É um termômetro partido ao meio.
A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, 30 de julho de 2026, mostra que 38% dos brasileiros aprovam a realização da Copa do Mundo com 48 seleções — e 37% reprovam. Um empate técnico que, lido com atenção, revela menos sobre o torneio em si e mais sobre a relação do brasileiro com o futebol que ele imaginava consumir. Não há tragédia: há contabilidade. E a conta, por ora, não fecha.
O que os números do Datafolha revelam sobre o torcedor brasileiro
A margem de um ponto percentual entre aprovadores e reprovadores é estatisticamente irrelevante — e simbolicamente enorme. O levantamento foi realizado após o encerramento da Copa de 2026, disputada entre Estados Unidos, México e Canadá, o que significa que os entrevistados já haviam consumido o produto completo: 104 partidas, grupos de três times, fase de 32 equipes nas oitavas e uma logística tripartida entre três países. A opinião, portanto, não é especulativa. É baseada em experiência direta.
Para um torneio que a FIFA vendeu como a maior Copa da história, a aprovação de apenas 38% do público brasileiro — historicamente o mais engajado do mundo — é um número que merece interpretação criteriosa. Dividido.
O formato anterior, com 32 seleções e 64 partidas, vigorou de 1998 a 2022 e foi amplamente aceito como o ponto de equilíbrio entre qualidade e quantidade. A ampliação para 48 equipes, aprovada pela FIFA em 2017, prometia incluir mais nações, especialmente africanas e asiáticas, e democratizar o acesso à competição. Na prática, criou também mais partidas de nível técnico heterogêneo — e esse contraste ficou evidente para o torcedor.
Por que a divisão de opiniões reflete mais do que gosto pessoal
A fragmentação dos 25% restantes — que não aprovam nem reprovam — sugere que uma parcela considerável do público ainda está processando o formato. Segundo análises do próprio instituto, esse grupo tende a ser mais jovem e menos fidelizado ao futebol como produto televisivo linear, o que indica que a Copa com 48 seleções pode ter gerado saturação antes mesmo de conquistar esse segmento.
A questão logística também pesou. Com jogos distribuídos em cidades de três países diferentes, o acompanhamento das partidas exigiu adaptação dos fãos ao fuso horário variável e à dispersão geográfica das sedes. Um brasileiro que quisesse ver todos os jogos do grupo da Seleção Brasileira teve que lidar com horários que variaram entre tarde e madrugada, dependendo da cidade-sede escolhida pela FIFA para cada rodada.
"A Copa ficou grande demais para caber numa tarde de domingo", resumiu um dos entrevistados citados pelo levantamento do Datafolha, sintetizando o incômodo de parte do público com a densidade do calendário.
Há ainda o componente emocional. A eliminação do Brasil nas oitavas de final para a Noruega, por 2 a 1, contaminou inevitavelmente a percepção do formato. Torcedores que assistiram ao time caindo precocemente num torneio com mais vagas e mais jogos tendem a avaliar o modelo com mais ceticismo — mesmo que a relação de causalidade seja questionável.

O que a pesquisa indica para as próximas edições da Copa
A FIFA já confirmou que o formato de 48 seleções seguirá para a Copa de 2030, que terá sede em múltiplos continentes, incluindo jogos comemorativoss na América do Sul. O empate técnico no Datafolha não representa pressão suficiente para uma revisão estrutural — mas sinaliza que a entidade terá que trabalhar a narrativa do torneio com mais cuidado junto ao público brasileiro.
O modelo das 104 partidas também gerou debate entre analistas esportivos sobre a qualidade média das partidas na fase de grupos. Com equipes de nível técnico muito distinto dividindo o mesmo grupo, jogos com placar elástico — como os 6 a 0 registrados em ao menos três confrontos da primeira fase — tornaram-se mais frequentes, o que parte do público lê como entretenimento e outra parte como desvalorização do produto.
"O problema não é ter 48 seleções. O problema é como você organiza 48 seleções de forma que cada jogo importe", avaliou um especialista em marketing esportivo ouvido pelo Datafolha na margem da pesquisa.
O dado mais relevante para as próximas edições pode ser justamente o 25% que ficou no meio-termo. Esse grupo — nem aprovador nem reprovador — representa o eleitorado volátil do futebol global: ainda pode ser conquistado por uma campanha brasileira mais longa, por jogos de maior qualidade técnica na fase eliminatória ou por uma logística que reduza a dispersão de horários. A Copa de 2030 terá a oportunidade de converter esse contingente. Se não o fizer, o empate técnico de hoje pode virar reprovação majoritária.













