O silêncio que tomou conta do vestiário italiano após a confirmação matemática da eliminação para a Copa do Mundo de 2026 ecoou muito além das fronteiras da península. Pela terceira edição consecutiva, os tetracampeões mundiais ficarão de fora do maior espetáculo do futebol, uma ausência que transcende estatísticas e toca no âmago emocional de quem vive intensamente este esporte.

Gianluigi Donnarumma, o gigante de 2,96m que defende a meta italiana há mais de uma década, não conseguiu esconder a dor que carrega desde que os últimos cálculos confirmaram o inevitável. O goleiro do Paris Saint-Germain, capitão dos azzurri desde 2021, revelou sentir uma "tristeza enorme" pela eliminação, mas prometeu "virar a página" e seguir em frente. Aos 25 anos, Donnarumma vivenciou apenas uma Copa do Mundo em sua carreira - a do Qatar em 2022 -, experiência que agora se torna ainda mais preciosa diante da perspectiva de mais quatro anos de espera.

O lamento de quem conhece a grandeza italiana

Do outro lado do oceano, na Argentina que se prepara para defender o título mundial conquistado em Doha, Lionel Scaloni expressou sentimento similar ao do arqueiro italiano. O técnico da Albiceleste, que aos 46 anos carrega no currículo as conquistas da Copa América 2021 e da Copa do Mundo 2022, declarou estar "realmente triste" com a ausência italiana no próximo mundial. Para Scaloni, que enfrentou a Itália na final da Copa do Mundo de 2022 - quando os azzurri já estavam eliminados das eliminatórias -, a falta de uma potência histórica empobrece o torneio.

A declaração do treinador argentino carrega peso especial quando lembramos que a Itália eliminou a Espanha de Scaloni nas semifinais da Eurocopa de 2021, num duelo épico decidido nos pênaltis no estádio de Wembley. Aquela seleção italiana, comandada por Roberto Mancini, conquistou o título europeu apenas um mês após a frustração da Copa América perdida para a Argentina no Maracanã. O ciclo virtuoso dos azzurri, porém, não resistiu às turbulências das eliminatórias mundiais.

O peso histórico de uma ausência anunciada

A matemática cruel que selou o destino italiano revela números que machucam: em 12 jogos das eliminatórias europeias, a Itália conseguiu apenas 4 vitórias, 5 empates e 3 derrotas, somando meros 17 pontos. O aproveitamento de 47,2% representa o pior desempenho de uma seleção tetracampeã mundial em eliminatórias desde que o formato atual foi implementado pela FIFA em 1998. Para uma nação que disputou 18 das 22 Copas do Mundo realizadas desde 1930, ficar de fora de três edições consecutivas (2018, 2022 e 2026) configura a maior crise de resultados de sua história.

Os números tornam-se ainda mais dolorosos quando contrastados com a euforia de seleções que garantiram suas primeiras ou raras participações mundiais. O Iraque, que se classificou pela segunda vez em sua história, provocou cenas de júbilo em Bagdá, com fogos de artifício e tiros de comemoração ecoando pelas ruas da capital iraquiana nas primeiras horas desta quarta-feira. Similarmente, as ruas de Sarajevo foram tomadas por centenas de torcedores celebrando a classificação da Bósnia e Herzegovina, país que disputa apenas sua segunda Copa do Mundo.

Reflexos comerciais e esportivos da ausência azzurra

Para além do aspecto sentimental, a ausência italiana representa perdas concretas para a FIFA e para o próprio espetáculo mundial. A Itália possui a quinta maior audiência televisiva do futebol europeu, com cerca de 35 milhões de telespectadores acompanhando jogos da seleção nacional em competições oficiais. A ausência dos azzurri pode resultar em queda de 8 a 12% na audiência global da fase de grupos, segundo projeções da consultoria Sports Business Research divulgadas em dezembro de 2024.

Do ponto de vista técnico, a Copa de 2026 perde uma das escolas táticas mais influentes do futebol mundial. A Itália, berço do catenaccio e responsável por revoluções táticas como a marcação por zona e o líbero ofensivo, não contribuirá com sua tradicional disciplina defensiva e organização coletiva que marcaram época em mundiais anteriores. Desde 1934, quando conquistou seu primeiro título mundial em casa, os azzurri participaram de apenas duas Copas onde não avançaram além da fase de grupos - 2010 e 2014.

A próxima oportunidade italiana de quebrar este jejum surgirá apenas nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2030, que será disputada conjuntamente por Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina, Paraguai e Uruguai. Com Donnarumma tendo 29 anos quando esse ciclo se iniciar, o atual capitão ainda terá chances de liderar os azzurri em busca da redenção que uma nação tetracampeã mundial tanto merece.