Diz-se que o Santos tem pleno controle sobre a recuperação de Neymar. Na verdade, não tem — e o motivo importa muito mais do que parece à primeira vista, especialmente quando a Copa do Mundo está na linha do horizonte.
A lesão foi confirmada no dia 19 de outubro: grau 2 no músculo reto femoral da coxa direita, região do quadríceps. Esse tipo de comprometimento muscular carrega uma janela de recuperação que vai de quatro a doze semanas, dependendo da resposta do atleta ao tratamento. Em cenário otimista, Neymar estaria apto para treinar na segunda metade de outubro. No pior dos casos, só na reta final de dezembro — quando o Campeonato Brasileiro de 2026 já estaria encerrado.
O Núcleo de Saúde do Santos foi posto de lado
Passada uma semana da lesão, os bastidores do tratamento começaram a revelar uma situação incomum: quem conduz a recuperação do camisa 10 não é o departamento médico alvinegro, mas o fisioterapeuta particular Rafael Martini e o preparador físico Ricardo Rosa, ambos funcionários diretos de Neymar. São eles que definem a quantidade de sessões diárias, a duração de cada período e os protocolos aplicados — dentro ou fora do CT Rei Pelé.
O Santos conta com Luiz Alberto Rosan como principal fisioterapeuta, profissional experiente que chegou a tratar o próprio Neymar em uma das lesões anteriores nesta temporada de 2026. Agora, porém, o caso simplesmente saiu das mãos do Núcleo de Saúde alvinegro. O jogador comparece ao CT em horários semelhantes aos dos demais atletas — mas, mesmo dentro das dependências do clube, quem manda é o seu estafe pessoal.
Neymar ainda argumentou ao Alvinegro que dispõe de equipamentos em casa suficientes para realizar a maior parte das sessões de recuperação, o que na prática significa que o Santos não tem visibilidade completa sobre o que está sendo feito, com que frequência e em qual intensidade.
O presidente falou uma coisa, a nota oficial disse outra
A confusão de informações não ficou restrita ao campo médico. No domingo 28, antes da partida contra o Red Bull Bragantino pela 25ª rodada do Brasileirão, o presidente Marcelo Teixeira concedeu entrevista ao canal De Olho no Peixe e transmitiu otimismo:

"Neymar teve uma contusão após uma sequência interessante de jogos consecutivos. A questão da contusão cria-se uma repercussão maior por ser ele. Deve ser tratado como os demais. O que nós temos de orientação é que deve retornar antes do fim do Brasileiro", afirmou Teixeira.
A declaração foi clara: Neymar está bem, vai voltar. Ocorre que, pouco depois, o clube emitiu uma nota oficial com um recado diferente — não para garantir o estado de saúde do jogador, mas para informar que todos os exames haviam sido compartilhados com a CBF até a data da convocação. A mudança de foco não passou despercebida pelo comentarista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, que analisou o episódio no canal UOL:
"A posição da nota oficial do Santos não é que o Neymar tá bem. O que o Santos tá dizendo é que compartilhou todos os exames com a CBF. Ou seja, se a CBF não leu o exame, não é problema meu", observou PVC.
A leitura do comentarista expõe uma manobra institucional: o clube se blindou da responsabilidade ao documentar que repassou as informações, mas deixou de sustentar a versão de que o atleta estava em boas condições. São duas posturas que, quando colocadas lado a lado, se contradizem.
O que a CBF herdou desse imbróglio
A convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026 aconteceu mesmo com a lesão diagnosticada. Segundo o Estadão, a CBF levou o jogador para exame logo no primeiro dia de apresentação em Teresópolis — o que PVC reconheceu como o único atenuante da entidade. O problema, na avaliação do comentarista, veio depois: a decisão de mantê-lo no grupo, mesmo com o exame detectando a lesão e indicando duas a três semanas de recuperação.
O técnico Carlo Ancelotti, que conversou com Neymar no fim de semana anterior à convocação, recebeu do jogador uma promessa de comprometimento com o projeto. Uma das demonstrações cogitadas seria antecipar a chegada à Granja Comary, prevista oficialmente para 27 de maio, para que a recuperação continuasse sob supervisão dos profissionais da CBF. O que ainda não estava definido, até o fechamento das informações disponíveis, é se Neymar perderia o amistoso contra o Panamá, marcado para 31 de maio no Maracanã.

O cenário que se desenha é o de um jogador chegando à Copa do Mundo de 2026 com uma lesão muscular de grau 2 em fase de recuperação, tratada majoritariamente por uma equipe particular que não presta contas ao clube contratante nem, até agora, à comissão técnica da seleção. A janela de quatro a doze semanas para o reto femoral é ampla o suficiente para que o desfecho seja tanto um retorno pleno quanto uma ausência prolongada — e a falta de transparência no processo torna qualquer projeção mais difícil de sustentar com dados concretos.
Se Neymar chegar à estreia do Brasil na Copa ainda sob o protocolo de recuperação de Martini e Rosa, sem ter sido submetido a uma avaliação de alta médica clara por parte do departamento de saúde da CBF, qual será o critério objetivo que Ancelotti usará para decidir se o camisa 10 começa jogando — ou se fica no banco enquanto o Brasil precisa de um resultado?








