A Arena Condá estava em silêncio quando o árbitro apitou o fim do jogo no dia 17 de maio. Três gols sofridos, dois marcados, mais uma derrota — desta vez para o Remo. A Chapecoense encerrou a rodada como havia começado a temporada: na lanterna do Brasileirão Série A 2026, com 9 pontos em 15 partidas e uma defesa que já cedeu 30 gols, a pior do campeonato.
A lanterna que carrega o peso de um histórico sombrio
Nove pontos em 15 rodadas. O número, por si só, já seria preocupante em qualquer clube. Na Chapecoense, ele ganha uma dimensão ainda mais grave quando colocado em perspectiva histórica: trata-se da segunda pior campanha do clube na era dos pontos corridos da Série A, superando apenas o desempenho de 2021, quando o time somou meros quatro pontos no mesmo recorte de 15 jogos, segundo levantamento do ge.
A sequência sem vitórias é o dado mais eloquente desse colapso. O único triunfo na competição aconteceu na estreia, em 28 de janeiro, quando o time bateu o Santos por 4 a 2 na Arena Condá. Desde aquela tarde, são 14 partidas consecutivas sem vencer na Série A — um jejum que atravessa mais de três meses e dois treinadores diferentes.

A fragilidade defensiva é o fio condutor dessa crise. Uma média de dois gols sofridos por partida coloca o sistema defensivo catarinense em patamar isolado na lanterna da tabela de defesas do torneio. Para efeito de comparação, times que brigam pelo rebaixamento costumam encerrar a fase inicial com médias entre 1,2 e 1,5 gols cedidos por jogo. A Chapecoense está 33% acima desse limiar crítico.
Fábio Matias e os seis jogos que ainda não trouxeram resposta
Um ponto em seis jogos. Esse é o saldo de Fábio Matias à frente da Chapecoense no Brasileirão desde que assumiu o cargo em abril de 2026, em substituição a Gilmar Dal Pozzo. O único ponto veio no empate por 1 a 1 contra o Mirassol, fora de casa, no dia 10 de maio. Nos outros cinco confrontos sob seu comando no torneio nacional, o time perdeu para Athletico-PR, Botafogo, Fluminense, Red Bull Bragantino e Remo.
A troca de treinador, recurso clássico utilizado por clubes em crise para tentar romper um ciclo negativo, ainda não produziu o efeito esperado. Segundo análise do desempenho tático nas seis rodadas sob Matias, a equipe não apresentou melhora mensurável nos índices defensivos — os 30 gols sofridos em 15 partidas incluem resultados tanto da gestão Dal Pozzo quanto da atual.
Nas palavras do próprio Fábio Matias após a derrota para o Remo, o treinador reconheceu que o grupo precisa de ajustes urgentes no setor de marcação, mas manteve o discurso de que o trabalho está em construção.
"A equipe precisa ser mais compacta defensivamente. Estamos trabalhando nisso, mas os resultados ainda não apareceram da forma que queremos no campeonato."
Há, contudo, um contraponto relevante nesse cenário adverso. Na Copa do Brasil, a Chapecoense eliminou o Botafogo e avançou para as oitavas de final — desempenho que demonstra capacidade técnica do elenco em jogos de mata-mata e que contrasta diretamente com a inconsistência exibida no torneio de pontos corridos.
O que os números revelam sobre o colapso estrutural do clube
Trinta gols sofridos em quinze jogos não são produto de azar ou de um ou dois erros individuais pontuais. Esse volume de gols cedidos aponta para uma fragilidade sistêmica que envolve organização tática, qualidade dos atletas recrutados para a defesa e, possivelmente, a falta de uma identidade de jogo consolidada ao longo da pré-temporada.
A Chapecoense chegou ao Brasileirão 2026 após uma campanha de acesso via Série B em 2025, o que já indicava um elenco em fase de reconstrução. Times recém-promovidos historicamente enfrentam dificuldades na adaptação ao ritmo da elite, mas a média de dois gols sofridos por partida extrapola o padrão de dificuldade esperado para essa transição. Em 2023, quando o Santos foi rebaixado — o caso mais recente de grande clube descendo da Série A —, o time paulista terminou a competição com 57 gols sofridos em 38 rodadas, uma média de 1,5 por jogo. A Chapecoense já está acima disso com menos da metade da temporada disputada.
O calendário que se aproxima oferece poucas brechas para recuperação. Com 15 rodadas disputadas e 23 ainda pela frente, o clube precisaria de pelo menos 28 pontos adicionais para alcançar a faixa de segurança estimada entre 45 e 48 pontos — o que exigiria uma taxa de aproveitamento próxima de 40% nas rodadas restantes, mais do que o triplo do que foi conquistado até aqui (20%).
O próximo compromisso da Chapecoense na Série A está programado para o final de maio, quando o time volta a campo buscando encerrar um jejum que já dura mais de três meses. É o mesmo cenário que o clube viveu em 2021, quando saiu da Série A rebaixado — só que agora a aposta é diferente: o elenco tem Copa do Brasil para sustentar a moral e Fábio Matias ainda tem tempo, embora escasso, para provar que a virada é possível antes que a matemática torne o buraco intransponível.










