Quatro vírgula sete por cento. Esse número, frio e preciso, é o que a Universidade de Innsbruck atribui ao Brasil como probabilidade de conquistar o título da Copa do Mundo de 2026. Para quem cresceu vendo o escrete canarinho erguer cinco taças e ainda carrega na memória a dor de 2014, a cifra parece uma ofensa. Para quem entende de estatística, ela conta uma história mais complexa — e mais honesta.
O que os algoritmos de Innsbruck enxergam no Brasil
O professor Achim Zeileis, da Universidade de Innsbruck, coordena um dos modelos preditivos mais sofisticados aplicados ao futebol. Seu sistema combina modelos estatísticos com dados do mercado de apostas e do mercado de transferências, gerando o que ele descreve como "dados viciados" — pares de probabilidades distintas para cada confronto possível, em vez de chances iguais para todos. A simulação foi rodada 100.000 vezes, cobrindo cada partida do torneio, incluindo prorrogações e pênaltis.
Os resultados posicionam a Espanha como favorita máxima, com 14,5% de probabilidade de título. Inglaterra e França aparecem empatadas em segundo lugar, com 12,4% cada. A Alemanha vem logo atrás, com 11,2%. Portugal e Argentina somam 8,9% e 8,2%, respectivamente. O Brasil, com seus 4,7%, fica abaixo desse primeiro pelotão — mas ainda dentro do grupo de seleções com chances reais, num torneio que pela primeira vez reúne 48 nações. Se todas fossem matematicamente iguais, cada uma teria 2,08% de chance. O Brasil tem mais que o dobro disso.
Outro modelo, desenvolvido pelo grupo Previsão Esportiva — pesquisadores das áreas de Matemática e Computação de universidades brasileiras —, é ainda mais generoso com o escrete: atribui 9,14% de probabilidade ao título, o que coloca o Brasil entre os cinco maiores favoritos do planeta. Ricardo Rocha, professor de Estatística e Inteligência Artificial da UFBA e coordenador do grupo, explica a lógica: "Se todas as seleções fossem iguais, a gente dividiria os 100% de probabilidade entre as 48 nações, o que daria uma média de 2% de chance para cada uma. Mas, na realidade, essa conta envolve muitos outros fatores."
Por que os modelos não conseguem prever tudo
A divergência entre os dois modelos — 4,7% versus 9,14% — já diz muito sobre os limites da matemática aplicada ao futebol. Paulo Henrique Trentin, professor do Departamento de Matemática da FEI, é categórico ao moderar expectativas geradas por qualquer simulação.

"São modelos bastante assertivos do ponto de vista matemático, mas questionáveis", resumiu Trentin, lembrando que as previsões não conseguem mensurar os fatores psicológicos que podem desestabilizar ou estimular os jogadores durante um jogo.
Trentin cita dois exemplos históricos que qualquer modelo teria errado feio: a Argentina de 1978, campeã em casa num torneio cercado de pressão política, e a Alemanha de 1954, que venceu a Hungria na final apesar de ter perdido para os magiares por 8 a 3 na fase de grupos. Modelos alimentados com dados daquelas campanhas dificilmente teriam previsto esses desfechos. O futebol, ao contrário de outras modalidades, tem uma variância altíssima — um único gol num único jogo pode encerrar a trajetória do favorito.
A Copa de 2022 é o exemplo mais recente. A Argentina de Lionel Messi chegou ao Qatar com probabilidades medianas nos modelos pré-torneio, perdeu para a Arábia Saudita na fase de grupos por 2 a 1 e terminou campeã do mundo. Nenhum algoritmo captura a intensidade emocional de um vestiário, a influência de um discurso de técnico antes de uma prorrogação ou o impacto de uma lesão no aquecimento.
O Brasil de 2026 na perspectiva histórica dos percentuais
Quem acompanha Copas do Mundo há mais de duas décadas sabe que o Brasil raramente entra num torneio como favorito absoluto — e quase sempre carrega o peso da expectativa nacional de qualquer forma. Em 1994, quando Romário e Bebeto formaram a dupla mais eficiente da competição, o escrete não era apontado como o grande favorito pelos analistas europeus. Venceu os Estados Unidos com 15 gols marcados e apenas 3 sofridos na fase de grupos, e levantou a taça nos pênaltis contra a Itália, em Pasadena, depois de um 0 a 0 no tempo normal.
Em 2002, Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo construíram a campanha mais dominante da história recente: sete vitórias em sete jogos, 18 gols marcados, 4 sofridos. A seleção daquele ano, porém, chegou ao torneio com dúvidas sobre o estado físico de Ronaldo — que havia sofrido convulsões às vésperas da final de 1998 — e com um técnico, Luiz Felipe Scolari, que assumira o cargo há menos de um ano. Nenhum modelo teria dado ao Brasil de 2002 as maiores probabilidades antes do torneio começar.
A estreia desta edição acontece neste sábado, dia 13 de junho, contra Marrocos. O adversário não é trivial: os africanos chegaram às semifinais do Mundial do Qatar em 2022, eliminando Espanha e Portugal no caminho, num feito inédito para o continente africano. Antes do apito inicial no MetLife Stadium, os modelos já calculam as probabilidades do confronto. Mas, como Trentin e a história ensinam, o jogo começa quando a bola rola — e os 4,7% de Innsbruck já foram suficientes para campeões antes.








