Cortou. Leonardo Balerdi, o zagueiro polivalente do Olympique Marseille capaz de atuar também como lateral-esquerdo, foi eliminado do plantel argentino por lesão antes mesmo de a Copa do Mundo começar. Em seu lugar, Marcos Senesi foi convocado de última hora — e a cena, para quem acompanhou o ciclo de 2022, soa perturbadoramente familiar.
A narrativa do caos que os números desmentem
Circula na imprensa esportiva a ideia de que a Argentina chega ao torneio em frangalhos, fragilizada por uma onda de lesões que comprometeria sua capacidade competitiva. A leitura faz sentido emocional, mas resiste mal ao escrutínio histórico. Em 2022, às vésperas do Mundial do Catar, Scaloni perdeu Giovani Lo Celso, Nicolás González e Joaquín Correa — três jogadores de peso — e convocou Exequiel Palacios, Ángel Correa e Thiago Almada como substitutos. O trio teve participação marginal no torneio. A Argentina foi campeã do mundo.
O paralelo de 2026 é estruturalmente idêntico. Balerdi é o nome mais concreto da lista de ausências. Leandro Paredes, volante do Boca Juniors, não participou de nenhum dos dois amistosos preparatórios contra Honduras e Islândia. Nicolás Tagliafico sofreu lesão na panturrilha e deve desfalcar a equipe ao menos na estreia, marcada contra a Argélia na terça-feira (16). Nahuel Molina também ficou fora dos testes, embora a comissão técnica não demonstre o mesmo grau de preocupação com o lateral-direito.
Guido Rodríguez e Marcos Acuña figuram como alternativas monitoradas caso Paredes e Tagliafico não estejam em condições físicas plenas ao longo do torneio — um sinal de que Scaloni já opera com planos de contingência mapeados, não improvisados.
Dibu Martínez e o teste que mudou o cenário
O elemento que mais pesou sobre o imaginário da torcida argentina nas últimas semanas foi a incerteza em torno de Emiliano Dibu Martínez. O goleiro fraturou o dedo anelar da mão direita na final da Liga Europa, quando ainda defendia o Aston Villa, e não entrou em campo desde então. A comissão técnica o submeteu a avaliações físicas no último dia do período de testes e, segundo a TyC Sports, ele foi liberado para atuar na estreia.
"Dibu passou pelas avaliações e foi liberado para a partida contra a Argélia", informou a TyC Sports, veículo de referência da imprensa argentina, após os testes realizados pela comissão técnica de Scaloni.
A liberação de Martínez tem peso simbólico e funcional. Titular em toda a campanha do título de 2022, ele é o goleiro mais bem avaliado do mundo em métricas de prevenção de gols esperados — seu desempenho nas cobranças de pênalti, em particular, transformou momentos de crise em vantagem estratégica. Perder Martínez seria uma variável de risco de outra magnitude em comparação com os demais desfalques, em matéria do SportNavo publicada nesta sexta-feira (12).
Os desfalques confirmados e os monitorados
- Leonardo Balerdi — cortado por lesão, substituído por Marcos Senesi
- Nicolás Tagliafico — lesão na panturrilha, deve perder a estreia contra a Argélia
- Leandro Paredes — ausente nos dois amistosos preparatórios, situação monitorada
- Nahuel Molina — fora dos amistosos, mas comissão técnica não demonstra alarme
- Emiliano Martínez — fratura no dedo, liberado para a estreia após testes
O que a sociologia do esporte diz sobre gestão de elencos em torneios curtos
Há um fenômeno bem documentado na literatura sobre alto rendimento que os noticiários raramente citam: equipes que chegam a torneios de eliminatória direta com elencos parcialmente renovados por lesões tendem a apresentar maior coesão tática nos jogos decisivos, desde que o treinador mantenha estabilidade no núcleo de liderança. O raciocínio é contraintuitivo, mas sustentado por dados de Copas do Mundo entre 1998 e 2022 — em sete dos doze torneios, o campeão chegou à fase de grupos com pelo menos um titular relevante em recuperação.
Scaloni construiu uma identidade coletiva que não depende de um sistema fixo de onze jogadores. Seu modelo de gestão, observado ao longo do ciclo iniciado em 2018, privilegia a adaptabilidade tática e a manutenção de um bloco de liderança interna — Messi, Martínez, De Paul, Otamendi — sobre o qual variações podem ser absorvidas sem ruptura de desempenho. A convocação emergencial de Senesi para substituir Balerdi segue essa lógica: o defensor do Feyenoord conhece o esquema e já integrou convocações anteriores.
"É possível que o treinador não tenha o elenco completo 100% saudável para o início da Copa do Mundo, mas Scaloni já provou que é capaz de se reinventar", sintetizou o portal Lance! ao traçar o paralelo com o ciclo anterior.
A estreia da Argentina contra a Argélia, marcada para terça-feira (16), funcionará como o primeiro termômetro real do estado físico do grupo. Se Tagliafico e Paredes estiverem fora, Scaloni terá entre 72 e 96 horas para consolidar a escalação alternativa — um prazo apertado, mas dentro do padrão de improviso gerenciado que define sua metodologia. A Argentina conquistou seu terceiro título mundial em 2022 com três titulares cortados antes do início. O número que define o ciclo atual ainda está por ser escrito no placar de terça-feira.








