A última vez que o Fluminense encerrou uma fase de grupos da Libertadores com a defesa tão pressionada foi em 2023, quando o time de Fernando Diniz chegou ao mata-mata com sequências de resultados irregulares e acabou se reinventando taticamente para conquistar o título continental. Três anos depois, o cenário tem semelhanças inquietantes — e diferenças que, desta vez, não favorecem o Tricolor.
Os números de 2026 são objetivos: em 34 partidas disputadas na temporada, o Fluminense sofreu 36 gols, o que resulta em uma média de 1,05 gol por jogo. Para efeito de comparação, equipes que avançam às fases eliminatórias da Libertadores com consistência costumam manter essa marca abaixo de 0,80. O ataque, com 47 gols marcados (média de 1,42 por jogo), até sustenta a campanha — 18 vitórias, 8 empates e 8 derrotas —, mas a fragilidade defensiva cria uma dependência perigosa de que o setor ofensivo nunca apague as luzes.
A derrota para o Mirassol como radiografia de um problema mais fundo
No último sábado, diante do Mirassol, o Fluminense entregou uma atuação que expôs com clareza o que os números já vinham dizendo há semanas. O clube do interior paulista venceu por 1 a 0, e o dado mais alarmante não foi o placar: foi a única finalização no gol que o Tricolor conseguiu produzir em 90 minutos. Uma finalização. Quem acompanhou o jogo de perto sabe que aquele time que saiu de campo não parecia um candidato a título continental — parecia um grupo exausto, sem repertório e sem convicção para criar situações de perigo de forma consistente.
Sob o comando de Luis Zubeldía, o Fluminense tem apresentado um futebol que oscila entre momentos de organização coletiva e colapsos defensivos pontuais que custam pontos decisivos. A derrota para o Mirassol foi a oitava da temporada — e veio em um momento em que o clube precisava de ritmo e confiança antes do confronto mais importante das próximas semanas.
O que os números de 2026 revelam que a tabela ainda esconde
Quando se olha para a distribuição dos resultados, o Fluminense ocupa o 3º lugar no Brasileirão e também aparece na 3ª posição no grupo da Libertadores — posições que, na superfície, parecem razoáveis. O Carioca terminou com o vice-campeonato. Na Copa do Brasil, o clube ainda está vivo na quinta fase. Mas há uma tensão estrutural por trás desses números: um time que marca 47 gols e sofre 36 em 34 jogos está, essencialmente, vencendo partidas na base da produção ofensiva, sem a solidez defensiva que separa candidatos a título de times que vivem de campanhas irregulares.
Em 2023, a virada do Fluminense campeão da Libertadores teve como pilar exatamente a capacidade de se fechar quando necessário, especialmente nos jogos fora de casa. Aquele time de Diniz sabia quando acelerar e quando recuar. O time de Zubeldía em 2026, pelo que os dados mostram até aqui, ainda não encontrou esse equilíbrio — e o calendário que vem pela frente exige que ele apareça rápido.

A situação atual na fase de grupos
Na rodada 6 da fase de grupos da Libertadores, o Fluminense recebe o La Guaira-VEN no Maracanã na próxima quarta-feira, dia 27 de maio, às 21h30. Até a publicação desta matéria, 28 mil ingressos já haviam sido vendidos para o duelo — sinal de que a torcida mantém a fé, mesmo diante das oscilações. A pressão, portanto, é dupla: institucional e emocional.
A janela que se fecha antes da Copa do Mundo
Após o confronto contra o La Guaira, o Fluminense tem apenas mais um compromisso antes da pausa para a Copa do Mundo de 2026: o duelo contra o Cruzeiro, no Mineirão, no dia 31 de maio, às 20h30, pela 18ª rodada do Brasileirão. Depois disso, o clube só voltará a jogar no Maracanã em julho — o que transforma a partida desta quarta em uma espécie de despedida temporária da torcida, com tudo que isso carrega de simbólico e de pressão.
Segundo análises do departamento de dados do portal, times que entram na pausa de Copa do Mundo com média defensiva acima de 1,0 gol sofrido por jogo tendem a retomar a temporada sem ter resolvido os problemas estruturais — porque a pausa interrompe o ritmo, mas não conserta a organização tática. O Fluminense precisaria usar as próximas semanas para ajustar linhas, posicionamento e comunicação defensiva, não apenas para descansar.
Nas palavras de analistas que acompanham o clube de perto, Zubeldía ainda busca o ponto de equilíbrio entre a intensidade ofensiva que o técnico argentino prefere e a compactação defensiva que a Libertadores exige. A equação não está resolvida — e o La Guaira, apesar de ser considerado o adversário mais acessível do grupo, já mostrou nesta edição do torneio que não viaja ao Brasil apenas para compor o cenário.
O que o Fluminense precisa fazer para não repetir o passado recente
A diferença entre 2023 e 2026 está, em parte, no contexto: naquele ano, o Fluminense tinha uma identidade tática clara e um grupo com liderança estabelecida. Agora, o clube está em processo de consolidação sob um novo treinador, com um elenco que ainda está aprendendo a linguagem de Zubeldía. Isso não é uma sentença — é um diagnóstico. E diagnósticos servem para orientar tratamento.
Para avançar na Libertadores e chegar à pausa com moral, o Fluminense precisa, na quarta-feira, de uma vitória que combine eficiência ofensiva com a solidez defensiva que tem faltado. Com 36 gols sofridos em 34 jogos, cada partida sem tomar gol passa a ter valor duplo — estatístico e psicológico.
O Maracanã estará com 28 mil torcedores nas arquibancadas na quarta-feira à noite, e o Fluminense sabe que não voltará a jogar ali antes de julho. É nesse cenário — o estádio cheio, a Libertadores na balança, a pausa à espreita — que a defesa do Tricolor precisará, finalmente, aparecer.










