— Você viu que a Globo vai transmitir a Copa Feminina inteira?
— Inteira como? TV aberta também?
— Exato. E ainda vão fazer novela sobre futebol feminino. Tá diferente dessa vez.
Esse diálogo, repetido em bares e grupos de mensagem desde a manhã desta quinta-feira, 30 de julho de 2026, resume bem o que o lançamento do pacote comercial da Globo para a Copa do Mundo Feminina de 2027 representa: uma inflexão histórica na relação da televisão brasileira com o futebol das mulheres. A emissora apresentou ao mercado publicitário, nesta data, o plano mais ambicioso já desenvolvido por um canal brasileiro para a modalidade — sem teto para o número de patrocinadores e com cobertura multiplataforma que inclui TV aberta, SporTV e GE TV.
O pacote que não tem limite e o que isso significa para o mercado
A estratégia comercial da Globo rompe com a lógica tradicional de exclusividade por cotas que sempre moldou os grandes eventos esportivos no Brasil. Ao não estabelecer limite para o número de patrocinadores, a emissora abre espaço para um volume inédito de marcas associadas ao torneio — o que, segundo fontes ouvidas pela Coluna F5 do jornal Folha de S.Paulo, já fez deste o pacote mais valioso da história das transmissões de futebol feminino no país. Os valores exatos não foram divulgados oficialmente, mas o piso de entrada para parceiros prioritários respeita a hierarquia dos patrocinadores oficiais da Fifa, que têm preferência garantida no documento enviado ao mercado.
A decisão de transmitir ao vivo o sorteio dos grupos, previsto para dezembro de 2026, é o primeiro teste real desse apetite comercial. Será a janela inaugural para que marcas apareçam em TV aberta antes mesmo do pontapé inicial do torneio — um ativo que, em edições anteriores da Copa Feminina transmitidas no Brasil, simplesmente não existia com esse alcance. Nas Copas de 2019 (França) e 2023 (Austrália e Nova Zelândia), a cobertura brasileira foi fragmentada, sem a centralidade que a Globo agora promete entregar.
Sessenta e dois por cento de interesse e o que os dados de 1999 ensinam
Pesquisa da área de inteligência do Grupo Globo, apresentada junto ao plano comercial, aponta que 62% dos brasileiros declaram interesse pelo futebol feminino e 60% pretendem acompanhar a Copa do Mundo de 2027. Para dimensionar o salto, basta lembrar que, quando os Estados Unidos venceram a Copa Feminina de 1999 — considerado o marco simbólico da modalidade no mundo —, uma pesquisa Gallup identificou que 40 milhões de americanos assistiram à final contra a China, número que chocou o mercado publicitário norte-americano da época. No Brasil de 2026, com a sede do torneio em casa, o potencial de audiência é estruturalmente diferente de qualquer cenário anterior.
Os 64 jogos prometidos nas plataformas da emissora representam, por si só, um volume sem precedente. A Copa Feminina de 2023, disputada na Austrália e Nova Zelândia, teve 64 partidas — e a cobertura brasileira, apesar do fuso horário desfavorável, registrou picos de audiência históricos para a modalidade, sobretudo nas partidas da Seleção. Com o torneio em território nacional, o fuso deixa de ser obstáculo e os horários nobres ficam disponíveis para as fases finais.
A novela, os filmes e a aposta transmídia que vai além do campo
O diferencial mais revelador do plano comercial talvez não esteja no esporte, mas na dramaturgia. "Dias de Glória", novela das seis com estreia programada para junho de 2027 — exatamente no período de aquecimento do torneio —, narra a história fictícia de uma mulher que tenta jogar futebol nos anos 1940, época em que a prática era proibida para mulheres pelo Conselho Nacional de Desportos, restrição que vigorou no Brasil de 1941 a 1979. A escolha do período histórico não é casual: é uma janela narrativa que conecta a proibição do passado à celebração do presente, criando um arco emocional que a publicidade pode explorar durante meses.
A produção de séries, filmes e programas especiais temáticos completa o que a Globo chama internamente de ecossistema transmídia. Trata-se de transformar o Mundial em uma âncora de conteúdo que atravessa gêneros — do jornalismo esportivo ao entretenimento de horário nobre — durante todo o primeiro semestre de 2027. É o mesmo modelo que a emissora aplicou, com êxito, na Copa do Mundo Masculina de 2014, quando a programação inteira girou em torno do torneio por semanas antes do início.
CazéTV na equação e o novo mapa das transmissões femininas no Brasil
A presença confirmada da CazéTV nas transmissões do torneio adiciona uma camada que vai além da disputa por audiência. O canal de Casimiro Miguel, que revolucionou a cobertura da Copa Masculina de 2022 no Catar ao atrair 15 milhões de espectadores simultâneos em determinados momentos, representa o acesso a uma geração de público que consome esporte prioritariamente em plataformas de streaming e redes sociais. A Globo, ao compartilhar o torneio com a CazéTV — como ocorreu com a Copa do Mundo Masculina de 2026 —, reconhece que o futebol feminino precisa de múltiplas portas de entrada para maximizar alcance.
"Sessenta e dois por cento dos brasileiros afirmam ter interesse pelo futebol feminino", apontou a pesquisa interna do Grupo Globo apresentada ao mercado publicitário nesta quinta-feira — dado que fundamenta toda a arquitetura comercial do projeto.
A distribuição final entre TV aberta e plataformas pagas ainda não foi definida, pois depende do planejamento de grade que será concluído ao longo dos próximos meses. A Globo ainda não confirmou quantas partidas irão para o sinal aberto — apenas garantiu que todas as 64 estarão disponíveis no conjunto de suas plataformas. Essa indefinição é, ela mesma, um indicativo de que as negociações com patrocinadores e anunciantes vão moldar a grade tanto quanto a programação editorial.
O futebol feminino brasileiro já viveu um momento parecido com este — em escala bem menor — quando a Seleção chegou à final dos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004 e a Globo registrou audiências que ninguém tinha projetado para o esporte. Só que agora a aposta é diferente: há um torneio inteiro para ser vendido, um país inteiro como palco e um mercado publicitário que, pela primeira vez, está sendo abordado com um pacote à altura do evento.













