de 2018. Foi nessa data que o Japão perdeu pela última vez para uma seleção europeia — 3 a 2 para a Bélgica nas oitavas da Copa da Rússia, de virada, com gol nos acréscimos. Desde aquele dia, oito anos de invencibilidade contra o Velho Continente se acumularam como uma parede que a Holanda, a Alemanha, a Espanha e a Inglaterra já tentaram derrubar — e não conseguiram.

Agora é a vez da Suécia. O problema é que ela chega ao AT&T Stadium, em Arlington, nesta quarta-feira às 20h (de Brasília), ainda com a ressaca de uma goleada de 5 a 0 sofrida para os holandeses. Graham Potter sabe da dimensão do tabu que tem pela frente e não escondeu o respeito pelo adversário.

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"Alguém me disse que eles não perdem para uma seleção europeia há oito anos, então não é fácil. Estou muito impressionado com eles, e eles sabem o que querem fazer. Tenho muito respeito por eles e nossos jogadores sabem disso."

O tabu japonês não é sorte — os dados mostram um padrão real

A narrativa popular diz que o Japão é uma equipe que surpreende na Copa e cai nos pênaltis. Isso é uma leitura incompleta. Os 10 jogos sem derrota para europeus incluem vitórias sobre Alemanha (duas vezes), Espanha e Inglaterra — todas seleções top-10 do ranking FIFA. Não são azarões que o Japão bateu.

O que explica esse desempenho consistente é a estrutura defensiva japonesa, que vai muito além da organização tática convencional. Três métricas ajudam a entender:

  • PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva): O Japão registra um dos melhores índices de pressão alta entre seleções asiáticas, forçando erros no campo adversário. Um PPDA baixo, em torno de 8 a 9, indica que a equipe não deixa o rival trocar passes à vontade — ela vai buscar a bola cedo.
  • Defensive Actions: Os japoneses executam um volume alto de ações defensivas nos dois terços iniciais do campo, criando uma armadilha de pressão que desequilibra times europeus acostumados a construir com calma.
  • xG concedido: Mesmo contra Alemanha e Espanha em 2022, o Japão conseguiu manter o xG concedido abaixo de 1.5 nos segundos tempos — o momento em que o bloco baixo japonês se fecha e sufoca o adversário.

O empate de 1 a 1 com a Holanda na estreia desta Copa confirma que o padrão segue vivo. Não foi uma derrota. Não foi sequer uma performance fraca.

A Suécia que a Holanda desmontou não pode aparecer de novo

Cinco gols sofridos em um único jogo é um dado que exige análise honesta. A Suécia de Potter apresentou problemas graves de compactação defensiva contra os holandeses — as linhas ficaram abertas, os espaços entre meio-campo e defesa foram explorados repetidamente, e o PPDA sueco na partida indicou uma pressão praticamente inexistente: a equipe recuou cedo demais e entregou o controle de bola.

Potter não fugiu da autocrítica:

"Temos de ser fortes defensivamente. Melhor do que contra a Holanda. Soa óbvio, mas temos. E vamos atacar de forma intensa contra um time que é muito organizado."

O técnico inglês também prometeu mudanças no time, sem revelar quais. Mas o que os dados sugerem é que a Suécia precisa, antes de qualquer coisa, melhorar dois números específicos:

  • Progressive Passes: Contra a Holanda, a Suécia teve dificuldade em criar linhas de passe progressivas — aqueles passes que avançam o jogo pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Sem isso, o ataque fica estático e previsível.
  • xA (Expected Assists): A criação de chances suecas ficou abaixo de 0.8 xA no jogo anterior, número insuficiente para desestabilizar uma defesa organizada como a japonesa.

Com Viktor Gyokeres como referência ofensiva, a Suécia tem qualidade individual para gerar xG — mas o centroavante precisa de serviço. E esse serviço não chegou contra a Holanda.

O que Potter pode mudar para furar o bloqueio japonês

A desmontagem da narrativa de que "a Suécia só precisa atacar mais" começa aqui: contra o Japão, atacar mais sem estrutura é exatamente o que o técnico Hajime Moriyasu quer que o adversário faça. O Japão vive de transições rápidas — quanto mais a equipe rival sobe, mais espaço sobra para o contra-ataque japonês.

A leitura mais precisa é que a Suécia precisa de equilíbrio entre posse e pressão. Potter deve buscar um meio-termo: manter a bola o suficiente para não expor a defesa, mas com passes progressivos que cheguem aos pés de Gyokeres em posições de finalização com xG real acima de 0.3 por chance.

"Nem tudo está perdido. O clima na equipe está muito bom. Estou muito orgulhoso de como os jogadores lidaram com o resultado da última vez. Decidi dizer que pode haver mudanças", projetou Potter.

As mudanças táticas prometidas pelo treinador provavelmente envolvem reorganizar o posicionamento das linhas defensivas e criar uma estrutura de pressão mais eficiente — reduzindo o PPDA sueco para algo próximo de 10, o que já seria um avanço considerável em relação ao jogo contra a Holanda.

O contexto de classificação também pesa: Holanda e Tunísia jogam simultaneamente no Arrowhead Stadium, em Kansas City. Dependendo desse resultado, uma derrota sueca pode encerrar qualquer chance de avanço no Grupo F. O jogo desta quarta-feira, às 20h (de Brasília), vale gravar — porque ou a Suécia quebra um tabu de 8 anos com uma performance tática renovada, ou o Japão amplia uma das sequências mais impressionantes do futebol internacional recente.