O número chegou como um diagnóstico que ninguém pediu, mas todos esperavam. Divulgada na sexta-feira, 5 de junho, a pesquisa Politbarometer da emissora pública alemã ZDF revelou que apenas 15% dos cidadãos alemães acreditam que sua seleção vai vencer a Copa do Mundo de 2026. Do outro lado da balança, 72% não têm fé no time comandado por Julian Nagelsmann. É a Alemanha — quatro vezes campeã mundial — olhando para o próprio espelho e não se reconhecendo.
Como o tetracampeão virou réu no tribunal da opinião pública
Quem viveu os anos 1970 sabe o que significa a Nationalmannschaft como força geopolítica do futebol. Em 1974, na própria Alemanha Ocidental, Gerd Müller marcou o gol do título contra a Holanda de Cruyff. Em 1990, no Olímpico de Roma, Lothar Matthäus levantou a taça depois de uma campanha que tinha ares de inevitabilidade. Aquele era um time que não perdia Copa — era um time que as organizava, as definia, as protagonizava. O que a pesquisa do instituto Wahlen, realizada entre os dias 1 e 3 de junho de 2026 com 1.274 entrevistados, registra é o colapso daquela percepção.
A queda começou na Rússia, em 2018. A Alemanha chegou como campeã em exercício — havia conquistado o título no Brasil em 2014, goleando o anfitrião por 7 a 1 nas semifinais e batendo a Argentina por 1 a 0 na final, com gol de Mario Götze na prorrogação. Quatro anos depois, foi eliminada na fase de grupos, com derrota histórica de 2 a 0 para a Coreia do Sul na última rodada. Em 2022, no Catar, a história se repetiu: fora nas fases de grupos, desta vez com empate a dois gols contra a Espanha insuficiente para avançar. Dois torneios. Dois vexames. A memória coletiva não esquece com facilidade.
"A Alemanha não perdeu apenas partidas — perdeu a identidade que a fazia invencível nos momentos decisivos", escreveu o Kicker, o mais tradicional semanário esportivo alemão, em editorial publicado após a eliminação no Catar.
O pessimismo da torcida tem gradações reveladoras. Conforme levantado pelo SportNavo a partir dos dados da pesquisa, 33% dos alemães esperam que a seleção chegue até as quartas de final — o que seria, convenhamos, um resultado modesto para um time com quatro títulos mundiais. Outros 15% acreditam em uma eliminação nas oitavas, e apenas 2% apostam em uma derrota na final, marcada para 19 de julho. Três por cento, pessimistas máximos, preveem nova queda ainda na fase de grupos.
O peso de Nagelsmann sobre um vestiário que ainda cicatriza
Julian Nagelsmann assumiu a seleção alemã em setembro de 2023, após a demissão de Hansi Flick, que pagou o preço pelos maus resultados. O treinador, nascido em Landsberg am Lech em 1987, trouxe ao cargo um currículo sólido — campeão alemão pelo Bayern de Munique na temporada 2021/2022 — e uma proposta de jogo mais vertical e agressiva. Na Euro 2024, disputada na própria Alemanha, o time chegou às quartas de final antes de ser eliminado pela Espanha, nas prorrogações, por 2 a 1. Não foi um desastre, mas também não foi suficiente para reverter o ceticismo acumulado.
No último amistoso preparatório para o Mundial, jogado em Chicago no Soldier Field, a Alemanha venceu os Estados Unidos por 2 a 1. Uma vitória com valor simbólico, mas que não moveu o ponteiro da confiança popular de forma significativa. Os dados da pesquisa Politbarometer foram colhidos nesse mesmo período — entre 1 e 3 de junho — e apontam para uma desconexão clara entre o desempenho recente em campo e a percepção do torcedor nas ruas.
"Estamos construindo algo novo, com jogadores jovens e com fome. Quero que o país volte a acreditar nessa camisa", declarou Nagelsmann em entrevista coletiva antes do embarque para os Estados Unidos.
A estreia da seleção alemã na Copa está marcada para 14 de junho, contra Curaçao, no Grupo E. Os outros adversários são Costa do Marfim e Equador. No papel, é um grupo administrável para uma equipe de tradição. Na prática — palavra que não uso de forma leviana aqui — o histórico recente exige cautela antes de qualquer projeção otimista.
Uma nação desconfiante do futebol e da entidade que o governa
A desconfiança alemã não para na seleção. A pesquisa da ZDF revelou um dado que vai além do campo: 90% dos entrevistados consideram justificada a acusação de que a Fifa está mais preocupada com dinheiro e comércio do que com o esporte. Apenas 4% discordam dessa avaliação. É um número que contextualiza o pessimismo com a seleção dentro de um quadro maior de desencanto com o futebol como produto institucional.
A Copa do Mundo de 2026 será a primeira com 48 seleções, distribuídas em grupos de três equipes numa fase inicial antes da entrada das 32 classificadas para o mata-mata. O novo formato, criado pela Fifa precisamente para ampliar receitas com mais jogos e mais mercados, é visto com ceticismo por parte considerável da torcida europeia. Para os alemães, trata-se de mais uma prova de que a entidade enxerga o torneio como franquia, não como legado.
A combinação de fatores — eliminações vergonhosas em 2018 e 2022, um técnico ainda em fase de consolidação, um formato de torneio que amplia incertezas e uma desconfiança estrutural na Fifa — forma o terreno fértil em que o pessimismo cresceu. Os 15% que ainda acreditam no título carregam a chama de uma tradição que soma quatro taças: 1954, 1974, 1990 e 2014. A Alemanha estreia contra Curaçao no dia 14 de junho e tem até lá para transformar números de pesquisa em convicção dentro do gramado.








