Quando Ronaldo Fenômeno tinha 25 anos e erguia a taça em Yokohama, em 30 de junho de 2002, os brasileiros nascidos entre 1997 e 2012 ainda não existiam ou eram crianças que mal sabiam o que era um impedimento. Vinte e quatro anos se passaram, e essa geração — a chamada Geração Z — nunca assistiu ao Brasil ser campeão do mundo. Não é uma metáfora. É contabilidade pura: 24 anos de jejum, quatro Copas disputadas, nenhum troféu. E, ainda assim, são justamente esses jovens os mais ansiosos pelo torneio que começa agora.

O número que sintetiza uma geração sem título

Um levantamento global divulgado pelo Datafolha aponta que 71% dos brasileiros planejam assistir à Copa do Mundo de 2026 — índice já acima da média mundial de 59%. Mas quando o recorte se estreita para os homens da Geração Z no Brasil, esse percentual sobe para 84%. Nenhuma outra faixa demográfica chega perto. O dado não é trivial: estamos falando de uma geração que nunca experimentou a euforia de um título, que não tem na memória viva a imagem de Cafu erguendo a taça, que não ouviu o grito de Galvão Bueno em 1994 quando Taffarel defendeu o pênalti de Daniele Massaro em Pasadena. E, mesmo assim, quer mais do que qualquer outro grupo.

A pesquisa, registrada pelo SportNavo em sua cobertura pré-Copa, coloca os jovens de 16 a 24 anos no topo do interesse nacional pelo Mundial. Para Eduardo Mesquita, pesquisador do CEAM-ESPM, o fenômeno não é contraditório — é geracional.

"Isso é passado de geração para geração. E essa mesma esperança que você tem hoje e a geração mais nova tem hoje foi passada de outras pessoas para ela. Então, quando ela senta para ver a Seleção, ela está repetindo o mesmo comportamento que outras pessoas tinham naquele momento de ver o jogo. Independente de a Seleção não ser campeã, o sentimento continua sendo o mesmo. Sentar na frente da TV para assistir a um jogo de Copa do Mundo é um evento social da nossa nação", afirma Mesquita.

Há uma lógica histórica nessa transmissão de afeto. Em 1958, quando o Brasil venceu sua primeira Copa na Suécia com um Pelé de apenas 17 anos, boa parte dos torcedores que foram às ruas comemorar nunca havia visto o país ganhar coisa alguma no futebol internacional. O título não foi precedido por memória de vitória — foi precedido por fé herdada. A Geração Z repete essa estrutura emocional com precisão quase arqueológica.

Como a Geração Z aprendeu a amar o que não viveu

A geração que não viu o penta de 2002 conhece Ronaldinho Gaúcho pelo compilado de 47 segundos que circula no TikTok. Conhece Romário pelo documentário lançado em plataforma de streaming. Conhece o gol de Bebeto contra a Holanda em 1994 — aquele de fora da área, no minuto 53 das quartas de final — pela thumbnail de um vídeo no YouTube que alguém compartilhou no WhatsApp da família. O consumo é fragmentado, mas não é superficial. Camila Augusta Pereira, professora e pesquisadora de comunicação e esporte da UERJ, identifica nesse comportamento um elo novo entre clube e seleção.

"A gente começa a ver um outro desenho, principalmente de uma Geração Z que não viu título nenhum de Copa do Mundo, de uma Geração Z que aposta em alguns jogadores, de uma Geração Z cada vez mais envolvida com o time de futebol pelo qual ela torce. E aí a gente tem uma convocação com muitos jogadores atuando no Brasil. E de jogadores novos, que foram recentemente para fora do país. E muitos desses jogadores são jogadores de títulos com seus clubes. Eles são ídolos dentro dos clubes, e aí vira um elo com o torcedor", observa Pereira.

A convocação de Carlo Ancelotti para 2026 reforça esse argumento com dados concretos: a Seleção Brasileira que vai ao torneio tem o maior número de jogadores atuando no Brasil desde 2002, somando sete atletas. Nomes como Endrick, que retornou ao cenário nacional após passagem pelo Real Madrid, e outros recém-chegados ao futebol europeu carregam consigo uma base de fãs que os acompanha desde o Brasileirão. Quando esses jogadores vestem o amarelo, o torcedor jovem não está apenas apoiando a Seleção — está vendo seu ídolo do clube em campo pela pátria.

Esse mecanismo de identificação é mais poderoso do que parece. Em 1970, quando Pelé, Tostão, Gérson e Rivelino formaram o que muitos historiadores consideram o melhor time de todos os tempos, a audiência televisiva no Brasil era ainda incipiente — estima-se que menos de 30% dos lares brasileiros possuíam aparelho. Hoje, a Geração Z assiste pelo celular, pela smart TV, pelo laptop, pelo tablet, e ainda comenta em tempo real no X, no Instagram e no Discord. A torcida não diminuiu. Ela se multiplicou em telas.

O que 84% de interesse projetam para o torneio

Há uma ironia elegante no centro desse fenômeno: a geração mais desconfiada de instituições, a que questiona narrativas prontas e desmonta mitos com um clique, é também a que mais quer ver o Brasil jogar. Não há ingenuidade nisso — há uma distinção clara entre ceticismo político e pertencimento cultural. A Copa do Mundo, para esses jovens, não é um produto da CBF. É um evento social que pertence à família, à rua, ao grupo do WhatsApp dos amigos.

A Copa de 2026 será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, com o Brasil estreando no Grupo D em data ainda a ser confirmada pela FIFA. O torneio marca também a primeira edição com 48 seleções — formato que amplia o número de jogos e, consequentemente, o volume de conteúdo disponível para consumo digital. Para uma geração que cresceu com Netflix e Spotify, mais episódios significam mais engajamento. Os dados de 84% de intenção de audiência entre jovens brasileiros do sexo masculino sugerem que o Brasil terá, nas arquibancadas virtuais, sua torcida mais jovem e numericamente expressiva desde que a medição sistemática de audiência por faixa etária começou a ser feita, nos anos 2000.

Quatro Copas sem título ensinaram a essa geração que amar a Seleção não depende de vencer — depende de pertencer. O Brasil estreia no Mundial em julho, com um grupo que mistura veteranos de 2022 e jovens que nunca disputaram um torneio desta magnitude. A geração que nunca viu o hexa está pronta para acompanhar cada minuto — falta o Brasil estar à altura do que ela projeta.