O barulho das arquibancadas engasgou no silêncio de um único homem sentado entre milhares de braços em movimento. Enquanto Martin Ødegaard liderava jogadores, comissão técnica e torcedores na famosa "remada viking" após a virada norueguesa por 3 a 2 sobre o Senegal, Emil Anners Lappen permanecia imóvel, com os braços cruzados, como uma estátua perdida num rio em correnteza. A câmera da emissora norueguesa NRK encontrou Lappen no meio do mar vermelho de camisas e o narrador não resistiu: "Tem alguém que não quer fazer parte da brincadeira."
Lappen não é apenas um excêntrico. Ele é o porta-voz involuntário de uma tensão real que percorre toda a península escandinava desde que a celebração virou símbolo da campanha norueguesa na Copa do Mundo. E, curiosamente, os argumentos dele coincidem ponto a ponto com as críticas que chegam de Estocolmo e Copenhague.
A tese que a Noruega quer vender ao mundo
A narrativa oficial é sedutora: uma seleção que voltou à Copa após 28 anos de ausência, liderada por Erling Haaland e Ødegaard, ressuscita a identidade viking como bandeira coletiva. A remada — que simula remadores num drakkar em alto-mar — foi adotada com uma velocidade impressionante. Fãs tentaram convencer até o rei Harald V a participar da encenação durante as comemorações públicas. Em Belo Horizonte, torcedores brasileiros reproduziram o gesto nas ruas. Times Square virou palco de noruegueses remando em sincronia.
Há uma lógica histórica aqui que conheço bem de quando cobri a Eurocopa 2016 em Lyon: celebrações coletivas sincronizadas criam senso de pertencimento que transcende o resultado. O thunderclap islandês, nascido nas arquibancadas de Reykjavik por volta de 2014 e exportado para a Euro 2016, transformou uma seleção de 330 mil habitantes num fenômeno global. A Islândia chegou às quartas de final daquele torneio e eliminou a Inglaterra — e o gesto ficou para sempre associado àquela campanha épica.
A antítese que a Escandinávia não engole
O problema, como Lappen articula com precisão cirúrgica, é exatamente esse paralelo islandês. Em entrevista ao jornal norueguês Verdens Gang, o torcedor foi direto:
"Eu acho que essa remada foi uma ideia estúpida desde o começo. Nunca gostei disso."
E foi além, desafiando até a precisão histórica da coreografia:
"Os dracares vikings eram movidos, na maior parte do tempo, por velas, e não por remos. Por isso, eu garanto que seguirei firme em minha posição — e não haverá remada no futuro."
Jogadores suecos, que acompanham a Copa de fora — a Suécia não se classificou —, foram ainda mais diretos nas redes sociais, comparando a remada explicitamente ao thunderclap islandês e declarando cansaço com o gesto. A Dinamarca, também ausente do torneio, misturou humor com inveja mal disfarçada: os dinamarqueses reconhecem o sucesso norueguês, mas recusam-se a admirar a celebração como algo original.
Essa tensão tem raízes que vão além do futebol. Suécia, Noruega e Dinamarca compartilham séculos de história comum — e de rivalidade. A dissolução da união entre Suécia e Noruega em 1905 ainda ecoa em piadas e provocações cotidianas. No futebol, a Suécia historicamente dominou a região: foi vice-campeã mundial em 1958, semifinalista em 1994 com Tomas Brolin e Henrik Larsson, e chegou às quartas de 2018 com Zlatan já aposentado da seleção. A Noruega, com Haaland marcando gols em ritmo industrial, inverteu a hierarquia regional — e a remada funciona como símbolo dessa inversão, o que incomoda duplamente os vizinhos.
- Suécia — fora da Copa, jogadores debocham do gesto nas redes sociais
- Dinamarca — também ausente, mistura humor com inveja declarada
- Islândia — criadora do thunderclap original em 2014, vê seu legado sendo reinterpretado
- Emil Anners Lappen — torcedor norueguês que recusa participar e virou personagem da Copa
A síntese que nenhuma remada resolve
Existe uma diferença estrutural entre o thunderclap islandês e a remada norueguesa que os críticos raramente mencionam: o thunderclap nasceu das arquibancadas, dos torcedores para os jogadores. A remada norueguesa foi criada e liderada por Ødegaard — um capitão que joga no Arsenal e tem 10,4 milhões de seguidores no Instagram. É uma celebração de cima para baixo, não de baixo para cima. Isso muda o peso simbólico do gesto.
Lembro de algo parecido acontecendo com o "Poznan" do Manchester City, celebração importada do Lech Poznań polonês que virou marca registrada da torcida do Etihad Stadium por volta de 2011. O gesto sobreviveu porque surgiu organicamente entre os torcedores, não porque um jogador ordenou que todos o fizessem. A remada norueguesa ainda precisa provar que tem essa mesma raiz.
O que a polêmica revela, no fundo, é que a Noruega está vivendo algo inédito para sua geração atual de torcedores: a pressão de ser protagonista numa Copa do Mundo. A seleção enfrenta a França na próxima sexta-feira, dia 26, em Boston, pela última rodada da fase de grupos — e Haaland, que já marcou duas vezes no torneio, sabe que um resultado positivo contra os atuais campeões mundiais daria à remada uma legitimidade que nenhuma crítica escandinava conseguiria apagar.
O barulho das arquibancadas engasgou no silêncio de um único homem sentado entre milhares de braços em movimento — mas agora o mundo inteiro sabe o nome dele.








