A última vez que o Flamengo apostou tão abertamente num meia carioca como peça central de um projeto continental, o nome era Zico. O contexto é diferente, a era é outra, mas a expectativa que recai sobre os ombros de Lucas Paquetá tem aquela mesma textura de cobrança histórica — a que só aparece quando um clube sente que tem, nas mãos, algo raro.
O que ele ainda não resolveu
Números não mentem, mas também não explicam tudo. Nesta temporada, o Flamengo escalou Paquetá em 33 jogos da Champions League — um volume de confiança que poucos meias do plantel podem reivindicar. O problema está no outro lado da equação: 1 gol e nenhuma assistência. Para um jogador da sua categoria técnica, que em 2018 foi eleito o melhor meia do Campeonato Brasileiro pela CBF e pelo GloboEsporte.com, esse retorno ofensivo é a lacuna que a torcida rubro-negra sussurra nos corredores do Maracanã e que os analistas colocam em negrito.
Não se trata de questionar entrega ou presença. Paquetá joga, pressiona, organiza. Mas no futebol de alto nível, futebol bonito sem desfecho é poesia sem ponto final. E o Flamengo, na Champions, precisa de parágrafos completos.
Onde está hoje em relação a esse buraco
Lucas Tolentino Coelho de Lima nasceu em 27 de agosto de 1997 no Rio de Janeiro — mais precisamente na Ilha de Paquetá, o bairro que virou sobrenome e identidade. Formado nas categorias de base do Flamengo, ele explodiu no cenário nacional em 2018, quando tinha apenas 21 anos e já era convocado por Tite para a Copa do Mundo da Rússia, sendo o mais jovem dos 35 chamados. Aquele momento era um prenúncio: o garoto tinha talento para palcos grandes.
Depois vieram passagens pela Europa, onde conquistou a Liga Conferência Europa da UEFA pelo West Ham na temporada 2022-23 — um troféu que poucos brasileiros têm no currículo. Pela Seleção Brasileira, levou a Copa América de 2019. Pelo Flamengo, tem dois Campeonatos Cariocas: 2017 e 2026. É um palmarès respeitável. Mas, como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — e o Flamengo, agora com cão de raça no elenco, quer caçar títulos maiores. A exigência sobe junto com o nível da competição.
O SportNavo mapeou a trajetória de Paquetá nesta temporada e o padrão é claro: ele aparece nos momentos de construção, mas some nas zonas de definição. Aos 28 anos, com 180 cm e 72 kg, o meia tem físico e técnica para habitar os dois mundos — o da criação e o da finalização. O que falta é consistência nessa segunda função dentro do esquema rubro-negro.
O caminho técnico para tapá-lo
Comparar Paquetá com seus pares na posição na Champions League desta temporada é um exercício revelador. Meias que atuam em nível continental semelhante costumam acumular entre 4 e 8 participações diretas em gols em 30 ou mais jogos. O número de Paquetá — 1 gol, 0 assistências em 33 partidas — coloca-o abaixo dessa faixa. Não é uma crise técnica; é uma questão de posicionamento e de leitura de jogo nos metros finais.
O caminho técnico passa por dois ajustes concretos. Primeiro, chegar com mais frequência à área adversária nas chegadas pelo lado esquerdo, que é sua rota natural desde os tempos de base no Flamengo. Segundo, converter a qualidade de passe que ele já demonstra em assistências reais — não apenas trocas de bola que iniciam jogadas, mas passes que terminam em gol. Esses são detalhes que separam um meia de qualidade de um meia decisivo.
Há também a questão da convocação para a Copa do Mundo de 2026, que paira sobre o clube inteiro: notícias recentes indicam que o Flamengo pode ter até nove jogadores no torneio. Paquetá, que já foi convocado em 2018 ainda como jovem promessa, sabe que o técnico Carlo Ancelotti ainda avalia nomes. Essa pressão externa pode ser combustível — ou peso.
O que isso destrava na carreira
Se Paquetá resolver essa equação ofensiva, o que se abre na frente dele é considerável. Um meia de 28 anos, com experiência europeia, dois títulos continentais no currículo e a confiança de um clube como o Flamengo em competição de elite, está exatamente no pico de aproveitamento da curva de carreira. Não é o início da jornada, nem o começo do declínio — é o momento em que os melhores meias do mundo entregam suas temporadas definitivas.
Resolver a lacuna ofensiva também reposiciona Paquetá no debate da Seleção Brasileira. Com a Copa do Mundo de 2026 no horizonte e Ancelotti ainda definindo sua lista, um segundo semestre com números mais expressivos pode ser o argumento mais convincente que o meia carioca tem para apresentar ao técnico italiano.
Fora de campo, Paquetá construiu uma vida sólida no Rio de Janeiro. Casado desde 26 de novembro de 2018 com a nutricionista Maria Eduarda Fournier — que conheceu dentro do próprio Flamengo — e pai de Benício, nascido em abril de 2020, e Filippo, nascido em maio de 2021, ele tem o equilíbrio pessoal que muitos jogadores levam anos para encontrar.
A última vez que o Flamengo apostou tão abertamente num meia carioca como peça central de um projeto continental, o nome era Zico. O contexto é diferente, a era é outra — mas a resposta que Paquetá ainda precisa dar é a mesma de sempre: aparecer quando o jogo pede.








