A bola já estava no fundo da rede quando o árbitro tunisiano Ali Bin Nasser levantou o braço para confirmar o gol. Era o sexto minuto do segundo tempo de Argentina 2 a 1 Inglaterra, quartas de final da Copa do Mundo do México. O goleiro Peter Shilton protestava com os braços abertos, o defensor Steve Hodge — que rebateu mal a bola para o alto — apontava para o punho esquerdo de Diego Armando Maradona. O capitão argentino corria em direção ao banco de reservas com o rosto de quem acabara de fazer algo que não podia ser desfeito. Era 22 de junho de 1986.
O que Maradona fez naqueles quatro minutos no Azteca
Dentro do Estádio Azteca, diante de mais de 114 mil pessoas, Maradona comprimiu em quatro minutos a dualidade inteira de sua carreira. O primeiro gol surgiu de uma tabela com Jorge Valdano: quando Hodge tentou cortar, a bola subiu em parábola alta. Numa disputa aérea improvável com Shilton, o camisa 10 usou o punho fechado para empurrá-la às redes. Às câmeras de televisão, o lance pareceu ambíguo por alguns instantes. Ao vivo, os ingleses souberam imediatamente. Maradona também. Ao ser questionado, o craque descreveu o lance com uma frase que atravessou décadas:
"Foi um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus."
Aos dez minutos da etapa complementar — quatro minutos depois do episódio anterior —, o mesmo jogador recebeu a bola ainda no campo defensivo argentino e iniciou uma arrancada de 60 metros que passou por seis adversários ingleses antes de terminar com Shilton estendido no gramado e a bola no fundo do gol. A FIFA, décadas mais tarde, batizaria aquele lance como o Gol do Século, após votação popular em 2002. O placar final foi 2 a 1, com o gol inglês marcado por Gary Lineker aos 81 minutos.
Por que a Inglaterra não era apenas um adversário naquele dia
O contexto geopolítico do confronto transformou um jogo de futebol em algo mais denso. Apenas quatro anos antes, em 1982, Argentina e Reino Unido travaram a Guerra das Malvinas — um conflito de 74 dias pelo controle do arquipélago no Atlântico Sul que deixou 649 soldados argentinos mortos. A Copa de 1982, na Espanha, havia sido realizada enquanto os combates ainda estavam vivos na memória. Em 1986, o campo do Azteca carregava esse peso específico. Para boa parte da torcida argentina, vencer os ingleses era uma reparação que a política não havia conseguido oferecer.
O zagueiro Oscar Ruggeri, que jogou os 90 minutos naquela tarde, foi direto ao ponto anos depois ao relembrar o significado daquele resultado para o país: nas suas palavras, o vestiário argentino sabia que estava representando algo maior do que uma vaga nas semifinais. O técnico Carlos Bilardo havia construído uma seleção pragmática, organizada em torno de um único gênio — e naquele dia o gênio foi suficiente para tudo.
A escalação argentina no Azteca tinha Nery Pumpido no gol; José Luis Brown, José Cuciuffo e Ruggeri na defesa; Sergio Batista, Héctor Enrique, Ricardo Giusti, Julio Olarticoechea e Jorge Burruchaga no meio; Valdano e Maradona no ataque. Uma equipe funcional, construída para liberar o número 10. Funcionou além de qualquer expectativa.
Quarenta anos depois, a polêmica que Ali Bin Nasser não consegue encerrar
Decidiu. Com o apito de Ali Bin Nasser validando o gol de mão, o debate se instalou para sempre no futebol — e as quatro décadas seguintes não o esgotaram. Em matéria do SportNavo publicada nesta data comemorativa, o episódio segue sendo o mais pesquisado da história das Copas do Mundo no Google Trends, superando inclusive momentos mais recentes. Há uma razão para isso: o gol reúne em um único lance a questão mais filosófica do esporte, que é a fronteira entre a vitória legítima e a trapaceira.
O árbitro Ali Bin Nasser, em entrevistas concedidas ao longo dos anos, sempre manteve que não teve ângulo para ver a irregularidade e que tomou a decisão com as informações que tinha disponíveis naquele segundo. O auxiliar Bogdan Dotchev, búlgaro, tampouco sinalizou. A tecnologia de VAR, que hoje tornaria a anulação automática em menos de 90 segundos, simplesmente não existia. O regulamento de 1986 não previa revisão de imagens.
A trajetória da Argentina após aquele confronto reforça a narrativa épica: a seleção eliminou a Bélgica na semifinal e derrotou a Alemanha Ocidental por 3 a 2 na final, realizada também no Azteca. Maradona encerrou o torneio com 5 gols e 5 assistências — números que, combinados à qualidade das jogadas, levaram a FIFA a lhe conceder a Bola de Ouro do torneio. Foi o bicampeonato mundial argentino, o primeiro desde 1978.
Para a Inglaterra, a derrota deixou uma marca que Lineker, artilheiro do torneio com 6 gols, sempre reconheceu como injusta no mérito — mas inevitável na narrativa. Shilton, que jamais ganhou uma Copa do Mundo apesar de 125 partidas pela seleção inglesa, disse décadas depois que preferia lembrar do segundo gol: "Não havia nada que eu pudesse fazer. Era simplesmente o melhor que já enfrentei."
O que permanece, quarenta anos depois, é uma pergunta que o futebol nunca resolveu com elegância: um gol marcado com a mão pode coexistir na mesma tarde com o gol mais bonito da história sem contaminar um ao outro? A resposta de Maradona, dada em vida com uma mistura de desaforo e charme, era sempre a mesma — e é a única que resiste ao tempo. Ele tinha 25 anos naquele 22 de junho de 1986.








