O Brasil entra em campo hoje como favorito contra uma equipe que não perde para favoritos. Esse paradoxo define a estreia da Seleção na Copa do Mundo de 2026, às 19h no MetLife Stadium, em East Rutherford — e é exatamente o que Carlo Ancelotti precisa resolver em 90 minutos.
Marrocos não é mais surpresa do futebol mundial. É estrutura. Desde a semifinal de 2022, a seleção africana construiu uma identidade tática reconhecível: bloco baixo, saída rápida em transição, e jogadores de alto nível espalhados pelas melhores ligas europeias. O Brasil perdeu para eles em 2023, por 2 a 1. O último triunfo brasileiro sobre Marrocos numa Copa foi em 1998 — com gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto em Nantes.
Como furar a parede defensiva dos Leões do Atlas
O principal desafio tático de Ancelotti é contra um bloco que opera com PPDA (passes permitidos por ação defensiva) extremamente baixo — em termos simples, Marrocos pressiona muito cedo e concede pouquíssimo espaço para construção adversária. Na Copa de 2022, a seleção africana registrou um dos menores xG concedidos por jogo do torneio, o que reflete a capacidade de sufocar ataques antes que virem finalizações de qualidade.
O esquema 4-2-4 de Ancelotti, com Casemiro e Bruno Guimarães como dupla de volantes, depende de progressive passes — passes que avançam mais de 10 metros em direção ao gol adversário — para romper esse bloco. O problema: Marrocos fecha bem as linhas de passe centrais, forçando o Brasil a circular pela lateral antes de encontrar profundidade.
Vinicius Jr contra Hakimi — o duelo dentro do duelo
O lateral do PSG, Achraf Hakimi, foi direto ao ponto na véspera do jogo:
"Todos conhecem a seleção do Brasil, conhecem a qualidade do Vinicius Jr. Já joguei com ele muitas vezes, é um grande jogador. Para defender o lado do Vinicius e para defender os outros jogadores do Brasil, que são de alto nível, vamos ter que trabalhar juntos", disse Hakimi, completando: "Acredito que treinamos e nos preparamos para esse momento. Me sinto preparado e confiante para fazer uma grande partida."
Hakimi não vai enfrentar Vinicius sozinho — e é aí que mora o segundo desafio de Ancelotti. O xA (expected assists) de Vini Jr no Real Madrid na temporada 2025/2026 coloca o brasileiro entre os três maiores criadores de chances do mundo. Mas o contexto de Copa é diferente: blocos organizados, pressão reduzida no nome e gestão coletiva do adversário. Vini reconheceu a dificuldade: "Marrocos pode surpreender na Copa, assim como fizeram na última. Tem o Brahim, tem o Hakimi, que ganhou mais uma Champions. Eles vêm crescendo muito. Será um grande jogo."
O meio-campo entre experiência e mobilidade
Ancelotti confirmou Casemiro e Bruno Guimarães como dupla de contenção, com Lucas Paquetá mais à frente. O terceiro desafio é de equilíbrio: Casemiro, aos 34 anos, é referência em defensive actions — interceptações, desarmes e pressão sem bola — mas sua mobilidade para cobrir o espaço deixado por Bruno Guimarães quando o camisa 5 do Newcastle se projeta é uma variável real. Se Marrocos explorar o contra-ataque com velocidade pela direita, esse espaço pode custar caro.

A métrica que importa aqui é o número de defensive actions por 90 minutos da dupla combinada. Na seleção, essa parceria precisa gerar ao menos 18 ações defensivas somadas para manter o Brasil protegido quando o bloco marroquino transitar.
Bolas paradas e a gestão do xG em situações especiais
O quarto desafio é específico: Marrocos é eficiente em bolas paradas ofensivas. Na Copa de 2022, parcela significativa dos gols africanos saiu de escanteios e faltas laterais. A dupla de zaga Marquinhos e Gabriel Magalhães — que se enfrentaram na final da Champions League desta temporada — tem qualidade, mas o quinto desafio começa aqui: cada bola parada concedida representa xG real para o adversário. A disciplina do Brasil para não cometer faltas desnecessárias próximas à grande área será tão importante quanto a criatividade no ataque.
O quinto nó de Ancelotti é o mais subjetivo: gerenciar a pressão de 24 anos sem título mundial. Segundo informações apuradas pelo SportNavo, o técnico italiano optou por um esquema mais cauteloso na saída de bola — linha defensiva que não avança muito — justamente para não abrir espaço para a velocidade marroquina em transição. A escolha revela consciência do risco, mas também limita a amplitude ofensiva que o Brasil precisará para criar xG consistente contra um bloco fechado.
Se o Brasil vencer hoje, enfrenta ainda Haiti e Escócia na fase de grupos — adversários teoricamente mais acessíveis para Ancelotti calibrar o time antes do mata-mata. A derrota, porém, complicaria a liderança do grupo C já na segunda rodada.








