Todo mundo sabe que Vinicius Júnior é hoje o jogador mais valioso do futebol brasileiro. Como chegamos à véspera de uma Copa do Mundo sem que ele tenha convencido nem mesmo a imprensa especializada — essa é a parte que ainda não tem resposta clara. Na coletiva realizada nesta quinta-feira em Nova Jersey, o atacante do Real Madrid admitiu sentir a desconfiança que o cerca dentro do ambiente da seleção, e suas expressões disseram tanto quanto suas palavras.

O abismo entre o Vini do Real Madrid e o Vini da amarelinha

Os números no clube espanhol são de outro planeta. Nas últimas três temporadas pela equipe merengue, Vini acumulou participações diretas em mais de 80 gols entre La Liga e Champions League, sendo protagonista em duas conquistas da Liga dos Campeões. Com a seleção brasileira, o retrato é diferente: em 36 partidas disputadas pelo Brasil até o início desta Copa, o atacante marcou apenas 5 gols — média que não sustenta o rótulo de estrela máxima de um torneio mundial.

O abismo entre o Vini do Real Madrid e o Vini da amarelinha Vini Jr. admite desc
O abismo entre o Vini do Real Madrid e o Vini da amarelinha Vini Jr. admite desc

A explicação tática existe e precisa ser dita. No Real Madrid, Vini opera num sistema onde a posse de bola é construída por Modric, Valverde e Bellingham antes de chegar a ele. Na seleção, historicamente, a bola chegou sempre primeiro em Neymar, que durante uma década foi o organizador e finalizador ao mesmo tempo. Sem esse eixo definido, Vini oscila entre tentar criar e tentar finalizar — e não consegue fazer os dois com a mesma eficiência.

"Vinicius Júnior sente, obviamente, a desconfiança da imprensa por ainda não ter chegado perto do futebol que já apresentou no Real Madrid. Falta-lhe protagonismo e assumir a liderança técnica na equipe."

Essa avaliação, registrada por SportNavo a partir das análises pós-coletiva, resume um consenso que cresce entre jornalistas e ex-jogadores. Raphinha, que foi o principal nome do Barcelona nas últimas duas temporadas, também não preencheu esse espaço de liderança quando veste a amarelinha — o que deixa o Brasil numa espécie de terra de ninguém tática.

A sombra de Neymar e o problema do lado direito

Quem não tem cão caça com gato — e a seleção de Carlo Ancelotti chegou à estreia desta Copa caçando com gato em pelo menos dois setores do campo. O lado direito, que seria ocupado por Éder Militão na lateral e Estêvão na ponta, ficou desfalcado por lesões de ambos antes mesmo da competição começar. O plano B, com Wesley e Luiz Henrique, também foi interrompido pela lesão do lateral, deixando Ancelotti com opções limitadas num setor que deveria ser um dos pilares ofensivos da equipe.

Neymar, por sua vez, virou o símbolo de uma contradição que a comissão técnica ainda não soube resolver. Levado à Copa mesmo sem garantia de atuação na fase de grupos, o camisa 10 do Santos — que sentiu a panturrilha direita no dia 17 de maio, durante derrota para o Coritiba — representa exatamente o tipo de aposta que divide opiniões. O comentarista Bira, no canal UOL, foi direto ao ponto:

"Criticamos muito em 2022 a ida do Daniel Alves, que tem um perfil parecido. Até pela carreira e pela história do Neymar no futebol, ele não pode ser o 'cara do pandeiro'. Ou ele joga, ou ele não joga. Fica mal assim."

A comparação com Daniel Alves em 2022 é pertinente e dolorosa. Alves foi à Copa do Qatar como referência de grupo, sem condições físicas de disputar uma partida em alto nível, e o Brasil foi eliminado nas quartas de final pela Croácia, nos pênaltis, após uma atuação apagada justamente no setor em que ele deveria influenciar. A diferença é que Neymar, ao menos em tese, tem condições de entrar em campo — a questão é quando e em que nível.

"É sempre esse sentimento de que estamos no aguardo do Neymar voltar e resgatar aquele auge técnico, mas nunca é o que está acontecendo de verdade."

O que Vini Jr. precisa entregar contra o Marrocos e além

O Brasil estreia nesta sexta-feira, às 19h, contra o Marrocos, em Nova Jersey — a mesma seleção africana que eliminou Portugal e Espanha na Copa do Qatar de 2022, chegando às semifinais de forma inédita para o continente. Não é adversário para subestimar, e o histórico recente de confrontos entre as duas seleções não ajuda a criar confiança: o Brasil nunca enfrentou o Marrocos numa fase eliminatória de Copa do Mundo, mas a equipe de Regragui tem um bloco defensivo entre os mais organizados do torneio.

Para Vini Jr., a estreia representa mais do que três pontos. Representa a chance de encerrar uma narrativa que o persegue desde 2019, quando estreou pela seleção principal. O Brasil não conquista um título de Copa do Mundo desde 2002, quando Ronaldo Fenômeno marcou os dois gols da final contra a Alemanha, em Yokohama, e a seleção chegou a este torneio carregando 24 anos de espera. Ancelotti, que ganhou tudo como jogador e técnico — quatro Champions Leagues como treinador, entre 2003 e 2022 —, enfrenta agora o desafio mais singular de sua carreira: estrear num Mundial comandando o único pentacampeão do mundo.

A responsabilidade sobre Vini não é exclusiva dele, mas o peso recai sobre seu futebol porque ninguém mais no elenco tem o perfil de decidir jogos individualmente no nível que uma Copa exige. É o mesmo cenário que Ronaldinho Gaúcho viveu em 2006, quando chegou à Alemanha como melhor jogador do mundo e saiu na fase de quartas sem conseguir transferir para a amarelinha o que fazia no Barcelona — só que agora a aposta é diferente, porque Vini tem 25 anos, está no auge físico, e o Brasil não pode esperar mais quatro anos para descobrir se ele consegue.